Depoimento: "Só percebemos que se trata de um abuso quando acaba", conta jornalista
O recente caso de assédio do cantor Biel contra a repórter do portal iG fez IMPRENSA retomar um assunto que debateu há um ano: o assédio moral e sexual contra jornalistas.
Atualizado em 10/06/2016 às 14:06, por
Vanessa Gonçalves.
Para debater este tema, foi lançada a campanha , na qual jornalistas e comunicadores de todo o Brasil podem contar suas histórias, sob anonimato.
O primeiro relato é da jornalista Elisa Melo* , que sofreu assédio durante uma entrevista de emprego.
"Estagiei em um grande jornal de São Paulo e passei a colaborar com o veículo depois de formada. Com a crise que atinge a imprensa, passei a procurar um emprego fixo.
Através de um ex-colega de jornal, fui indicada para uma entrevista de emprego em uma assessoria de imprensa que atua na área de esportes. Logo quando cheguei, encontrei os dois responsáveis pela empresa falando o quanto uma candidata a estagiária que haviam entrevistado era gostosa.
Fingi que não ouvi o comentário, porque sempre pensamos que isso não vai acontecer com a gente. Bom, logo que começaram a me entrevistar, passaram a fazer algumas perguntas idiotas, mas aceitáveis, como, por exemplo, quem era meu ídolo no futebol.
Ambos disseram que deveríamos fazer uma conversa informal, ou seja, eles já estavam querendo criar um 'clima informal' quando começaram a falar comigo.
Foi aí que o assunto se desviou e passaram a fazer perguntas de cunho pessoal. 'Você já saiu com alguém do jornal?'. Segundo eles, a justificativa para a questão é porque sabiam que o veículo no qual tinha trabalho anteriormente era um lugar de 'pegação geral'. Daí descambaram para perguntas pessoais e comecei a rebater uma a uma, tentando levar com jogo de cintura, na brincadeira.
Me questionaram o que eu diria para eles se não se tratasse de uma entrevista de emprego. Não perdoei e disse: 'Vocês foram extremamente escrotos por deixar uma candidata a trabalhar aqui ouvi-los falando dessa forma de uma estagiária'.
Porém, só percebemos que se trata de um abuso quando acaba. Foi aí que percebi que estava numa sala sozinha, com três homens que estavam falando vários absurdos. Hoje, com certeza, na primeira pergunta pessoal que não tivesse relação nenhuma com trabalho, eu levantaria e iria embora.
Só nos damos conta do absurdo daquela situação quando você sai dela. É muito difícil você rebater perguntas como essa numa situação de entrevista de emprego. Porém, vejo que tive coragem de rebater a maioria delas. Me senti extramente invadida. A sensação foi péssima. Como se eu fosse um "enfeitinho" na sala deles.
Enfim, quando saí da sala dos donos, o colega que tinha me convidado para a entrevista ainda tentou justificar a atitude deles, ressaltando que os sócios eram meio "sem noção", mas que meu trabalho não seria direto com eles.
Mas só piora. Depois de tudo isso, ainda me ofereceram um salário menor que de um estagiário. Só que um ex-colega fez entrevista para a mesma vaga e propuseram um salário melhor. A alegação para essa diferença era o tempo de formado. Embora esse rapaz seja um pouco mais velho, ele tinha o mesmo tempo de experiência que eu na área. No fundo, desconfio que o valor era menor por se tratar de uma mulher.'
Campanha Sem Assédio na imprensa
O objetivo da campanha é mostrar como repórteres do sexo feminino e masculino estão expostos ao assédio moral e sexual, tentando encontrar ao lado de especialistas e das entidades ligadas à imprensa formas de reduzir/acabar com esse tipo de ação com soluções práticas.
Os interessados podem mandar seus relatos para o e-mail: redacao@portalimprensa.com.br, colocando no assunto: depoimento sem assédio na imprensa , até 17 de junho. Garantimos que sua identidade e a do assediador serão mantidas em sigilo.
* O nome foi alterado para respeitar a privacidade da jornalista.
O primeiro relato é da jornalista Elisa Melo* , que sofreu assédio durante uma entrevista de emprego.
"Estagiei em um grande jornal de São Paulo e passei a colaborar com o veículo depois de formada. Com a crise que atinge a imprensa, passei a procurar um emprego fixo.
Através de um ex-colega de jornal, fui indicada para uma entrevista de emprego em uma assessoria de imprensa que atua na área de esportes. Logo quando cheguei, encontrei os dois responsáveis pela empresa falando o quanto uma candidata a estagiária que haviam entrevistado era gostosa.
Fingi que não ouvi o comentário, porque sempre pensamos que isso não vai acontecer com a gente. Bom, logo que começaram a me entrevistar, passaram a fazer algumas perguntas idiotas, mas aceitáveis, como, por exemplo, quem era meu ídolo no futebol.
Ambos disseram que deveríamos fazer uma conversa informal, ou seja, eles já estavam querendo criar um 'clima informal' quando começaram a falar comigo.
Foi aí que o assunto se desviou e passaram a fazer perguntas de cunho pessoal. 'Você já saiu com alguém do jornal?'. Segundo eles, a justificativa para a questão é porque sabiam que o veículo no qual tinha trabalho anteriormente era um lugar de 'pegação geral'. Daí descambaram para perguntas pessoais e comecei a rebater uma a uma, tentando levar com jogo de cintura, na brincadeira.
Me questionaram o que eu diria para eles se não se tratasse de uma entrevista de emprego. Não perdoei e disse: 'Vocês foram extremamente escrotos por deixar uma candidata a trabalhar aqui ouvi-los falando dessa forma de uma estagiária'.
Porém, só percebemos que se trata de um abuso quando acaba. Foi aí que percebi que estava numa sala sozinha, com três homens que estavam falando vários absurdos. Hoje, com certeza, na primeira pergunta pessoal que não tivesse relação nenhuma com trabalho, eu levantaria e iria embora.
Só nos damos conta do absurdo daquela situação quando você sai dela. É muito difícil você rebater perguntas como essa numa situação de entrevista de emprego. Porém, vejo que tive coragem de rebater a maioria delas. Me senti extramente invadida. A sensação foi péssima. Como se eu fosse um "enfeitinho" na sala deles.
Enfim, quando saí da sala dos donos, o colega que tinha me convidado para a entrevista ainda tentou justificar a atitude deles, ressaltando que os sócios eram meio "sem noção", mas que meu trabalho não seria direto com eles.
Mas só piora. Depois de tudo isso, ainda me ofereceram um salário menor que de um estagiário. Só que um ex-colega fez entrevista para a mesma vaga e propuseram um salário melhor. A alegação para essa diferença era o tempo de formado. Embora esse rapaz seja um pouco mais velho, ele tinha o mesmo tempo de experiência que eu na área. No fundo, desconfio que o valor era menor por se tratar de uma mulher.'
Campanha Sem Assédio na imprensa
O objetivo da campanha é mostrar como repórteres do sexo feminino e masculino estão expostos ao assédio moral e sexual, tentando encontrar ao lado de especialistas e das entidades ligadas à imprensa formas de reduzir/acabar com esse tipo de ação com soluções práticas.
Os interessados podem mandar seus relatos para o e-mail: redacao@portalimprensa.com.br, colocando no assunto: depoimento sem assédio na imprensa , até 17 de junho. Garantimos que sua identidade e a do assediador serão mantidas em sigilo.
* O nome foi alterado para respeitar a privacidade da jornalista.





