Desafios múltiplos / Unasp - Fernando Torres

Desafios múltiplos / Unasp - Fernando Torres

Atualizado em 26/01/2005 às 17:01, por Fernando Torres.

Teoria das Inteligências Múltiplas já está disseminada no meio acadêmico-pedagógico. A próxima etapa é aplicá-las

Rebeca, 10 anos, 4ª série, era diferente da maioria de seus colegas de classe. Quando a professora contava uma história, as crianças faziam um resumo da mesma em seu caderno; Rebeca fixava a narrativa por meio de desenhos. Ao se depararem com exercícios de Matemática, os alunos copiavam o problema para poder entendê-lo; Rebeca desenhava e só depois o resolvia. Nas aulas de Educação Física e nos intervalos, a garota raramente brincava com os demais; preferia desenhar. Após as provas, surpresa: Rebeca era uma das melhores alunas da turma, mesmo sem copiar uma palavra do quadro negro.

Não, não se trata de um centro de ensino moderno, com metodologias avançadas e disciplinas alternativas. Essa história aconteceu quando as escolas brasileiras ainda viviam sob a ditadura das carteiras enfileiradas, em que aluno inteligente era aquele que tirava boas notas em Matemática, e o trabalho em grupo só existia quando era indispensável. Hoje, o rótulo de Rebeca seria outro se analisado sob a ótica da Teoria das Inteligências Múltiplas, de autoria do neurologista e psicólogo construtivista Howard Gardner. O conceito não é novo é já está disseminado em praticamente todas as escolas brasileiras. Mas vale a pena repetir. Trata-se de uma ruptura com o modelo do QI como padrão absoluto para definir a inteligência de cada pessoa. Em 1983, no livro Estruturas da Mente, Gardner definiu que a inteligência deve ser analisada a partir do modo como as pessoas resolvem problemas de diversas espécies. A teoria valoriza o sentido inverso: que tipo de inteligência originou essa solução.

O psicólogo identificou sete espécies de inteligência: lingüística, musical, lógico-matemática, espacial, corporal-cinestésica, interpessoal e intrapessoal (veja quadro). Mais tarde, mais duas se incorporaram ao esquema, a naturalista e a existencial, esta última ainda em discussão. Conforme a Teoria das Inteligências Múltiplas, essas variações intelectuais são independentes, mas raramente agem isoladamente. O que acontece, geralmente, é a combinação entre elas.

Embora a Teoria das Inteligências Múltiplas seja comumente aceita no meio pedagógico, sua aplicação direta diverge conforme a ideologia e a experiência do educador. O próprio Gardner não acredita que a teoria deva ser um objetivo para a escola. Assim, ela não determinaria o currículo, direcionando, por exemplo, alunos com inteligência musical exclusivamente para essa área. Mas, então, como aplicar a teoria? Afinal, como o próprio Gardner definiu, em entrevista à revista Nova Escola, "existe uma distância enorme entre a teoria científica e a prática em sala de aula".

Aspectos fundamentais

A escola tradicional não se preocupa em se adaptar aos indivíduos, mas sim que estes se adaptem a ela. Este é a primeira característica a ser abolida em um sistema educacional que pretende valorizar as inteligências múltiplas. Para a pedagoga e psicóloga Sandra Silva, "a escola deve respeitar a individualidade do aluno: sua maneira de aprender, sentir e lidar com as situações. Deve trabalhar com a exposição do sentimento". A pedagoga e orientadora vocacional Marly Timm, que recentemente defendeu a dissertação de mestrado "A Escola de Educação Básica como Agente de Educação para a Escola Profissional", completa: "As escolas tradicionais têm que criar um novo paradigma, desaprender um processo já instalado para aprender um novo. Requer professores treinados, qualificados, capacitados para trabalhar com inteligências múltiplas." Pressupõe-se, assim, que as faculdades de Pedagogia já estejam investindo há algum tempo no ensino da Teoria das Inteligências Múltiplas e sua metodologia.

A próxima fase é uma readaptação curricular - ou não. As educadoras citadas divergem nesse ponto. Sandra defende que não deve haver mudanças diretas no currículo em função das inteligências. "Quando uma escola se agarra a uma nova diretriz e muda o currículo bruscamente, dura pouco tempo e ele volta ao que era anteriormente", argumenta ela. Para a pedagoga, a maioria das escolas não estaria preparada para uma mudança de currículo. "Deve-se pensar isso de forma muito lenta, em longo prazo", antevê. Marly, em contrapartida, acredita que as escolas devem se preocupar, sim, em inserir novas propostas em seu currículo, com foco nas inteligências múltiplas. "E isso deve ser feito o quanto antes", incentiva.

Cuidado. Ao mexer com o currículo básico, a escola pode desenvolver ou tolher a inteligência da criança. Deve-se lembrar que o sistema de ingresso à universidade e ao próprio mercado de trabalho ainda enfatiza as inteligências lógico-matemática e verbal-lingüística. Relegá-las seria um erro. O próprio Gardner apresenta algumas reservas quanto à mudança de currículo. O psicólogo defende que a teoria não deve determinar o que se ensina em uma escola, mas como se ensina. Noutras palavras, ele defende uma nova metodologia para aplicar disciplinas convencionais. O professor deve utilizar aspectos da inteligência em potencial para desenvolver as demais, que o aluno tem mais dificuldade. "A teoria influi no currículo à medida que diversifica o modo de transmitir conhecimentos", determina Gardner na entrevista já citada.

Em termos de avaliação, vale a mesma prudência da mudança curricular. É quase redundante lembrar que, de forma geral, os alunos não podem ser avaliados da mesma maneira. "Isso seria desrespeitá-los, pois a forma de inteligência e reação de cada um é diferente", denuncia Sandra. Mas não se pode pretender que haja um tipo de prova para cada aluno. O que o professor deve fazer é investir em vários métodos de avaliação e não apenas no tradicional.

Moldes e técnicas

O ideal, dentro do modelo de aplicação da Teoria das Inteligências Múltiplas, seria uma escola em período quase integral, na qual houvesse espaço para disciplinas gerais e específicas. Assim, a criança desenvolveria todas as inteligências e se nivelaria naquelas com que mais se identifica. De certa forma, aliás, o molde é um contraponto às desvantagens da educação familiar moderna, em que os pais trabalham o dia todo e os filhos ficam na companhia de babás eletrônicas. "A escola poderia caminhar em direção a um trabalho homogêneo em que todos pudessem participar de tudo e desenvolver um pouco, mas que num dado momento houvesse uma valorização daquilo em que um se expressa mais que o outro", propõe a professora Sandra. "Em longo prazo, uma sala de aula com um currículo normal de manhã e, talvez à tarde, uma escola que houvesse um bom espaço pra esporte, música, artes plásticas e cênicas, enfim, onde pudesse ser exercitado aquilo que o aluno gosta mais", complementa.

O problema desse modelo é que nem todas as escolas têm a infra-estrutura necessária para adotá-lo. Em primeiro lugar, as salas de aula estão abarrotadas de alunos - média de 50 -, sendo que o ideal, para desenvolver e detectar as inteligências múltiplas, é um número entre 15 a 20. Adicione a isso a falta de tempo e de professores especializados em determinadas áreas do saber, a musical, por exemplo.

Nesse caso, a alternativa mais viável é a valorização do cotidiano. A professora Marly apresenta alguns métodos fáceis para serem trabalhados diariamente: cantar a tabuada e as regras gramaticais, interagir com o corpo para demonstrar conceitos de Física (graus, rotatividade, ângulos), trabalhar em grupos para desenvolver a comunicação, expressar a compreensão de um texto por meio de desenhos, etc. Vai da criatividade individual do educador. "A escola deve estabelecer com o corpo docente o quanto o professor pode trabalhar com as inteligências dentro da sua área de atuação. E tentar dali usar o máximo de cada inteligência, de forma que toda a escola funcione embasada nelas", apresenta Marly.

Outro caminho é a exposição ao maior número possível de situações em que a criança utilize e revele sua preferência por algumas inteligências. Cabe ao professor apelar a recursos extraclasse: levar eventualmente os alunos a concertos, museus, teatros, promover palestras com músicos, pintores, psicólogos, pastores, atletas, atores, cientistas, escritores, entre outros especialistas, organizar eventos na própria escola no qual os próprios alunos se envolvam em seu planejamento, etc.

A professora Lucienne Dorneles, coordenadora pedagógica do Colégio Unasp, em Engenheiro Coelho, Grande Campinas, procura desenvolver essa prática. Segundo ela, a escola oferece aulas de coral, ginástica olímpica, estética, academia, teatro e literatura, além de promover palestras com vários especialistas. Quando foi entrevistada para essa reportagem, por exemplo, Lucienne estava preocupada com a organização de um concurso de leitura entre as crianças. "Antes mesmo da Teoria das Inteligências Múltiplas se disseminar, nós já procurávamos organizar esse tipo de atividade", relata Lucienne.

Descontadas as metodologias básicas, não existe uma fórmula mágica - o que vale mesmo é a criatividade do pedagogo. A professora Graziele Oliveira leciona para a 4ª série do Colégio Unasp. Ela não diz não sentir dificuldades em desenvolver as inteligências dos alunos, uma turma de 37. Graziele aplicou alguns testes - apesar de ainda não existirem testes validados no Brasil, o professor pode criar um teste "caseiro" - para conhecer o perfil de cada um e, a partir daí, inseriu métodos que valorizam a maioria das inteligências. Para trabalhar com o assunto de ângulos, em Matemática, por exemplo, ela levou as crianças para um espaço amplo e fez com que as próprias crianças personificassem os ângulos. Estimulou assim, sem que os pupilos percebem, a inteligência corporal-cinestésica. Simples e funcional.

Parcerias

A Teoria das Inteligências Múltiplas não pode ser pregada e aplicada isoladamente. Há várias teorias em andamento paralelo ou mais avançado ao redor do mundo. A mais disseminada é a do psicólogo suíço Jean Piaget. Estudioso de crianças, ele defende que a inteligência se desenvolve em quatro estágios: sensório-motor, pré-operacional, operações concretas e operações formais. Conforme suas observações, poucas crianças conseguem pensar em termos abstratos antes dos 13 anos. Na prática, Piaget orienta os educadores a se utilizarem do ambiente e das experiências concretas da criança para educá-la. O psicólogo russo Lev Vigostky também dá contribuições oportunas. O modelo de grupo que ele propõe - pequenos grupos em forma de U, que quando necessário podem se unir em um grande grupo com o professor ao centro - é muito utilizado nos Estados Unidos e vem sendo implantado pouco a pouco no Brasil.

Pode-se dizer que o projeto mais ousado até hoje é a Escola da Ponte, em Portugal. Criada em 1976 pelo professor José Pacheco, o grupo faz uma ruptura severa com os moldes convencionais. Os alunos, cerca de 200 e na faixa dos 6 aos 13 anos, não se organizam por níveis de escolaridade, mas por ciclos, três no total - iniciação, transição e evolução. Também não há salas de aula no sentido estrito da palavra - o termo é substituído por "área aberta". Os dez professores interagem com todos os alunos e vice-versa. O trabalho em grupo é a célula básica da ideologia da Escola da Ponte. Por meio de convênios democráticos, os próprios alunos decidem seus direitos e deveres, desenvolvendo assim a cidadania. O conteúdo, por sua vez, valoriza as questões existenciais (por quê?; para quê?), a reflexão, o pensamento autônomo e a análise crítica. Esqueça provas e resenhas: a avaliação é feita na base da observação informal (enquanto as crianças ainda não sabem escrever) e da auto-avaliação (quando o aluno julga que já dominou determinado conteúdo), esta mediada por um professor experiente na área. Sucesso? Os integrantes da Escola da Ponte garantem que, ao migrarem para escolas tradicionais, seus ex-alunos alcançam os postos de classificação mais elevados.

Diante da dinâmica do conhecimento, teorias e modelos que paradoxalmente convergem-se e mesclam-se entre si, o educador nunca deve estar fechado a novas aprendizagens, mas filtrá-las para os propósitos educacionais. "Os professores devem se manter atualizados, por meio de cursos, palestras, novas obras, visitas a centros que já aplicam a Teoria das Inteligências Múltiplas, estudar suas propostas curriculares e como eles poderiam inseri-las em suas próprias escolas", orienta a professora Marly. O professor deve se desvencilhar do sistema antigo, em que a metodologia já vinha formatada, para adaptar ao novo, em que a criatividade de abordagem é o que mais conta. Um desafio, com certeza.

A propósito, Rebeca, a garota do início dessa reportagem, cresceu. Ironicamente, tornou-se professora de um importante centro educacional em São Paulo. Professora de desenho.

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COMO APLICAR A TEORIA DASINTELIGÊNCIAS MÚLTIPLAS NA SALA DE AULA *
Conhecer as características de cada aluno é fundamental para aplicar a Teoria das Inteligências Múltiplas - mas não é tudo. Seguem-se algumas diretrizes básicas além do plano teórico: a abordagem específica para cada inteligência.
1 - Inteligência Visual-Espacial O aluno com essa inteligência é detalhista, caprichoso, sensível, criativo e se dá muito bem com quebra-cabeças e outros jogos espaciais. Sua percepção visual é aguçada. Pode se tornar arquiteto, artista plástico ou publicitário. Estimule essa inteligência desde a pré-escola, abrindo espaço para a arte. Leve os alunos a museus, pinacotecas e outras exposições eventuais. Traga especialistas que exponham suas obras e conversem com eles sobre a profissão. Peça para os alunos expressarem sua compreensão de um texto por meio de um desenho.Ícone: Tarsila do Amaral, pintora do movimento modernista brasileiro
2 - Inteligência Musical O indivíduo, como o próprio nome sugere, tem muita facilidade para tocar instrumentos, cantar harmonicamente e decifrar ritmos, além de ter um ouvido apurado. Para desenvolver essa inteligência, leve a classe para assistir a concertos, organize grupos vocais nas aulas de Educação Artística, incentive a participação em corais e, se possível, reserve tempo extra para a prática de um instrumento. Transmita conteúdos convencionais de forma criativa: cante a tabuada, os verbos, as regras gramáticas, etc. Insira ritmo na criança.Ícone: Wolfgang Amadeus Mozart, compositor austríaco
3 - Inteligência Cinestésica Pessoas com essa inteligência demonstram graciosidade e leveza ao se movimentar. Podem vir a ser atletas, desportistas, atores ou dançarinos. Além dos jogos nas aulas de Educação Física, interaja com o próprio corpo ao ensinar matérias convencionais, como Física - uma idéia criativa é fazer com que as crianças façam ângulos com o próprio corpo. Exiba bons filmes de vez em quando. Leve as crianças para ver uma peça teatral e estimule-as a fazerem sua própria encenação. Mantenha-se atualizado sobre as competições de atletismo e faça comentários informais com os que desempenham maior potencial.Ícone: Daiane dos Santos, ginasta olímpica
4 - Inteligência Lógico-Matemática É o tipo de "aluno nota 10" da escola tradicional. Tem predisposição para as ciências exatas, apresenta facilidade no raciocínio lógico, é sistemático e resolve problemas rapidamente, vindo a ser, possivelmente, engenheiro ou cientista. Não se entusiasme com os "novos" tipos de inteligência em detrimento dessa, mais comum. Valorize o empirismo nos laboratórios de física, química e biologia; caso a escola não os comporte, use a criatividade para promover experiências na própria sala de aula, lembrando-se sempre de explicar o porquê dos fenômenos. A associação dessa inteligência com a musical dá resultados interessantes.Ícone: Blaise Pascal, matemático francês
5 - Inteligência Verbal-Lingüística Este tipo de aluno também é valorizado pela escola tradicional. Aprende facilmente idiomas estrangeiros e interessa-se por gramática e literatura. Talvez seja jornalista ou escritor. Promova concursos de leitura, traga poesias para a sala de aula e estimule-o o aluno a escrever as suas próprias. Organize excursões à Bienal do Livro e outras feiras culturais. Desenvolva o gosto pela leitura utilizando-se de paradidáticos.Ícone: Carlos Drummond de Andrade, poeta brasileiro
6 - Inteligência Intrapessoal A pessoa consegue facilmente ter acesso ao seu mundo interior, seus anseios, necessidades, rancores e problemas. Filosofia e Psicologia são os cursos mais procurados pelos intrapessoais. De certa forma, a escola tradicional já abre espaço seu desenvolvimento ao valorizar o trabalho individual. Desenvolva o autoconhecimento do aluno. Abra espaço para conversas informais, procure entender suas emoções, reações, medos e anseios. Estimule-o a escrever o que sente. A Teoria da Inteligência Emocional, de Daniel Goleman, é de grande ajuda, tanto para professor como para aluno. Ícone: Clarice Lispector, escritora brasileira
7 - Inteligência Interpessoal Esses indivíduos têm a notória capacidade de se expressar oralmente, cativando aqueles que os rodeiam. Vendedores, comunicadores e conferencistas freqüentemente são dotados dessa inteligência. Aplique trabalhos em grupo - uma alternativa é o modelo proposto pelo psicólogo russo Lev Vygotsky - ou em dupla. Crie atividades em que as crianças possam se ver mutuamente. Procure desenvolver a oratória.Ícone: Mahatma Gandhi, filósofo indiano
* Consultoria: professoras Marly Timm e Sandra Silva