Despreparo de repórteres parece "ser um problema insolúvel", avalia ex-ombudsman Roberto Hirao

Despreparo de repórteres parece "ser um problema insolúvel", avalia ex-ombudsman Roberto Hirao

Atualizado em 22/09/2009 às 18:09, por Eduardo Neco/Redação Portal IMPRENSA.

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Eram tempos de impeachment, governo Itamar Franco, massacre no Carandiru, aparição da sigla FHC e do caso Escola Base quando Roberto Hirao atuou como ombudsman do extinto Folha da Tarde. O próprio descreve os dois anos e 25 dias na função - contados a partir de 1º de junho de 1992 - como "uma das mais fascinantes experiências profissionais" de sua vida longe das redações no livro "70 Lições de Jornalismo".

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Roberto Hirao
Nomeado a partir do comentário de uma repórter da Folha da Tarde que, na ocasião do aniversário de quarenta anos de profissão de Hirao, classificou seus artigos quando ombudsman como "lições de jornalismo", o livro reúne setenta textos em que deslizes de toda a ordem são apontados, mas sem que qualquer parte do diário seja espinafrada. As observações não protagonizam críticas vazias, sem motivo.

Comedido em seus comentários e justo no momento de pesar a mão sobre os repórteres e editores, o "ombudsman exemplar", conforme avaliação do parceiro de cargo Carlos Eduardo Lins da Silva, da Folha de S.Paulo , ressalta que além de ter um caráter recluso e reservado, para a função de mediar a relação entre o jornal e seus leitores "é preciso forte bagagem teórica e prática, e que tenha o respeito dos demais profissionais".

Nas páginas finais de "70 Lições de Jornalismo", uma surpresa. No texto "As lições da escolinha", Hirao não foge ao chamado à responsabilidade em um dos erros mais estrondosos da história do jornalismo brasileiro, o caso Escola Base. Sem meias palavras: "Este ombudsman também teve sua parcela de culpa no caso". A falha, em sua opinião, foi não ter aconselhado a equipe de reportagem a levantar outras versões referentes à denúncia da mãe de um menino de quatro anos que, segundo ela, sofria abuso sexual em uma escola do bairro da Aclimação, em São Paulo. "O ombudsman deveria ter alertado a Redação de que havia evidências de que a acusação contra a Escola de Base poderia ser falsa. Quem deu o grande furo foi o Diário Popular (atual Diário de S.Paulo ) o único jornal que não entrou na onda. Furo do contrário: nada publicou sobre o caso. Veteranos repórteres que cobriam a área de polícia alertaram a direção do jornal, que decidiu deixar o caso de lado".

Em sua opinião, o mesmo despreparo responsável pelo escabroso da cobertura da Escola Base, e reconhecido nas páginas de seu livro, foi repetido no seqüestro de Eloá Pimentel e se configura como "um problema insolúvel". "Histórias como o da Escola Base e da menina Eloá não acontecem todos os dias e, antes que apareça um novo caso e um novo desastre, os jornalistas deveriam ser treinados para não agir cegamente nesse tipo de cobertura. Não é enfiando um microfone na cara de uma pessoa que um repórter vai evitar tomar um furo", observa Hirao.

A didática dos textos sugerida no título de "70 Lições de Jornalismo" está justamente na análise da mídia pela mídia que, por meio do diálogo estabelecido com o leitor, assume seus equívocos promovendo a contínua renovação e aperfeiçoamento. Hirao então, dotando-se do aspecto humano da notícia, embasa suas observações não apenas na intenção de explicitar erros, mas sugerir caminhos. Assim, a lição não está na indicação do que deve ser feito na construção de uma matéria, mas em seu proporcional contrário: aquilo que se deve evitar.

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