Denise Silva professora e blogueira em São Caetano do Sul e Giselda Valério de Mesquita, diretora do Colégio Progressão em Taubaté

Denise Silva professora e blogueira em São Caetano do Sul e Giselda Valério de Mesquita, diretora do Colégio Progressão em Taubaté

Atualizado em 08/04/2010 às 13:04, por Luiz Gustavo Pacete,  da equipe de estagiários; e Igor Ribeiro e  editor-executivo.

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Denise Silva professora e blogueira em São Caetano do Sul

Da grande imprensa, a Veja, por exemplo, já nem leio mais porque já sei que é ruim. Não é por questão política. Mas é por falta de imparcialidade. Por exemplo, teve uma sobre adolescentes, recente. Sei que na linguagem jornalística tem que ter um título chamativo, mas a Veja é muito afirmativa e incisiva, determinista. Estabelece que as coisas são assim e ponto. Saiu uma sobre os resultados de escolas em determinado tipo de exame, e daí a revista já assume que elas são as melhores, baseada em critérios como aprovação de vestibular. Até na espera do dentista prefiro ver notícia de fofoca à Veja.

Ciência Hoje é boa, tem divulgação científica para criança. Linguagem legal. Não nivela por baixo e é um pouco atemporal: alguns trabalhos dos quais ela trata, você pode usar como material didático por muito tempo. Como usar um calendário, diferença entre peso e massa. Ela é boa porque ciências para educação na imprensa é sempre sobre biologia - física, química não costumam ter, mas na Ciência Hoje tem.

Nova Escola é uma das maiores revistas. Ela ainda tem um formato que atende a uma necessidade dos professores, que é como se fosse uma carta de utensílios, Você quer saber como dar aula sobre determinado assunto, ela vai te dar um passo-a-passo. Nos últimos anos ela tem mudado um pouco, ela faz uma mescla. É boa. Quando comecei a ler, era a mais fria... Era um norte, uma revista de formação didática do professor. Mas de informação é ruim. Ela valida as boas práticas na área de educação. Os professores são fontes de consulta.

A Carta Fundamental é nova. Ela já trabalha com colunistas que vão abordar alguns assuntos com maior comodidade, como Ana Maria Machado. Também tem temas de aula. Mas são mais estudiosos: um sociólogo, um mestre... Pegam um tema e aprofundam nele, não é uma aulinha pronta. É mais uma biblioteca. Também é de formação, mas não dá receita sempre. E também é muito boa.

Nos jornais é noticia quando tem alguma coisa errada. Professor bateu no aluno. É só quando tem algum problema.

Tem umas revistas muito ruins, como a Projeto Pedagógico, com aquela visão de fazer o teatrinho do Dia do Índio, a máscara para o papai no Dia dos Pais, brinquedo com sucata, coisas que o magistério fazia em 1900 e bolinha. Nova Escola e Carta equilibram isso melhor.

A Folha de S.Paulo e o [portal] Terra fazen bastante [cobertura de educação] baseados nos resultados e exames, Enem, Saresp, Prova Brasil. Eles mostram o resultado e fazem análise de resultados. É incompleto.

Vida Simples tem a coluna do Eugenio Mussak, com conteúdos ligados à área de filosofia. Ele traz algumas questões do cotidiano, sobre comportamento, alimentação... Usei uma vez uma matéria para analisar a cantina da escola, que era muito ruim. Com base em uma matéria sobre o lanche escolar, usei esse texto para discutir com as crianças esse tipo de matéria. Usamos outra sobre trajeto a pé, um auxílio temático, em especial nos temas ligados à ciência.

Eu gosto das pautas que ressaltam iniciativas que dão certo, o trabalho de um professor ou de uma rede que alcançou um resultado. As matérias sobre formação de professor são interessantes para mim, o que falam sobre os cursos de pedagogia. Mas são pouco frequentes. É raro ver matérias sobre educação. O que acontece é quando alunos quebram uma escola.

Há uma escola de Heliópolis cujo diretor corria pela comunidade, falava com os moradores, e a escola virou um modelo. É limpa, organizada, mas nem na capa do "Cotidiano" [da Folha de S.Paulo] saiu. Muita coisa não aparece. O que está sendo oferecido com cursos de aperfeiçoamento não aparece, não é notícia.

Falta dizer onde eles se formaram, de onde vêm esses professores. Se polemiza os resultados em matérias como Prova Brasil, mas falta falar do processo... Falta abordar de um jeito mais didático esse universo para o leigo. As pessoas não sabem quais competências um Saresp ou uma Prova Brasil avalia.

Na "Folhinha" [suplemento infantil da Folha] tem muito do que a gente usa para leitura na escola com as crianças. Antes o caderno cumpria um papel interessante porque escrevia sobre assuntos da atualidade, como o terremoto da Haiti. Daí a "Folhinha" fazia bem didático para a criança, explicava para criança. Ou explicava em crônica do [Fernando] Bonassi, como uma criança, explicando corrupção, por exemplo. Se quisesse repercutir um assunto cotidiano, tinha. Hoje é difícil, ainda tem, mas é difícil repercutir com crianças determinado assunto. Hoje, quando tem, é fora da "Folhinha", e sem essa linguagem. Às vezes acontece de a "Folhinha" ter determinado tema na chamada, mas não aprofunda. Então não dá pra trabalhar com as crianças, não dá pra fazer uma progressão temática. Daí a gente faz adaptações e corre um risco, já que não fomos nós quem falamos com as fontes.
A Folha fez o projeto do Mapa do Brincar. Essa foi legal. Mas poderia ser mostrada cada uma das escolas [que participaram do projeto]. O prêmio Escola Nota Dez só sai na Nova Escola. Porque não sai no jornal também? Só sai na TV Cultura, além da revista.
Falta tentar abordar mais a notícia mesmo, trazer mais próximo do publico infantil. As crianças podem entender o Sarney, por exemplo... Tornar isso mais compreensível. As revistas ficam muito ligadas ao aspecto comercial, à revistinha do Ben 10, dinossauro para colecionar... Talvez devessem cumprir esse papel de tratar dos temas atuais. Falar mais de notícias, das coisas do cotidiano, de um jeito que a classe entenda, pois são assuntos importantes para criança e adolescente. O "Folhateen" tem mais que a "Folhinha", por exemplo. Isso atingiria indiretamente o professor, por que ele teria que se atualizar sobre o que interessa ao público para trazer a sala de atual.

Giselda Valério de Mesquita, diretora do Colégio Progressão em Taubaté

Folha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo trazem, geralmente, notícias sobre coisas ruins. Não trabalham educação como deveria ser, desenvolvendo valores, com sentido pedagógico. Geralmente é crítica, coisas que determinado aluno ou professor fez, coisa de jornal mesmo.

Revistas especializadas como Nova Escola, com muita informação interessante para escola. Jornal O Mundo que é trabalhado com alunos inclusive, é bimestral, mas traz de tudo, é muito utilizado para vestibular, faz uma leitura critica e bem atual.

Em geral a preocupação da mídia é grande, principalmente quanto às escolas particulares. Do governo não se fala muito, fica apenas na discussão. Infelizmente para escola pública não é nem pauta o material, mas o modo de se trabalhar esse material.

Os alunos hoje estão no ritmo da internet, e tem que mudar tudo na educação, se não vamos ficar sempre aquém. Isso tem sido muito debatido em televisão, e na própria internet é só procurar que encontra. O que falta é o professor por em prática, pelo menos no meio particular. Tem professor que nunca abriu o portal do Poliedro, que tem tudo. Falta o hábito para a gente mexer com isso. Hoje tem aquelas lousas interativas, tem muita coisa, mas o professor não está conseguindo utilizar essa tecnologia em prol da educação. A própria empresa da lousa fornece o curso, por exemplo. Mas tem professor que não procura a saída, a solução para esses problemas.

Internet e revistas especializadas são muito boas. Todos trazem artigos, complementação pedagógica, principais filosofias, valores. Jornal deixa a desejar, no sentido de auxiliar da educação. Faz só análise política do fato ocorrido, mas não auxilia.

A televisão tem notícias chamando a atenção, mas ao mesmo tempo tem programa educativos. Os únicos problemas são os horários muito ruins. Tem canais muito infantilizados, mas trazem coisas boas. A Futura é muito boa. Globo News tem programa bom. Mas a Globo aberta tem programa no domingo às seis da manhã! Ninguém assiste.
Acho que os temas estão aí. Mas estamos numa mudança de valores muito grande que eles debatem cada um no seu esquema. Alunos não valorizam escola e ensino, e pais também estão indo nessa. Então, quando a grande mídia coloca que "a escola fez isso, fez não sei o que", incentivam isso. Distorcem a compreensão de direitos humanos, que é muito mais fundamental.

A imprensa está bem inserida, não vejo falha. Está fazendo o papel dela, está apontando as polêmicas e as falhas. Mas poderia auxiliar mais na pedagogia, [não] apontar só os problemas. Poderia dar mais apoio. Hoje vejo a imprensa trabalhando mais do que antes, mas sempre pode melhorar. É negativo sempre apresentar o problema e não ajudar nas soluções. Mas apontar o erro é um ponto positivo.