Dia da Imprensa. O Dia do Nada

Dia da Imprensa. O Dia do Nada

Atualizado em 31/05/2010 às 14:05, por Nelson Varón Cadena.

Comemora-se amanhã, ou melhor, deveria se comemorar, o "Dia da Imprensa" e a verdade é que ninguém sabe disso. Uma pesquisa Ibope junto ao público leigo daria resultados desastrosos. Uma outra pesquisa, junto a um público alvo de interesse, digamos jornalistas, ou assessores de imprensa (que as universidades ainda teimam em considerar a mesma "espécie" profissional, embora atendam princípios divergentes entre o público e o privado) com certeza também apresentaria resultados desconfortáveis. Vamos olhar os jornais de amanhã indistintamente. Desafio os leitores a encontrar matérias, ou referências históricas, em torno da data. O "Dia da Imprensa" não existe, a não ser como um adereço a ser exibido por esta, ou aquela entidade de classe, ou para um registro num aparte parlamentar na Câmara, uma vaga lembrança de uma ¨cultura¨ que não vingou.
Quais as razões desse desapego em torno da data profissional de referência da atividade que pauta a nossa profissão? Uma delas, acredito, tem a ver com o fato de ser uma data cronológica relativamente nova, instituída há uma década, num contexto de um lobby de interesses (Correio Braziliense, ANJ e ABI) e de ideologia (Sindicatos de Jornalistas, Fenaj) que resultou num Projeto de Lei aprovado pelo Congresso e sancionado pelo Presidente Fernando Henrique Cardoso. A partir do ano 2000 o "Dia da imprensa" passou a ser celebrado em 1 de junho e não mais em 10 de setembro como era a praxe desde o Governo Vargas. A nova data faz alusão ao jornal de Hipólito da Costa, o Correio Braziliense; a antiga se referenciava à capa de circulação da primeira Gazeta do Rio de Janeiro.
Não cabe aqui polemizar em torno da pertinência, ou não, da mudança da data, embora a argumentação parlamentar, na época, tenha sido instruída pelo preconceito da historiografia oficial, em torno da Gazeta, rotulado apenas como um jornal áulico e oficioso, diferente do que uma leitura mais atenta e sem o viés político das lutas pela Independência revela. O fato é que a data não foi assimilada até hoje, o lobby da oficialização não teve a continuidade desejada, pois atendia interesses imediatos; enquanto isso a data tradicional de 10 de setembro, continuou a incomodar como uma vaga lembrança. Disse vaga, pois nem uma, nem outra data tem importância midiática e nem mesmo acadêmica. Ou as Universidades sabem disso? Quantas instituições de ensino vão lembrar amanhã do "Dia da Imprensa"?
Outras razões Sugiro outras razões para a inexistência do "Dia da imprensa" na mídia. Uma delas a inércia das entidades de classe, às voltas com outras lutas, outros interesses e outras referências, longe de mobilizar os seus associados (através da realização de eventos, por exemplo). Estes por sua vez muito pouco preocupados, também, com o contexto tradicional de militância, superado pela realidade das redações, as rotinas estafantes, o duplo e triplo emprego, e pelo novo contexto do jornalismo onde o conceito tradicional de imprensa não se encaixa na realidade de mercado.
O "Dia da Imprensa" como o Dia do Meio Ambiente, ou o Dia da Mulher, ou o Dia da Consciência Negra, deveria ser um referencial de lembrança da importância da data para um mundo melhor, ou um Brasil melhor, já que estamos falando numa efeméride nacional. Ou seja, uma data para se debater a importância da liberdade de imprensa, afirmar os seus princípios, zelar pela livre informação e pelo cumprimento dos códigos de ética vigentes. Mas nada disso motiva. Mais de duzentos anos já se passaram desde o surgimento da imprensa no Brasil e o foco da omissão continua o mesmo. Naquele tempo, como hoje, o conceito de liberdade de imprensa atendia interesses divergentes, os debates pautados pela manutenção do poder e a correlação de forças em jogo, nesse contexto a imprensa era apenas um instrumento.
E esse é o problema. Continua a ser um instrumento. Não um quarto poder que não existe e seguramente nunca existiu, mais uma perna dos outros três poderes constituídos e reconhecidos e mais um outro, chamado mercado. Simples, O "Dia da Imprensa" não existe, por que a imprensa, como a imaginávamos e a imaginaram os que idealizaram a sua celebração, não existe.