Diáspora Alagoana, por José Marques de Melo

A noite de 20 de agosto de 2015 registrou um evento paradigmático que certamente vai repercutir no mundo acadêmico. Seu ícone referencial fo

Atualizado em 27/10/2015 às 19:10, por José Marques de Melo.

Por

i o professor Jairo Campos, reitor da Universidade Estadual de Alagoas. Cidade-motriz da rede estadual de ensinopesquisa que cobre estrategicamente toda a geografia alagoana, mais conhecida pela sigla Uneal, Arapiraca foi palco de acontecimento que robustece a metáfora da “moderna tradição brasileira” carimbada pelo antropólogo Renato Ortiz.


Engalanado por trajes inspirados no figurino coimbrão, o reitor liderou o cortejo honorífico, quando, transformado em salão nobre, o saguão da universidade já se encontrava lotado. Ele conduziu os homenageados ao centro do improvisado fórum, acolitado pelos intelectuais orgânicos da região. A marcha triunfal desse pelotão azulado pela cor das vestes ostentadas pelos atores cerimoniais foi magnificamente suavizada pelo repertório de blues que o conjunto musical da cidade escolheu para universalizar a beleza sonora do Concerto de Arapiraca.


O mestre de cerimônia chamou para prestar juramento os intelectuais agraciados com o diploma de doutor honoris causa Dirceu Lindoso, Douglas Apprato, José Geraldo Wanderley Marques, , Luitgard Oliveira Cavalcanti Barros, Marcelo Lavenère, Moacir Palmeira e Moacir Medeiros de Sant’ana. Por motivo de saúde, deixaram de comparecer o escritor Audálio Dantas e o jurista Hermann Baeta.


A solenidade terminou com a audição do “Hino de Alagoas”, conotando traço peculiar da identidade alagoana. O calendário cívico estadual registra burocraticamente o feriado de 7 de setembro, evocando o “Grito do Ipiranga”, símbolo da independência nacional. Todavia, o orgulho comemorativo da cidadania alagoana historicamente tem sido canalizado para a efeméride de 16 de setembro. Nessa data, o povo festeja a emancipação política de Alagoas da província de Pernambuco, tardiamente conquistada em 1817.


Trata-se de singularidade da autoestima coletiva, enraizada na bravura da civilização caeté, território onde Zumbi dos Palmares resistiu heroicamente ao escravismo e à barbárie do colonialismo europeu. Foi também ali que publicistas como Tavares Bastos vaticinaram a autonomia da imprensa como requisito para o exercício do jornalismo plural. E onde também visionários como Octavio Brandão e Nise da Silveira delinearam caminhos para combater a intolerância político-religiosa, a segregação racial e a exclusão socioeconômica.


Cenário que inspirou cineastas como Cacá Diegues a repudiar o patrulhamento ideológico que inibe, por tabela, a expressão dos adversários. Enaltecendo o mérito coletivo da sua diáspora intelectual, a universidade alagoana pratica a rebeldia institucional, jogando uma pá de cal na síndrome do colonizado.