Dez livros fundamentais que todo jornalista deveria ler
Na semana em que se comemora o Dia do Leitor (7 de janeiro), o Portal IMPRENSA pediu o editor de Esportes do Portal R7, Adalberto Leister Fi
Ler bons livros é sempre uma parte essencial na formação de qualquer jornalista. Na semana em que se comemora o Dia do Leitor (7 de janeiro), o Portal IMPRENSA pediu ao jornalista Adalberto Leister Filho uma lista com dez livros que ele considera fundamental.
Editor de Esportes no Portal R7, Leister trabalha há 21 anos como jornalista. Passou pelas redações de Lance!, Folha de S.Paulo, RecordTV e Máquina do Esporte e foi professor em diversos programas de pós-graduação de FAAP, Anhembi Morumbi, FMU e IPOG, entre outras universidades.
Mestre em História pela USP e conhecido por sua paixão pela leitura, Leister sabe que toda lista desse tipo suscita debates. "Livros fundamentais ficaram de fora dessa relação, de autores como Jack London, George Orwell, Guy de Maupassant, Stendhal, Machado de Assis, Lima Barreto, João do Rio, Hemingway, Hunter Thompson, Tom Wolfe, John Hersey... Também desprezei teóricos relevantes que pensaram a comunicação e seus efeitos no público, como Adorno/Horkheimer, Edgar Morin, Maxwell/McComb, Armand e Michele Mattelart e, mais recentemente, Martin-Barbero, Manuel Castells, Henry Kenkins e Pierre Lévy, entre outros. Paciência. Toda lista demanda escolhas e esquecimentos."
Conheça os livros essenciais indicados por Leister:
Crédito: ReproduçãoA sangue frio (Truman Capote)
A tragédia que se abateu sobre a família Clutter, da pequena Holcomb (cidadezinha isolada do Estado do Kansas) ainda é inspiradora para quem quer se embrenhar no jornalismo literário. Truman Capote tece com maestria a história dos meliantes Perry Smith e Dick Hikcock até o desfecho final. Pode ser lido como um bom romance policial.
Os bastidores do The New York Times, principal jornal do mundo, são destrinchados com maestria por Gay Talese. A partir desse livro, é possível entender como funcionam os jogos de poder dentro de uma redação. Também passeamos pelos acontecimentos de mais de um século de jornalismo e grandes coberturas feitas pelo periódico dirigido pela família Ochs-Sulzberger.
Para quem quer se embrenhar pelo jornalismo investigativo, que tal conhecer de perto a história da maior investigação executada por dois jornalistas? Foi a partir do material colhido pela dupla Woodward-Bernstein que o jornalismo norte-americano escreveu algumas de suas mais vibrantes histórias, que culminaram na renúncia do presidente Nixon, em 1974.
Morto precocemente, Foster Wallace tornou-se um grande escritor e também um dos maiores nomes do jornalismo literário do século XXI. Nesse livro há uma compilação de algumas de suas melhores reportagens. A que dá título ao livro fala da divertida fauna que participa de um cruzeiro. “Pense na lagosta” descreve como nossa voracidade por comida fresca pode nos tornar cruéis. Brilhante também é o texto “Federer como experiência religiosa”, sobre como surpreender o leitor, mesmo que seu texto seja publicado um mês depois da final do Torneio de Wimbledon de tênis.
A regra do jogo: o jornalismo e a ética do marceneiro (Claudio Abramo)
Fora da catálogo –o que é uma pena!-, o livro é uma seleção dos melhores textos do jornalista, responsável pelo início da reforma editorial na Folha de S.Paulo ainda nos anos 70. Os textos de Claudio Abramo são inspiradores para superarmos os dilemas éticos da profissão. Sempre que me deparo com um deles, penso nas explanações fundamentais de Abramo sobre a “ética do marceneiro”.
Um dos maiores jornalistas argentinos e também ativo militante de organizações clandestinas que combatiam a ditadura militar, Rodolfo Walsh conta aqui, em letras cruas, a prisão de 12 homens sem qualquer acusação formal. Em um clima kafkiano, todos são conduzidos até a periferia de Buenos Aires e sumariamente executados. O que levou a isso? Assim como Capote, lê-se como um bom romance policial.
Aqui tomo a licença poética de indicar um livro que na verdade são de cinco: A ditadura envergonhada, A ditadura escancarada, A ditadura derrotada, A ditadura encurralada e A ditadura acabada. Obra fundamental para entendermos a ditadura militar em que o Brasil esteve mergulhado (1964-1985). Embora seja possível discordar de algumas interpretações do autor, é notável o poder de síntese, o texto estimulante e a precisão para contar os detalhes dos 21 anos de ditadura no país.
A trajetória do principal empreendedor do jornalismo brasileiro na primeira metade do século XX é contada em detalhes pelo jornalista Fernando Morais neste extenso livro sobre Assis Chatteaubriand. Artífice da chegada da TV ao Brasil e dono do primeiro grande conglomerado de comunicações da história do país, Chatteaubriand também se notabilizou por práticas pouco ortodoxas, como a corriqueiras de chantagem com anunciantes ou ter feito vistas grossas à produção de um jornalismo de invencionices e sensacionalista. Tudo para melhorar a saúde financeira de suas empresas e ajudar nas vendas.
Considerada por muitos a obra fundamental de “A comédia humana”, reunião de escritos de Balzac, As ilusões perdidas narra a história de Lucien de Rubempré, jovem da pequena Angoulême, que chega à Paris com ambição de vencer na carreira literária. Uma a uma, as ilusões do poeta vão se perdendo em virtude da incapacidade de vencer três barreiras: sua origem provinciana, o jornalismo sujo da época e a barreira de classe com a aristocracia. Junto com Bel-Ami, de Guy de Maupassant, é o melhor retrato literário do jornalismo sensacionalista e defensor de causas da Europa no século XIX.
Svetlana Aleksiévitch se tornou, em 2015, a primeira escritora a ganhar o Prêmio Nobel de Literatura por conta de sua produção jornalística. Desde então, tem sido bastante traduzida no Brasil. Para mim, o livro mais surpreendente foi esse, sobre a participação das mulheres no Exército Vermelho, que combateu a invasão nazista à ex-União Soviética durante a 2ª Guerra Mundial. O título é bastante feliz para lembrar as imensas dificuldades que era ser mulher em um ambiente tão masculino como a guerra. Uma delas, contada em muitos depoimentos: as Forças Armadas não forneciam calcinhas às soldadas, que foram obrigadas a usar cuecas durante toda a campanha militar. Um sintoma do fim do conflito foi quando finalmente puderam voltar a vestir roupa de baixo feminina.





