Despreparo de repórteres parece "ser um problema insolúvel", avalia ex-ombudsman Roberto Hirao
Despreparo de repórteres parece "ser um problema insolúvel", avalia ex-ombudsman Roberto Hirao
Eram tempos de impeachment, governo Itamar Franco, massacre no Carandiru, aparição da sigla FHC e do caso Escola Base quando Roberto Hirao atuou como ombudsman do extinto Folha da Tarde. O próprio descreve os dois anos e 25 dias na função - contados a partir de 1º de junho de 1992 - como "uma das mais fascinantes experiências profissionais" de sua vida longe das redações no livro "70 Lições de Jornalismo".
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| Roberto Hirao |
Comedido em seus comentários e justo no momento de pesar a mão sobre os repórteres e editores, o "ombudsman exemplar", conforme avaliação do parceiro de cargo Carlos Eduardo Lins da Silva, da Folha de S.Paulo , ressalta que além de ter um caráter recluso e reservado, para a função de mediar a relação entre o jornal e seus leitores "é preciso forte bagagem teórica e prática, e que tenha o respeito dos demais profissionais".
Nas páginas finais de "70 Lições de Jornalismo", uma surpresa. No texto "As lições da escolinha", Hirao não foge ao chamado à responsabilidade em um dos erros mais estrondosos da história do jornalismo brasileiro, o caso Escola Base. Sem meias palavras: "Este ombudsman também teve sua parcela de culpa no caso". A falha, em sua opinião, foi não ter aconselhado a equipe de reportagem a levantar outras versões referentes à denúncia da mãe de um menino de quatro anos que, segundo ela, sofria abuso sexual em uma escola do bairro da Aclimação, em São Paulo. "O ombudsman deveria ter alertado a Redação de que havia evidências de que a acusação contra a Escola de Base poderia ser falsa. Quem deu o grande furo foi o Diário Popular (atual Diário de S.Paulo ) o único jornal que não entrou na onda. Furo do contrário: nada publicou sobre o caso. Veteranos repórteres que cobriam a área de polícia alertaram a direção do jornal, que decidiu deixar o caso de lado".
Em sua opinião, o mesmo despreparo responsável pelo escabroso da cobertura da Escola Base, e reconhecido nas páginas de seu livro, foi repetido no seqüestro de Eloá Pimentel e se configura como "um problema insolúvel". "Histórias como o da Escola Base e da menina Eloá não acontecem todos os dias e, antes que apareça um novo caso e um novo desastre, os jornalistas deveriam ser treinados para não agir cegamente nesse tipo de cobertura. Não é enfiando um microfone na cara de uma pessoa que um repórter vai evitar tomar um furo", observa Hirao.
A didática dos textos sugerida no título de "70 Lições de Jornalismo" está justamente na análise da mídia pela mídia que, por meio do diálogo estabelecido com o leitor, assume seus equívocos promovendo a contínua renovação e aperfeiçoamento. Hirao então, dotando-se do aspecto humano da notícia, embasa suas observações não apenas na intenção de explicitar erros, mas sugerir caminhos. Assim, a lição não está na indicação do que deve ser feito na construção de uma matéria, mas em seu proporcional contrário: aquilo que se deve evitar.
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