Deficiente, "sega" e surda. Mas fala pelos cotovelos - Alberto Júnior/Universidade Estadual do MA

Deficiente, "sega" e surda. Mas fala pelos cotovelos - Alberto Júnior/Universidade Estadual do MA

Atualizado em 26/10/2004 às 15:10, por Alberto Júnior e  estudante de jornalismo da Universidade Estadual do Maranhão.

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Ontem a Organização Das Nações Unidas (ONU) divulgou uma preliminar sobre a o judiciário brasileiro, através de seu relator especial, Leonardo Despouy. O documento veio simplesmente ratificar o que a população mais carente de nosso país já sabe há muito tempo. Justiça no Brasil é coisa pra quem tem dinheiro.

Comprovou-se com dados que mulheres, crianças e indígenas são os que mais sofrem por isso. Ora, explicar este fato torna-se fácil. Visto que vivemos numa sociedade patriarcal excludente. O machismo no Brasil impede qualquer ação eficaz que venha a beneficiar a mulher. A violência contra elas é escondida de todas as maneiras pela própria sociedade. O mais intrigante é o sexo feminino ter internalizado o machismo ao ponto de discriminar a si mesmo.

Um exemplo, pode ser encontrado na palavra gigolô em qualquer bom dicionário como "s.m. Homem que vive às custas de uma mulher". Este verbete é empregado constantemente pelas mulheres para insultar um homem que cuida da casa enquanto sua esposa trabalha fora, em busca de renda familiar. Se desde a década de 80 elas lutam pela igualdade social, por que então não encarar com normalidade a inversão dos valores sociais os quais buscam ferozmente? Um homem não pode desempenhar o trabalho doméstico com dignidade? Só em comunidades ultramachistas.

As crianças são as mais afetadas pela fragilidade e o desrespeito a que estão sujeitas. Por não terem idade penal e civil de responder pelos seus atos, sempre devem ser representadas. Na maioria dos tribunais suas opiniões, sugestões e denúncias contam pouco. Mesmo nos tribunais especiais destinados a sua defesa. Apesar dos programas de erradicação do trabalho infantil, da violência contra jovens e adolescentes, contra a prostituição infantil e contra os abusos, no Brasil não se consegue ter êxito. Reflexo da falta de seriedade judiciária a favor da criança.

Os indígenas são historicamente postos à margem da sociedade. No descobrimento do Brasil eles foram humilhados para que não se sentissem donos da nação e muito menos com quaisquer direitos sobre suas terras. Nem o movimento literário denominado Indianismo, no século XIX, em verdade defendia o índio brasileiro que na oportunidade tinha traços cavalheirescos e europeus. Basta lembrar de Iracema abandonando seus costumes e crenças para viver com Martins, português antagonicamente defensor da moral e bons costumes que nega Iracema por respeitar as instituições sociais indígenas. Ou Peri, no romance O Guarani, que vive em função de Ceci e é chamado por José de Alencar de animalzinho de estimação da donzela portuguesa, sem falar na humilhante alcunha de "selvagem", em vez de nativo, durante toda a obra.

Hoje em dia as comunidades nativas brasileiras, ainda que proprietárias de grandes jazidas localizadas em suas terras, continuam sem voz e vez na sociedade e à mercê da justiça brasileira. A palavra índio neste país é sinônimo de acivilizado ou aculturado. Aliás, o termo foi erroneamente utilizado quando da colonização desta terra, os colonizadores acreditavam ter chegado à Índia e não onde realmente aportaram.

Para tudo isso a nossa justiça se faz de sega e surda, além de comprovadamente ser deficiente. Mas inacreditável é a teimosia de falar pelos cotovelos quando apontadas suas falhas por qualquer segmento da sociedade. E se sentir ofendida!