De um povo heróico o baixo brado retumbante

De um povo heróico o baixo brado retumbante

Atualizado em 29/11/2004 às 11:11, por João Camargo Neto estudante de jornalismo da faculdade ALFA e  Goiânia.

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A abertura do Congresso e Feira Pensar, dia 7 de outubro, quinta, foi feita pelo jornalista da TV Anhangüera, Handerson Pancieri. Para entremear sua fala ufanista relacionada à educação brasileira, a execução do Hino Nacional, acompanhado pelo som de diversos cavaquinhos e um intérprete da língua brasileira de sinais, que esteve até o final do debate e palestra para possibilitar entendimento aos portadores de deficiência auditiva.

O Teatro Rio Vermelho do Centro de Cultura e Convenções de Goiânia estava abarrotado de educadores. Quase ninguém cantava o hino, quem o fazia, era observado pelo olhar indiferente dos demais. Uma congressista comenta com um colega a baixa repercussão da importância dos educadores

"Não sei porque todo mundo se levanta", diz uma professora que ainda não sabia que a música patriótica seria soada. "É tão automático que só me resta levantar também", responde um estranho ao seu lado, um dos poucos a seguir o baixo coro com arrepios, mesmo que instintivos.

Pancieri anuncia os debatedores do dia: o senador petista, pelo Distrito Federal, Cristovam Buarque, ex-ministro da Educação; a deputada federal, pelo PSDB goiano, Raquel Teixeira, ex-secretária de Estado da Educação, e a reitora da Universidade Federal de Goiás, Milca Severino. "Aprendizagem: um direito social", é o tema a ser discutido. Para mediar o debate, o jornalista Álvaro Pereira.

De frente com Cristovam

O esquema montado tentava propiciar um clima de intimidade com o público, o que lembra um talk show . Ao invés de os falantes esconderem-se atrás de pedestais, o palco dispunha de sofás. Porém, os mais interessados, os educadores congressistas, eram distribuídos como uma grande massa homogênea pelas poltronas espalhadas pelo teatro.

Cristovam Buarque, embora relutante nos bastidores, falou os 30 minutos dos quais dispunha, sentado. Álvaro Pereira lembrou ao senador que era como se estivesse na TV, por causa do telão no centro do palco, quando o parlamentar disse que ninguém leva a sério quem fala sentado no sofá. E descontraiu: "Isso me assusta, aumenta a careca!".

Buarque abriu dizendo que o carro não é um bem social, mas o transporte é um direito. Brevemente partiu para a educação: "O analfabeto não tem liberdade plena. Sem a aprendizagem/educação não se é cidadão em sua totalidade". Pontuou que o fator cultural é um dos motivos pelos quais a educação não é valorizada no Brasil. "Sabemos muito mais o nome do técnico do time de futebol pelo qual torcemos do que o do diretor da escola do nosso filho", exemplificou.

O ministro do primeiro ano do governo Lula foi categórico ao dizer que se analfabetismo se transmitisse por vírus, o Brasil não teria analfabeto, porque atingiria rico também. E, se alcançasse as classes abastadas, segundo ele, o governo tomaria atitudes bruscas a favor da sua erradicação.

Do início ao fim, o doutor em economia pela Sorbonne apontou como alternativa a federalização da educação, em contrapartida à premissa que roga que tudo que é ruim, municipaliza-se. "É preciso federalizar a educação", dizia até em resposta a perguntas que não tinham esse foco.

A exemplo da Lei de Responsabilidade Fiscal, ele apresentou a necessidade de se criar a Lei de Responsabilidade Educacional. "Tem que ser preso o prefeito que não tiver todas as crianças do seu município na escola", esbravejou, ilustrando com o índice de quinze milhões de analfabetos no Brasil, isso sem computar o analfabetismo funcional. Segundo o Ibope, 67% dos brasileiros são analfabetos funcionais. Eles não conseguem ler, entender totalmente o que está escrito e escrever corretamente.

Os professores comentavam com os colegas de poltrona os pontos mais polêmicos da fala de Buarque. "Não basta alfabetizar mais, tem que alfabetizar todos, senão não há direito social. Toda criança tem direito de entrar na escola aos quatro anos de idade, como acontece com o filho do rico", defendeu.

Como não podia deixar de ser, em função da multidão docente que assistia e que participaria dos quatro dias de programação do Congresso, o senador enfatizou que escola não serve de nada se não tiver por trás professores bons. Em relação à informatização, o estudioso metaforizou: "O computador nada mais é que um quadro negro sofisticado". Defendeu a contratação de mais professores para que a escola caminhe para tempo integral.

Outra alternativa apresentada foi a mobilização dos que ainda acham que educação é importante. "Já criamos Movimento dos Sem-Terra e tantos outros movimentos e ainda não criamos o Movimento dos Sem-Educação". O ex-reitor da UnB argumentou que o MSE ainda não foi constituído porque quem não tem educação não tem consciência de mobilização. "O MSE não vai existir", disse.

"Cabe a nós nos mobilizarmos para criarmos essa enorme onda que mostra que o Brasil vai crescer não com o aumento da produção de carros, mas com a alfabetização". Para o petista, quem constrói o povo são os professores. "O engenheiro constrói casa, o militar defende a nação, mas todos dependem de professores", disse de forma categórica.

Cristovam Buarque dispunha de 30 minutos para sua conferência. Ultrapassou um e não recorreu em momento algum a quaisquer anotações e/ou esquemas. Além do senador, as duas conferencistas tiveram quinze minutos cada para fazerem suas exposições. E, ao fim, trinta minutos para a participação dos docentes através de perguntas escritas e remetidas ao mediador, que escolhia, conforme a pertinência, as "melhores" questões.

Sugestão de janela ou legenda: Cristovam Buarque: "Por que não fechar o Ministério da Educação, já que educação se faz no estado e município?"

Leitura dinâmica

A deputada federal Raquel Teixeira disse que uma das piores coisas em estar em Brasília é a distância dos professores. Após congratular-se com a Organização Jaime Câmara por ser a única empresa de comunicação no Brasil a organizar um congresso da grandeza do Pensar, leu e tentou comentar, ao longo dos quinze minutos, a apresentação do power point no datashow , sentada no sofá ao lado da Drª Milca Severino.

O discurso da professora era enfeitado por variações da língua portuguesa que contrariam a norma culta, como: "Acho que , Cristovam, concorda comigo."/"Nós tamo ..."/"Como de tempo?". As informalidades da fala, perceptíveis, mas não notáveis, em nada comprometeram a "leitura dinâmica" de Raquel.

A parlamentar citou Anísio Teixeira, considerado um dos maiores estudiosos da educação no Brasil, no início do século passado: "A finalidade da educação se confunde com a finalidade da vida". Disse, ainda, que o ensino é um processo que se estende ao longo da vida e que se realiza em múltiplos espaços sociais.

Ela falou também que o Brasil sempre conseguiu ter uma elite bem-educada. Complementou, informando que aquilo que as famílias ricas pagam de escola por mês (média de R$ 600) para cada filho, o aluno de escola pública recebe de recurso por ano. Prosseguiu, afirmando que o Brasil forma seis mil doutores e vinte mil mestres anualmente, mas que aumenta o subproduto mais sério da desigualdade: a violência. Em contrapartida, defendeu o papel da escola, que é o de criar condições para que a criança aprenda, segundo ela. "Hoje, um curso superior é mais sonhado que a casa própria", disse, ao expor que a sociedade sabe que a educação é um direito de todos.

Janela ou legenda: Raquel Teixeira: "Só vou morrer em paz o dia em que filhos de pobre e rico estudarem na mesma escola".

Leitura dinâmica II

A reitora da Universidade Federal de Goiás, Drª Milca Severino, não quis falar sentada no sofá. De pé, lia do púlpito as projeções que eram apresentadas no telão. A apresentação da professora Milca era fortemente ilustrada por imagens de fatos violentos, que foram amplamente veiculados pela mídia nos últimos meses, como o atentado na escola da Tchetchênia, na Rússia.

Milca enfatizou seu papel de coordenadora de uma instituição (a UFG) responsável pela formação dos atores discutidos pelos outros dois conferencistas, os professores. Suas projeções visuais, muito bem elaboradas, migravam pelos campos por onde passa uma criança em idade escolar: a rua, o pátio, o corredor e a sala de aula, que disse ser o coração da escola.

A reitora afirmou que a sala de aula é o lugar do monólogo, da não-aprendizagem social. "A escola precisa ser reinventada como uma instituição do seu tempo. Precisa redescobrir seus alunos", defendeu. Proferiu que vivemos tempos em que se atribui às escolas a culpa da crise. Milca disse, ainda, que vivemos numa sociedade do conhecimento, mas nem só por isso, da aprendizagem.

Palestra

Princípios de com-paixão e cuidado

Após o debate, foi a vez do ex-sacerdote católico, criador da Teologia da Libertação, teólogo, ecologista e professor, Leonardo Boff, palestrar sobre o tema "Aprendendo a Pensar e a Cuidar". Boff falou por uma hora no mesmo timbre de voz, sereno.

­ "Não temos alternativa, senão viver, com-viver", disse logo de início. De acordo com o teólogo, nosso princípio básico é servir a humanidade e todo saber produzido por ela deve ser submetido à crítica, à revisão e à resistência. "Que a vida não seja entregue às mãos de especialistas, não queremos que eles a decidam, invadam-na", declarou.

A gaia é a Terra, e a humanidade é o momento em que a Terra começa a pensar. Tudo isso (o conhecimento produzido), conforme o exposto, deve servir à cidadania. O filósofo defendeu um processo de aprendizagem que faça surgir o cidadão e "ser cidadão é mais que ser consumidor".

Para Boff, nós sabemos muito hoje, mas não pensamos que sabemos e sentimo-nos reféns desse saber. Ele disse que está na nossa cabeça a maior biblioteca do mundo: "Muito maior que a do Vaticano, a do Congresso dos Estados Unidos e a de Harvard". Defendeu que cada pessoa é portadora do saber adquirido pela experiência, a empiria , pelo sofrimento e sobrevivência.

Ele passa suas férias letivas junto ao povo, o verdadeiro portador do saber, e pretende continuá-las, "enquanto tivermos cultura popular e ela não for esmagada pela hamburguerização". Disse que precisamos situar o pensar, que culminou com Heidegger, o filósofo alemão. O estudioso articulou que pensar criticamente é tirar a máscara dos interesses difusos que não querem se pronunciar e trazer à tona os interesses ocultos. Ele apresentou um dado veiculado pelo jornal francês Le Monde Diplomatique : 70% da inteligência mundial estão empenhadas em fins de destruição.

Falou ser boa a crítica quando nos envolvemos com nós mesmos e fazemos a autocrítica. Somos, segundo ele, seres carregados de virtualidades e potencialidades que podem ser consultadas em impasses com saída corajosa. Isso é o ser quântico. "É preciso ousadia, coragem de criar".

Ao exortar os espectadores a serem protetores do paradigma cuidar, lembrou que moderno foi Francisco de Assis, apesar de ter vivido há 800 anos, por ter sido árduo defensor da natureza. E que velhos somos nós, que não sabemos cuidar. Para ele, a essência da humanidade é o cuidado, que permite à vida se desenvolver. "Tudo o que cuidamos dura mais".

Boff defendeu que as novas formas de aprendizagem e comunicação devem ser a arma da consciência. Falou que estamos diante de um momento crítico na história da Terra, que está profundamente doente e "nós estamos doentes por causa da doença da Terra". O ecologista pediu para nunca deixarem morrer a esperança, a crença no próprio homem.

Quando perguntado sobre como um professor não deixe morrer a esperança diante a realidade da educação no Brasil, Leonardo Boff relatou uma visita a um sanatório. "Lá recebi uma carta de um dos internos, e ele dizia: 'cada vez que uma criança nasce, Deus reafirma a esperança na humanidade'", respondeu Boff.

Entrevista 1:

Raquel Figueiredo Alessandri Teixeira, deputada federal goiana pelo PSDB, já foi reitora da Universidade Federal, além de secretária estadual de educação nos primeiros anos do governo Marconi Perillo. Na secretaria, implantou o voto direto para diretores nas escolas estaduais. Como deputada, defende maior autonomia para os mesmos. "Se comparar uma escola particular com uma pública, uma das diferenças que a particular tem a seu favor é a autonomia", argumenta.

A senhora sugeriu a autonomia dos diretores das escolas estaduais, dando-lhes poderes até mesmo para a escolha dos professores. Não é uma prática retrógrada?

Raquel Teixeira : Não, pelo contrário, é um avanço. Fui eu, como secretária estadual de educação, que introduzi a eleição direta para diretores. O governador Marconi Perillo acatou por sugestão minha e exatamente porque o que dá certo na escola é o fato de ela ter autonomia. Se você comparar uma escola particular com uma escola pública, uma das diferenças que aquela tem a seu favor é a autonomia: o dono está ali para tomar decisões rápidas, por isso, a escola tem a autoridade e dinâmica que uma instituição escolar precisa. Quando eu assumi a Secretaria de Educação, fiquei assustada ao descobrir que uma escola que tinha caído o teto em São Miguel do Araguaia não podia fazer nada porque eu, secretária, tinha que fazer o processo de licitação centralizado para mandar o recurso lá. Criamos o Programa Dinheiro Direto na Escola, através do qual descentralizamos os recursos. Criamos também o Conselho Escolar, com representantes de pais, alunos e professores para definir a aplicação daquele recurso. Essa autonomia é uma etapa progressiva que traz qualidade.

Diante da sugestão de autonomia dos diretores, qual será o papel do concurso público?

RT : O concurso público é obrigatório. A autonomia é para escolher dentre os aprovados que se encaixam nas competências que a escola requer. São necessários concursos especificados. Até agora os concursos são muito gerais, não olham as particularidades, especificidades e necessidades de cada escola. Então, a tendência é criar concurso direcionado.

O Pensar é organizado pelo Popular. Não é um vácuo deixado pela Secretaria de Educação?

RT : O Pensar nasceu no meu gabinete, participei da concepção. Muita gente achava que era um evento mais da secretaria, mas não é, o financiamento sempre foi todo da Organização Jaime Câmara. Acho que é bom ter um evento feito pela OJC. Mostra que a iniciativa privada tem que tomar iniciativa, participar. E as secretarias participam da concepção do programa. O Pensar sempre constitui uma comissão organizadora com representantes das secretarias estadual e municipal, e a montagem, o formato final e definição dos debatedores e oradores passa por uma comissão da secretaria. E é uma forma de participação.

A Universidade Federal de Goiás teve esse ano uma reforma na grade curricular. Não passou da hora de o ensino básico ter também sua grade reformulada?

RT : Na gestão do ministro Paulo Renato foi feita uma grande mudança nesse sentido, que foi a criação dos Parâmetros Curriculares Nacionais. O Brasil hoje tem currículos novos, muito interessantes e modernos. Nós criamos as Diretrizes Curriculares Nacionais para a educação básica, depois de muito debate, audiência pública, estudo e reflexão. Só que os termos, as Diretrizes Curriculares, pelo próprio formato, por ser um documento do Conselho, é de difícil assimilação pelos professores. Então, O Ministério da Educação transformou as Diretrizes em Parâmetros Curriculares Nacionais, muito bons, muito bem feitos. Só que esses Parâmetros Curriculares agora que estão chegando às escolas. É muito lento o processo, entre você conceber uma coisa, fazer aquilo virar lei no Conselho Nacional de Educação, colocá-la numa linguagem acessível e capacitar os professores para implementar as mudanças curriculares leva tempo. Os parâmetros estão chegando agora e eu espero que eles façam a diferença

Entrevista 2:

Autógrafos antes e depois da palestra. Uma banca onde uma senhora de aparência esotérica vendia os livros de Leonardo Boff e ao lado, ele. De aparência cansada e abatida, o pensador concedeu uma breve entrevista, terminada a palestra e os autógrafos, porque, afinal, já eram quase 22h30.

Vivemos num tempo em que se atribui às escolas a culpa da crise. Como o senhor vê a sociedade se culpando pela violência, enquanto ela atinge todas as classes sociais?

Leonardo Boff : A violência lança suas raízes dentro do ser humano. Nós somos seres de amorosidade e cuidado e somos seres também de rejeição e ódio. Então, para minimizar a violência tem que se trabalhar a questão da educação do ser humano. Como ele controla as energias negativas que estão nele, como ele se sensibiliza, não que ele as reprima e as recalque, mas que ele não permita que elas, as energias negativas, ganhem hegemonia, penetrem nas instituições e sejam destrutivas aos seres humanos. Essa situação que está dentro de nós é reforçada quando a sociedade é profundamente desigual, não dá chances de as pessoas se educarem, a encontrarem mediações menos violentas, que são o diálogo, a convivência com a diferença, o esporte, a religiosidade, a democracia, que são formas simbólicas de dar vazão à violência para que ela não seja destrutiva. Esses mecanismos têm que trabalhar juntos, não para acabar com a violência, mas para impedir que ela ganhe hegemonia e tire a esperança dos seres humanos de poderem viver minimanente como humanos na sociedade.

Como o senhor vê a verticalização dos debates em que, enquanto grandes nomes como o senhor discutem no palco, a platéia formada pelo público interessado participa como agente passivo?

LB : Essa forma bancária de exposição não é muito fecunda. O ideal seria se houvessem antes grupos de discussão que trouxessem questões para o conferencista se confrontar com ela e dialogar com a platéia. Então, seria a construção coletiva do saber. Assim como idealizado, é uma forma que acho imperfeita, mas ela tem sentido na medida que o conferencista consegue uma sintonia, desperta o interesse e aborda questões verdadeiramente objetivas que fazem as pessoas pensarem. Mas é apenas o começo de um diálogo que fica inacabado.