Denis Ruellan liga cobertura da Guerra do Vietnã ao nascimento do jornalismo multimídia

O jornalista e professor da Universidade de Paris-Sorbonne, Denis Ruellan, abriu nesta quinta-feira (23) o primeiro dia do III Simpósio Internacional de Jornalismo em Ambientes Multiplataforma, da FIAM FAAM em São Paulo.

Atualizado em 23/11/2017 às 18:11, por Marina Oliveira.

O evento vai até sexta-feira (24) e tem o apoio da Revista e Portal IMPRENSA. Durante sua exposição o professor, que tem um extenso trabalho de pesquisa sobre o mercado de trabalho do jornalismo, falou sobre a presença das repórteres femininas na cobertura da Guerra do Vietnã e a relação direta que elas têm com o surgimento do jornalismo multimídia. Crédito: Ruellan disse ter entrevistado 30 repórteres mulheres de diversos países que cobriram a guerra. O material vai compor um livro já escrito, porém sem data para publicação. Segundo o professor, seu trabalho não se dedicou a ser um aprofundado debate sobre gênero, ainda que ele se faça presente no texto, mas sim em compreender os diferentes contextos que levaram essas mulheres a cobrir o conflito e as consequências dessas coberturas para o jornalismo.
De acordo com Ruellan, é preciso desmistificar a ideia de que as repórteres são heroínas ou que foram à guerra para fugir das opressões que tinham em suas casas. “Eu conversei com muitas delas e que, óbvio, têm personalidades muito fortes, mas são mulheres normais. É preciso entender que elas foram para lá cientes de tudo o que as esperava, caso contrário, perpetuamos a visão sexista sobre o tema”, afirmou.
Ainda nos anos 1960, as repórteres eram designadas para pautas menos factuais, tendo que buscar histórias que mostrassem o olhar mais humano do conflito. A elas cabia usar de uma suposta sensibilidade feminina para mostrar o lado menos violento do combate.
Durante o conflito no país asiático, quem credenciava os jornalistas eram os Estados Unidos. E os oficiais estadunidenses determinavam o que e como se dariam as coberturas. Nesse sentido, segundo Ruellan, muitas repórteres foram alijadas de permanecer no front. Também eram proibidas de pernoitar nas bases militares ou em outros pontos estratégicos que dariam a elas maior proximidade com as fontes e com as notícias.
Assim, o estudo de Ruellan demonstra que as mulheres precisaram reinventar a forma de cobrir o conflito. Nos anos 1970, com o forte movimento pelas liberdades civis nos EUA, os veículos de comunicação passaram a ser pressionados para mandar mulheres nas coberturas de guerra. Ainda sofrendo com as mesmas pressões por parte dos militares, que tinham medo da propaganda negativa caso morresse uma mulher em confronto, elas precisaram ousar.
“Muitas delas eram repórteres freelancers e, por ser uma guerra transmitida ao vivo, criaram novas formas de contar histórias que concorressem com os jornalistas de veículos consolidados. Pularam de paraquedas em zonas de conflito, se infiltraram em comunidades, foram presas de propósito, visitaram os pontos mais delicados da fronteira”, disse.
A partir dessas experiências as repórteres fizeram imagens fotográficas, documentários, livros, reportagens escritas, de rádio e de TV iniciando assim, uma nova forma de fazer jornalismo. “Por conta de ser uma guerra televisionada, o contexto da concorrência fez nascer esse jornalismo multimídia”, defende.
Multimídia não é de hoje
Apesar de estarem em voga nos últimos anos termos como revolução digital, multiplataforma e multimídia são fenômenos antigos, lembra Denis Ruellan. “Os jornalistas sempre falam da profissão de forma utópica, de que existe uma maneira mais pura de se fazer jornalismo. ‘Ah! no meu tempo...’, mas na verdade essa sensação de transformação de que o meio está mudando e vai se perder, se explica porque as pessoas estão mudando o jornalismo”, defende.
Para o professor, o meio está se reinventado devido à evolução da sociedade e das tecnologias. “Na França alguns fotógrafos estão perdendo seus empregos porque as máquinas agora também filmam, os chargistas já na têm tanto espaço porque muita gente desenha. Mas eram profissionais especializados em determinada forma de trabalho e que não evoluíram e agora dizem que o bom jornalismo está falindo. O jornalismo é uma atividade compartilhada por vários atores e isso faz parte da mudança”, aponta.
Ruellan indica ainda, que as mudanças não se restringem à forma de fazer jornalismo, mas também sobre as relações de trabalho. “A realidade é que você tem oito ou 10 horas de capacidade por dia, quando um empresário diz: ‘você vai fotografar, editar e escrever, você até pode dizer que vai fazer tudo, mas só fará uma [boa] matéria por semana”, diz.
“O que está acontecendo é uma divisão diferente do trabalho. No passado as tecnologias necessitavam uma organização determinada porque exigiam máquinas muito caras e grandes. Agora você tem a possibilidade de fazer tudo com pequenas máquinas, então os empresários podem organizar o emprego de maneira diferente e isso é um aspecto, mas há um limite de produtividade e o empresário sabe”, afirma.
Outro aspecto apontado pelo professor é que com a possibilidade de organizar o trabalho de uma maneira diferente, fatalmente haverá um cruzamento com o fenômeno da precariedade.
“Não sei exatamente como os dois funcionam, mas essa precarização dos trabalhadores é um fenômeno mundial”, diz. “As condições de emprego mudam, o número de pessoas sem contrato aumentou e isso é uma realidade, sobretudo em alguns setores e a mídia é parte disso, porque esse movimento de precariedade iniciou há 50 anos”, conclui.
Veja a apresentação do Professor Denis Ruellan na íntegra:

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