Depoimento de Felipe Trigo, sócio-diretor da agência Friends In the World, em São Paulo e Danielle Novis, secretária de Turismo de Alagoas.

Depoimento de Felipe Trigo, sócio-diretor da agência Friends In the World, em São Paulo e Danielle Novis, secretária de Turismo de Alagoas.

Atualizado em 20/01/2011 às 14:01, por .



Felipe Trigo, sócio-diretor da agência Friends In the World, em São Paulo

Vejo com frequência Folha e Estadão, pois toda semana se dedicam a um tema e o exploram bem. Trazem bastante informação, bem aprofundada. De revistas, a principal é a Viagem e Turismo, sempre com bastante abrangência de destinos e temas. Recentemente surgiu a Viajar, que segue a mesma linha. A Top Destinos é bem legal, tem bastante ilustração, não é tão rica em conteúdo, mas traz algumas coisas mais diferenciadas, mesmo nos destinos convencionais traz um lado B. Travel Ways também é nova, é dos seguros Travel Ways, é mais do trade mesmo, sai bastante informação das operadoras e dos destinos em alta também... Na internet, gosto muito do iG turismo, acho que está sempre se renovando, e o Viaje Aqui, que é mais para o consumidor final. Para gente é sempre interessante saber o que estão divulgando lá, o Mundo Eco não é tão conhecido, mas foca em natureza e esse tipo de coisa, o que é bom.

A parte da abordagem dos temas e a escolha de destinos são bem feitos. É um ponto alto, andam procurando por destinos diferentes, saindo um pouco do senso do comum dos brasileiros, vão para Ásia, Nova Zelândia, não só Europa, EUA, América do Sul. O ponto negativo é o timing de abordagem de divulgar esses destinos. O brasileiro mudou o perfil de comprador e começa a se programar com antecedência. Quando os veículos estão abordando esses temas, geralmente já é tarde. Por exemplo: agora, nos feriados de novembro, para quem trabalha com turismo já é tarde pegar eventuais leitores. Muita coisa já foi vendida e o preço já está mais alto, fica difícil vender. Até entendo que do ponto de vista do consumidor pode fazer sentido. Mas se você pretende uma viagem para Disney, por conta do Dia das Crianças, chega outubro e já não tem mais nada para vender. O calendário da imprensa está um pouco atrasado, então tem que acompanhar o ritmo dos fornecedores.
Acho que falta um pouco de ênfase sobre idiomas. Por conta dos grandes eventos que virão, o brasileiro vai ter de estar preparado para falar inglês e acho que ainda falta isso. Principalmente fora dos grandes centros, precisa criar esse censo de urgência nos empreendedores brasileiros. Nos aeroportos, no turismo receptivo, principalmente fora dos grandes centros. São Paulo e Rio de Janeiro, que já estão acostumados a receber turismo o ano inteiro, devem sofrer mas não tanto. Em termos de qualidade e preparação a gente já tem. As outras cidades têm muito para desenvolver nesses quatro anos.

O Ministério do Turismo está começando a desenvolver projetos de receptivo maiores, mas ainda está engatinhando. Intercâmbio é uma coisa que muitas universidades brasileiras tem direto com universidades lá fora, as agências saem um pouco disso. O Brasil como destino idiomático pelo português tem certo potencial, mas ainda é pouco explorado. Fazemos parte da Belta [Brazilian Educational & Language Travel Association], e lá percebemos que o português está com forte presença internacional. Na América Latina em geral a gente já vê um pouco disso: uruguaios, chilenos, mexicanos já começam a se preocupar com português, pelo Brasil ser a potência sulamericana. Já tem gente que vem ou mesmo que estuda português no próprio pais onde mora. Acho que não tem a cobertura dessa necessidade e abertura de mercado para ensino de língua portuguesa no jornalismo. Vale a comparação com a China, pois o mandarim virou um idioma importante para empresários, aumentou esse mercado. O brasileiro precisa se antecipar a esse movimento, e pode ser com pautas jornalísticas.

O principal é essa questão do calendário, atentar para antecipação do brasileiro em obter os destinos antes das temporadas. Alguns problemas da Polícia Federal não emitir passaporte por causa do prazo longo, é importante bater nisso, pois prejudica o mercado em geral. É importante chamar a atenção para isso para que o Brasil não perca os negócios por conta desses atrasos. O visto americano que está com mais de cem dias de agendamento, por exemplo... Tem de trazer essa abordagem. Falta muitas informações sobre passaporte, os vistos, qual é a burocracia, o tempo que se gasta etc.

Outro assunto mais interno do mercado é a falta de sinergia entre agências, operadoras, companhias aéreas, hotéis... Acaba ocorrendo concorrência interna. A compra através da agência acaba ficando mais cara porque muita companhia aérea não está mais repassando verba. E turistas buscam mais preço do que atendimento. Hotéis e internet difundem isso e tornam mais acessível, mas perde essa sinergia interna entre o mercado.

Danielle Novis, secretária de Turismo de Alagoas.

Acompanhamos todos especializados, uma referência é o Panrotas, o Mercado e Eventos, o Brasil Turis e a Folha Turismo, às vezes também o Jornal do Turismo, Leio esses jornais muitas vezes durante o dia pelos sites e também pelo impresso, eles noticiam não só o que acontece aqui no meu estado, mas também no exterior e principalmente o que acontece entre o trade, notícias institucionais, de mercado, dos eventos que estão acontecendo. Um apanhado, uma grande colcha de retalhos que nos da um panorama sobre o que está acontecendo. Também acompanho muito Viagem e Turismo, Próxima Viagem, Viaje Mais e os Guias da Abril, as Vejinhas... A gente vai monitorando os estado concorrentes, de uma forma saudável. Outros grandes veículos são as revistas de bordo, desde a Tap, como a revista de bordo da Tam, da Gol , da WebJet, da Azul... A Tam também tem uma chamada Viajantes que é bacana , linguagem acessível, muito interessante aos olhos. Folha, Estadão, O Globo a gente sempre está acompanhando, colocando anúncio, assim como as revistas semanais de forma geral, como Veja Exame, IstoÉ. Localmente, também acompanhamos os jornais e sites, que são vários hoje.

O setor de turismo como um todo tem crescido muito e a forma da mídia tratar também evoluiu, saiu das colunas sociais e passou para o caderno de economia. Embora tenha um "quê" muito lúdico, é um tipo de serviço com valores intangíveis, então é muito bom ver o setor de turismo hoje nas páginas de economia e de negócios, como algo que gera emprego, desenvolvimento econômico. Acho interessante também sair do lugar comum, as matérias veiculadas conseguem fugir do "turismão básico" de massa, alguns nichos e experimentos começam a ser explorados, como luxo, gastronomia, melhor idade, lua de mel... É um olhar diferenciado, não naquele patamar geral, global, relatado da mesma forma sempre. Os veículos começam a segmentar suas matérias. Pra gente é sempre interessante, para uma coisa diferencial, de qualidade aqui para Alagoas, até por ser um estado pequeno.
Acho positiva também a associação de segmentos, como veículos de moda que tem grande ligação com entidades locais ligadas a esse trabalho, além de gastronomia, música,... Você consegue atingir outro tipo de público, que não tem um interesse tão direto. Alguém de moda desperta curiosidade em revistas femininas, como Claudia, Marie Claire, Nova, em associação com turismo. Isso é muito positivo. A revista da Le Lis Blanc tem uma editoria de turismo que vira página de colecionador! Aqui em Alagoas temos procurado fazer isso, associar ao turismo coisas que são boas e dão certo.

Historicamente, o turismo cresce nos editoriais, em todos eles: economia, cultura etc. As pessaos estão participando mais desse mercado. Mas, ao mesmo tempo em que eu vejo uma preocupação em diversificar e segmentar, ainda há um inchaço muito grande de matérias tradicionais, pouco criativas na forma como o conteúdo é relatado. Principalmente nos veículos menores. Mudam os jornalistas, mas as matérias são as mesmas. Sinto que isso ainda acontece, principalmente quando recebo jornalistas convidados.
Apesar de estarmos avançando nos cadernos econômicos, ainda temos poucos indicadores. Esses estudos comparativos, principalmente no que se refere aos estados, são raros... É também um mea culpa, já que os estados e governo deveriam produzir e disponibilizar mais dados. É basicamente culpa das fontes de informação. Mas pode ser uma via de mão dupla, já que se o jornalista pedisse mais por indicadores, talvez houvesse mais números disponíveis. Talvez o jornalista de turismo entenda que esse tipo de reportagem só pede aquela linguagem mais poética, um relato, uma história ligada à cultura, a serviços... Mas às vezes tem de ser diferente, principalmente para veículos maiores, tem de ter dados também.
Esse amadurecimento e crescimento do turismo é notório. Hoje a gente consegue sair do "basicão". Consegue ter bastante coisa em gastronomia, luxo, aventura, moda, cultura... A gente tem conseguindo mostrar isso. E evidenciando esses valores agregados, é muito interessante para a imagem do país através dos estados. Como o cinema pode ajudar isso, por exemplo? O "Bem Amado" foi filmado aqui em Alagoas e usamos muito isso para mostrar o destino, juntamos informações turísticas ao fato de terem filmado aqui... É mais uma pauta que pode ser vinculada. Acho que é um processo de maturidade, de amadurecimento do setor, é uma atividade econômica nova nos outros cadernos... Precisa buscar esses espaços.

Vejo as coisas de forma positiva, a postura, o profissionalismo, a gente percebe um avanço muito grande nisso, essa capilaridade é fruto desse crescimento. Mas ainda existe um mercado interno muito ocioso, o brasileiro que não conhece o Brasil é fato. Hoje tem a questão da ascensão das classes C e D as pessoas começam a pensar em férias. Elas estão colocando isso na pauta de consumo. Milhões de brasileiros que nunca viajaram de avião devem viajar nos próximos anos. E tem aquela coisa da classe B ir para o exterior, pois às vezes fica até mais barato. Em função dessa demanda muito aquecida, a infraestrutura está vindo a reboque, novos hotéis estão surgindo, duplicações das BRs, aeroportos vão ser revistos. Se tivermos a competência e seriedade para dotar o país dessa estrutura, será ótimo.