De rabo preso com quem?
De rabo preso com quem?
A mídia costuma fazer alarde de sua relação com a audiência (leitores, radiouvintes, telespectadores e agora os internautas no jornalismo on line), mas, na prática, pouca atenção dá a ela. Pelo contrário, faz apenas o seu jogo e convida os cidadãos para aplaudi-la.
Um levantamento feito por Mário Magalhães, ombudsman da Folha , publicada em duas colunas sucessivas de novembro ( dias 11 e 18), revela que o jornal seqüestra todos os dias espaço valioso do Painel do Leitor, entregando-o a políticos, autoridades em geral e mesmo para os jornalistas da casa, em suas freqüentes réplicas e tréplicas ao comentários dos leitores (na verdade, os jornalistas costumam dar mais atenção, também nesses casos, aos comentários de gente conhecida e de prestígio). Chega inclusive a ceder o "cantinho dos leitores" para colunistas do próprio jornal (caso de José Sarney e Fernando Gabeira). Ou seja, o Painel do leitor da Folha não é totalmente do leitor e virou uma geléia geral.
Engana-se quem imagina que se trata de um fato isolado porque a situação se repete na maioria dos veículos brasileiros e não apenas na mídia impressa. A audiência é apenas objeto e não protagonista da mídia brasileira que, no fundo, tem outros compromissos.
O espaço para a expressão livre da audiência é, na verdade, um mito em nosso país porque os veículos selecionam os comentários que merecem publicação e, com certeza, fazem o filtro que lhes interessa. Usam, muitas vezes, a lógica do "3 por 1", ou seja 3 comentários a favor de suas matérias e um contra (em veículos como a Veja esta proporção é ainda maior) e colocam para debaixo do tapete aqueles que dizem respeito às suas próprias mazelas. A Globo publica comentários sobre o seu monopólio e o prejuízo que ele acarreta para a democracia brasileira? As emissoras de rádio e televisão, propriedade de políticos e seus "laranjas", repercutem opiniões dos cidadãos a este respeito? Evidentemente que não.
A mídia censura a audiência o tempo todo, ainda que se proclame socialmente responsável e cobre responsabilidade de governos e empresas. A mídia costuma se esconder num poço de hipocrisia.
A interação com a audiência é assunto que merece mesmo um debate, sobretudo agora com o advento da TV digital e a propalada interação com os telespectadores. No fundo, alguém acredita mesmo neste emergente cinismo democrático? A interação, que costuma ser cogitada pela mídia, é, quase sempre, apenas aquela que lhe dá lucros, como os telefonemas pagos para votações em jogadores, novelas, programas de auditório e o formidável "escroque" que ocorre a cada edição do "Big Brother". É desta interação que a mídia está quase sempre falando porque a cabeça dos empresários da comunicação, com raras exceções, não contempla outra coisa que não seja o bolso dos cidadãos.
A pluralidade de vozes e opiniões não é mesmo uma virtude da imprensa brasileira e essa situação pode também ser percebida em outros espaços da mídia, como nas colunas tipo "tendências e debates", que ficam restritas a pessoas que já têm vez e voz na sociedade (políticos, empresários, advogados etc) e que ocupam lugar de destaque. Ao se convidar um colunista, que não seja um jornalista da casa, normalmente os jornais olham para políticos e empresários porque não conseguem perceber a riqueza do debate democrático e não estão dispostos a convidar quem não "come na sua mão" ou lhes pode distribuir benesses.
Você já percebeu que esta restrição também é de gênero? Pesquisas recentes feitas pela Comtexto Comunicação e Pesquisa evidenciam que a mulher escreve pouco para os veículos (cartas e e-mails) e que se manifesta raramente nos artigos dos colaboradores. Alguém pode argumentar que se trata de uma questão cultural, mas os veículos, que não ignoram este fato, poderiam estimular a participação. Poderiam convidar mulheres para o debate e não apenas encomendar opiniões para políticos e empresários homens, mas esta atitude machista é uma tônica na mídia brasileira. Se fôssemos aprofundar ainda mais, veríamos que, entre os homens, teríamos também a prevalência dos brancos, dos ricos e dos famosos.
A mídia dá espaço para quem já tem espaço e promove, com isso, uma autêntica exclusão social. Pior: faz isso deliberadamente porque interessa a ela aumentar a sua rede de relacionamentos e não comprometer-se efetivamente com o debate.
Temos uma mídia machista, concentracionista, elitista e cheia de outras "istas" (há muitos veículos também vigaristas e cuja função única é defender os poderosos, chantagear empresas e governos).
É preciso repudiar esta situação porque ela não contribui para a cidadania. É necessário defender o espaço autêntico da audiência e uma interação que leve em conta as suas demandas, expectativas e necessidades.
Para muitos empresários da mídia e mesmo para anunciantes, esta não é uma questão importante. Se você se dispuser a dar uma olhadinha na revista Pesquisa Fapesp (uma das melhores expressões do jornalismo científico brasileiro) ficará horrorizado com o desrespeito aos leitores: há nela, em todas as edições, um anúncio da Novartis exatamente na coluna dos leitores, fato praticamente inédito na imprensa brasileira. Este laboratório farmacêutico é o mesmo do projeto BioAmazônia (coloque Novartis BioAmazônia no Google e ficará surpreso com o que encontrará) e também aquele que andou ameaçando recentemente levar a sua nova fábrica para o exterior, se o Governo não cedesse às suas pressões (veja nossa coluna de algumas semanas atrás sobre lobby e saúde). Parece que deu certo: ela irá instalar sua fábrica em Pernambuco e não em Cingapura , Índia ou China, como andaram vociferando seus executivos em matérias arrogantes pela mídia nacional. A gente já havia cantado o final da história: as empresas ficam onde estão o dinheiro e aqui o terreno é fértil para lucros e remessa de royalties. A gente sabe porque elas (laboratórios, montadoras etc) choramingam o tempo todo e não concorda com o fato de as grandes corporações conseguirem se livrar dos impostos que o trabalhador paga diretamente no holerite.
Mas, como boa parte da mídia, muitas empresas também têm rabo preso com outra coisa. Que os leitores, os ouvintes, os telespectadores, os internautas, todos nós, fiquemos de olho. Pensando bem: a Novartis poderia enfiar aquele anúncio que agride a página dedicada aos leitores da revista Fapesp em outro lugar? Alguém tem uma sugestão?
Este nosso espaço é interativo. Aguardamos a sua opinião. Aqui, não há filtro algum: você não precisa ser rico, homem, político ou executivo de grandes corporações para encaminhar seus comentários. O convite está feito.






