Depoimentos de Eliane Brum

Depoimentos de Eliane Brum

Atualizado em 14/10/2009 às 10:10, por Karina Padial e  da equipe de reportagem.

Por

ENVOLVIMENTO

"Eu não consigo ver a vida assim: isso é pessoal, isso é trabalho, isso é humano, isso não é humano. Para mim o que é trabalho é absolutamente pessoal. Eu não entendo essas separações. Como é que o trabalho não vai ser algo muito pessoal? E o que me fascina nessa profissão é enxergar as pessoas, conseguir alcançá-las. Isso pressupõe uma entrega, tanto minha como das pessoas que eu entrevisto, das pessoas que abrem as suas casas para mim."

INTERFERÊNCIAS

"Quando eu digo que tento interferir o mínimo possível é especialmente na escuta. Não pressiono: eu escuto muito mais do que pergunto. Eu acompanho e fico ouvindo, observando muito mais do que querendo saber coisas. Por exemplo, no caso do Paulo, se eu tivesse perguntado: 'Paulo, você está muito triste?' Ele ia dizer: 'claro, estou muito, muito triste'. Ele não ia dizer que o que ele sentia era como uma 'neve escura'. Eu jamais saberia que o Paulo, que nunca viu neve, diria uma 'neve escura'. Então, esse cuidado de escuta, de saber como as pessoas falam, como elas expressam aquilo que sentem, é muito importante. Eu espero que as pessoas possam se sentir elas mesmas, saber que elas podem ser elas mesmas, que não estou esperando que elas sejam um personagem, que eu sou capaz de escutar seja o que for o que elas tenham para me dizer. Não quero personagens, quero chegar o mais perto da verdade daquelas pessoas."

LIMITES

"Nunca ajudei financeiramente. Eu acho que tem vários limites. Cada matéria é uma grande reflexão sobre limites. É difícil saber o que é o mais certo fazer, mas dinheiro especificamente é uma coisa que eu tento evitar. Eu posso ajudar eventualmente a encontrar uma pessoa que eventualmente faça terapia, que dê acesso à terapia para o Paulo, por exemplo, e isso eu fiz. É difícil eu falar hipoteticamente, mas eu não deixaria ninguém passando frio. Tem uma matéria que eu fiz com o Tião Nicomedes, um escritor de rua, sobre o movimento literário da periferia. O Tião é uma figura muito impressionante. Ele conseguiu reinventar a vida dele, não se matar, pela escrita. E numa entrevista que fiz para essa matéria, era inverno, e a gente conversou longamente e uma questão muito forte para ele era o frio, que é um grande sofrimento. Não só dele, mas de muitos moradores de rua, especificamente em São Paulo. E o Tião é um cara que escrevia com frio e o frio fazia um estrago pra ele. Depois da entrevista fomos escolher um cobertor para ele, um coberto azul. E não foi por nada, foi só porque ele estava passando frio, não foi porque eu queria dar um presente pela matéria, ou era um ato de caridade, nunca foi entendido dessa maneira. Foi uma coisa de gente, de amizade. Até quando o fotógrafo foi fazer a foto, eu falava na matéria do frio e na foto tinha aquele cobertor gigante azul. Essas são as minhas interferências. Eu jamais conseguiria... E aí são coisas básicas, não é porque eu sou repórter em qualquer circunstância."

PONTE

"Uma vez fui fazer uma matéria de catadores de caranguejo. O cara estava com tanta fome e a família com tanta fome que não tinha nem como falar, ele não conseguia falar de tanta fome, não tinha conseguido vender nada naquele dia e a gente foi comer, eu não posso entrevistar ninguém com fome. Eu sei que não estou resolvendo o problema dele, sei que não estou resolvendo nada. Mas não é essa a questão. Tu ter fome naquele momento, ter frio, é uma coisa que é importante. Agora com dinheiro acho muito complicado. O dinheiro tem um outro peso. Eu tento sempre usar, em geral depois que a matéria é publicada, coisas que existem e que as pessoas têm direito. Como eu trabalho muito na periferia, às vezes com pessoas que não têm ponte, o que eu tento fazer é ajudar elas a chegar naquilo que elas têm direito, como serviço público de saúde. Eu sempre deixo muito: tu tem que contar o que achar importante ou tu não conta. Isso não tem que ser uma troca de favores. Isso seria mortal para mim."

PESSOAS

"Eu acho que temos que pensar mais no compromisso que temos com as pessoas porque são pessoas. Eu também uso a expressão 'personagens', têm tantos 'personagens' para essa matéria, vamos fazer um box com o 'personagem'. É o jeito de chamar e eu também uso esse jeito, mas eu me questiono um pouco se é ou não tão inocente. As pessoas não são personagens. Personagens a gente pode abandonar e pode ir para o próximo, personagens são passageiros, de ficção, mas esses personagens são reais, são pessoas. Então a gente tem que ter compromisso com as pessoas. Meu compromisso com o Paulo, como jornalista, como gente, é até ele ficar vivo. E compromisso de quê? Não é resolver a vida dele, não tenho essa possibilidade, mas o compromisso de contar sua história, que é isso que eu sei fazer."