Desmatamento: centro da meta ou fim da mata?

Desmatamento: centro da meta ou fim da mata?

Atualizado em 02/12/2008 às 08:12, por Wilson da Costa Bueno.

Entra mês, sai mês e é sempre a mesma toada na mídia: o Brasil desmatou mais, o Brasil desmatou menos e, conforme as estatísticas, o Governo festeja ou se encolhe. E o nosso ministro midiático, em todas as situações, promete mundos e fundos, como se fosse possível a uma andorinha só (ainda que tagarela) fazer verão.


Está na hora de a imprensa largar mão desta pauta viciada e que pouco tem contribuído para esclarecer os cidadãos, visto que, desmatando mais ou menos, sempre serão milhares e milhares de quilômetros de floresta que estão, mensalmente, vindo abaixo. O problema não são as porcentagens, mesmo porque elas são facilmente manipuláveis, imprecisas (o Governo diz uma coisa e as ONGs, que estão lá e sabem efetivamente o que está acontecendo, dizem outra), mas o fato de o ritmo da devastação continuar frenético.


As autoridades, acostumadas à lógica da ciranda financeira e do PIB como indicador de desenvolvimento (confundir crescimento econômico com desenvolvimento é de um primarismo só!), andam dizendo que o desmatamento está dentro da meta. Mas tem meta, centro de meta, fora da meta para a devastação da Amazônia? Esse é o raciocínio sustentável de quem deveria estar praticando o desmatamento zero como objetivo?


Muita gente repete que este país não é sério e somos obrigados a acreditar. Os dados são insofismáveis e não há o que discutir: os Matos Grossos, o Maranhão, Roraima, Rondônia, Tocantins etc estão vendo a floresta desabar, com porcentagens (não é disso que as autoridades gostam?) superiores a 75% em relação a 2007, como é o caso do Maranhão e Tocantins. Mas está dentro da meta, ora bolas!


O ministro Minc anda prometendo uma redução do desmatamento (fala em 40% entre 2006 e 2010 em relação ao período de 1996-2005), preocupadíssimo em conseguir acesso ao Fundo Amazônia, integrado por doações oriundas de países que desejam colaborar com o clima pela redução do desmatamento em nosso país. Mas ele não pode garantir coisa alguma porque o sistema de fiscalização é precário e todo dia tem foto, vídeo, coletiva de ONG, com denúncias envolvendo madeireiros, pecuaristas e plantadores de soja na Amazônia.


É evidente que a culpa não é do ministro, que chegou agora e coordena um Ministério com pouca verba, gente insuficiente e corrupção pipocando aqui e acolá em virtude de relações promíscuas entre criminosos ambientais e fiscais sem nenhum caráter. É mais razoável dizer que a culpa é de todo mundo, nós inclusive, que assistimos passivos a este triste espetáculo pela televisão, derramamos algumas lágrimas e nos recolhemos para dormir. Um processo que se tornou natural de terapia midiática e que, nos tempos da ditadura, se chamava de catarse burguesa.


A pauta ambiental brasileira precisa mudar de rumo e não ficar focada em flagrantes do cotidiano brasileiro, mas contextualizar casos e situações, assumir uma perspectiva de longo prazo porque é assim que deve ser pensado o esforço de enfrentamento da crise ambiental, ainda que ações emergenciais, localizadas, imediatas sejam necessárias.


Fundamentalmente, a pauta nesta área tem que assumir uma enfoque inter e multidisciplinar porque a questão ambiental é complexa, envolve inúmeras competências e tem sempre uma vertente política, econômica e sócio-cultural. A mídia costuma limitar-se a aspectos muito específicos, muitas vezes essencialmente técnicos, esquecendo-se de que meio ambiente tem a ver com cultura, sociedade, saúde e com a soberania dos povos.


Mas a imprensa é assim mesmo: vive à deriva, refém do mosaico informativo que caracteriza suas coberturas e, assim como contempla outras pautas (a esportiva, a policial, a econômica etc), vê a pauta ambiental atemporalmente, descontextualizadamente, acriticamente, assumindo um tom que consegue conciliar, muitas vezes, o alarmismo e a inoperância.


A mídia precisa definitivamente botar o dedo na ferida e enfrentar os grandes interesses que penalizam o meio ambiente: a indústria agroquímica com seus venenos, a indústria da biotecnologia com seus monopólios, a pecuária com sua lógica expansionista e as monoculturas todas com agressões reais à biodiversidade. Deve dar nomes aos bois (Monsanto, Bayer, Bunge, Cargill, grandes frigoríficos, Petrobrás, Souza Cruz, Vale, Aracruz etc), buscando identificar aqueles que agridem o meio ambiente, apesar do discurso hipócrita da sustentabilidade.


A sedução pelos anúncios tem calado boa parte da imprensa brasileira e começa a pressionar até mesmo algumas mídias chamadas ambientais que vivem, por falta de visão das agências de propaganda, anunciantes e sobretudo do Governo (que prefere molhar a mão dos monopólios da comunicação a contribuir para o fortalecimento da mídia local, regional, das rádios comunitárias e do jornalismo ambiental), correndo pires por aí.


Não podemos ficar esperando um novo relatório do IPCC para gerarmos pautas ambientais consistentes, amplas. Temos que investigar, buscar as causas, denunciar os infratores, pressionar os que têm a obrigação de fiscalizar, traçar políticas públicas, propor soluções eficazes para reduzir (os especialistas preferem usar o termo "mitigar" mas ele é "fresco" demais para o meu gosto) o desmatamento.


Dentro da meta ou fora da meta, o problema é que estão acabando com a mata. A 5% de crescimento ao ano ou a 3,8% como parecem apontar as últimas estatísticas (as autoridades investem mais em calcular o dano do que em evitá-lo, observada a cobertura do desmatamento pela mídia), a Amazônia vai acabar mesmo. Tanto faz se isso vai acontecer 20 anos mais tarde ou 20 anos menos tarde, o que importa é que ela, nesse ritmo de milhares de quilômetros quadrados todo ano, vai desaparecer e pronto.


Como a gente não quer isso (nem o Governo e eu não duvido das boas intenções do ministro Minc, como nunca duvidei da Marina Silva) então é melhor fazermos algo menos cosmético, avançando com tudo no pescoço dos criminosos ambientais. Sem trégua, sem lero-lero, com as algemas engatilhadas e muita firmeza.


O combate ao desmatamento não pode ser feito com discursos, documentos vazios, declarações retumbantes e a visão estreita dos "Mangabeiras" que se postaram no Governo, mas como ações concretas, presença nos locais onde o crime acontece (não venham me dizer que ninguém sabe onde a floresta está sendo devastada, hein?) e energia, rigor da lei, vontade política na verdadeira acepção da palavra.


Sabemos que o Governo está preocupado mas isso é pouco, muito pouco para a dramaticidade do problema. Chega de correr atrás do prejuízo, a proposta moderna é pró-atividade, antecipação. Assim como no futebol (somos o país da bola, certo?), para marcar atacantes tinhosos, desses que infernizam as defesas adversárias com seus dribles e arrancadas como são os criminosos ambientais, é preciso chegar junto, se possível antes, para efetuar o desarme. Depois que a motoserra está ligada, o caminhão pronto para carregar as toras e o clarão visível na mata, não adianta mais.


Que a imprensa faça o mesmo e não fique dormindo no ponto, com gente cochilando nas redações esperando as assessorias entrarem em contato para anunciar uma nova coletiva, com almoço farto e pendrive de brinde. Se ela permanecer preguiçosa, corre o risco de mais uma vez anunciar ao mundo que os indígenas invadiram as terras da Vale ou da Aracruz. Muitos coleguinhas têm uma visão de história e um conceito de propriedade de dar pena. Está faltando a disciplina de Jornalismo Ambiental nos cursos de Jornalismo, não há dúvida. Mas, sobretudo, está faltando espírito crítico.