Depoimento: "Perdi o chão. Precisava do emprego e tinha acabado de ser assediada"

O caso de assédio do funkeiro MC Biel contra a repórter do portal iG, que acabou sendo demitida após a repercussão do caso, fez IMPRENSA retomar o debate sobre assédio moral e sexual contra jornalistas.

Atualizado em 23/06/2016 às 11:06, por Vanessa Gonçalves.

Para discutir este tema, foi lançada a campanha , na qual jornalistas e comunicadores de todo o Brasil podem contar suas histórias, sob anonimato.




O terceiro relato é da jornalista Paula Fonseca * , que sofreu assédio durante anos no veículo onde trabalhava.

"Meu primeiro assédio aconteceu quando ainda era estudante de jornalismo. Procurava por um emprego para poder me sustentar na cidade onde morava e cursava a universidade. Em um anúncio de jornal, vi que havia uma agência de empregos bem próximo de onde morava. E, para minha sorte, tinha vaga para auxiliar de escritório e era exatamente nisso que tinha experiência até então.

Chegando no local, que era bem estranho, o dono da agência disse que tinha uma vaga melhor para mim. Porém, para isso, precisava tirar fotos de lingerie e biquíni para ser selecionada.

Perdi o chão. Precisava do emprego e tinha acabado de ser assediada. Tinha 20 anos, estava longe da família e não tinha para onde correr. Mas corri. Constrangida, agradeci a oportunidade e saí do lugar correndo, literalmente. Mas fiquei com medo. O cara tinha meu currículo e meu endereço. E se ele fosse atrás de mim? Por sorte, nada de pior aconteceu.

O segundo assédio aconteceu quando trabalhava como redatora em uma agência de publicidade em São Paulo. Meu ex-chefe era o típico 'garanhão'. Nunca fui muito com a cara dele, mas precisava do emprego, então tinha de engolir alguns sapos. Trabalhei 7 anos nesse lugar e por anos sofri assédio dele, mas não deixava barato.

Uma certa vez ele começou a massagear minhas costas. Fiquei espantada e dei um pulo da cadeira. Disse para ele que não tinha esse tipo de intimidade e cortei as asas dele. Porém, ele não desistia. Vira e mexe vinha com assuntos sobre sexo, sacanagem, como se isso pudesse despertar em mim algum interesse. Mas não, me dava ainda mais raiva e nojo dele.

Corriam histórias na agência de que ele já tinha saído com outras funcionárias. Mas, nem de longe, queria isso para mim. Sempre tive consciência de que se cedesse ao assédio, minha carreira iria para o esgoto.

Presenciei e vivi diversos atos de assédio moral e sexual dele com outras funcionárias. E minha determinação era arrumar outro emprego e sair de lá correndo. Mas tinha um porém: eu ganhava bem e dependia dessa grana para sustentar minha família. Era um dilema.

A pior das situações aconteceu quando um dia ele me chamou para contar que tinha tido um sonho erótico comigo. Será que ele achou que isso iria me dar tesão e vontade de ceder ao assédio? Pelo contrário, resolvi peitá-lo e avisar que se tivesse qualquer outro tipo de atitude como aquela eu iria denunciá-lo. Nunca tinha dado abertura para qualquer proximidade dele para tanto absurdo.

Não sei se isso me prejudicou. Meses depois fui demitida e, obviamente, numa situação de assédio moral. Depois de 7 anos na empresa, fui chamada e demitida no meio da rua. Fiquei extremamente abalada com isso, porque sempre me dediquei muito ao trabalho. Porém, no mesmo instante fiquei aliviada: nunca mais teria de ficar perto desse assediador. Eu estava livre…apesar das marcas"

Campanha Sem Assédio na imprensa
O objetivo da campanha é mostrar como repórteres do sexo feminino e masculino estão expostos ao assédio moral e sexual, tentando encontrar ao lado de especialistas e das entidades ligadas à imprensa formas de reduzir/acabar com esse tipo de ação com soluções práticas.
Os interessados podem mandar seus relatos para o e-mail: redacao@portalimprensa.com.br, colocando no assunto: depoimento sem assédio na imprensa. Garantimos que sua identidade e a do assediador serão mantidas em sigilo.

* O nome foi alterado para respeitar a privacidade da jornalista.

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