De pedra a vidraça
De pedra a vidraça
Depois de chegar ao governo, o PT foi obrigado a protagonizar papéis em manchetes negativas. Não faltam, contudo, os velhos discursos de "conspiração" e "desestabilização" moral. Resta saber se, nesse filme, a imprensa é vilã ou heroína.
Ele desceu do Planalto para a Planície. José Dirceu experimenta, no Congresso, não só o amargo antídoto receitado por Lula como também o desconforto de retornar à casa onde exercitou a oposição nos tempos de Fernando Henrique, quando qualquer indício de corrupção era suficiente para pedir as cabeças do Alvorada. Hoje, Dirceu acusa setores da mídia de estarem se juntando às elites para desestabilizar o governo. Em discurso veemente na Casa de Portugal, em São Paulo, local escolhido como palco para o lançamento da contra-ofensiva petista, o ex-ministro afirmou que Veja e o Estado estão "linchando" o PT. Em viagem à Alemanha, o senador Eduardo Suplicy (PT-SP) fez avaliação semelhante: "Eu vejo certo exagero na maneira como a mídia cobriu certos episódios" afirmou à IMPRENSA. Até mesmo Maurício Azedo, presidente da ABI, engrossou o coro: "Veja é a favor que a política econômica continue a favorecer os grandes grupos financeiros". Já Sergio Murillo, petista de carteirinha e presidente da FENAJ, preferiu relembrar o passado: "Em 1997, as empresas de comunicação resolveram não levar para frente a investigação sobre a compra de votos para a reeleição". O discurso de petistas e simpatizantes está afinado. Consiste em desacreditar o acusador, Roberto Jefferson, e, de quebra, toda e qualquer manchete negativa. Como se existisse uma grande conspiração midiática em curso.
Em entrevista à revista Carta Capital, única que se posicionou abertamente em defesa do governo no caso do "mensalão", o cientista político Wanderley Guilherme dos Santos declarou que a imprensa tem sido mais receptiva aos partidos de oposição a Lula do que ao PT nos dois períodos de Fernando Henrique Cardoso. Ou seja, os jornalistas - simpáticos ao modo como atua o PSDB no papel de pedra - tenderiam a valorizar demais o discurso tucano. Wanderley ressaltou que o escândalo da compra de deputados para aprovar a emenda da reeleição não teve maiores desdobramentos porque a mídia não se interessou. "Não tinha imprensa contra, agora tem", lembra.
O presidente do PSDB, senador Eduardo Azeredo, discorda: "O PT sempre teve uma presença muito grande na imprensa. Se as questões de hoje estivessem acontecendo no governo Fernando Henrique, o PT estaria pondo fogo e fazendo escarcéu", avalia. "Houve, durante a gestão FHC, uma ampla cobertura sobre a Pasta Rosa, SIVAM, Eduardo Jorge Caldas", pondera o cientista político Eduardo Kugelmas.
O peso da palavra
O centro da discussão sobre um possível linchamento da imprensa contra o governo Lula é a ausência de provas materiais - pelo menos até o fechamento desta edição.
Independentemente do momento em que foram feitos, tanto os depoimentos de Jefferson quanto os de Pedro Collor valem como prova. "Muitas vezes em um processo criminal só existe prova testemunhal. Nem por isso o juiz deixa de levar em conta a qualidade e a coerência do depoente, a verossimilhança e a objetividade do depoimento" disse para IMPRENSA o ex-ministro do STF, Paulo Brossard. "O corrupto não dá recibo. A prova documental é dificílima nesse caso. Há a prova documental indireta: ´houve o recibo de um terceiro`, etc.", completa o jurista Walter Ceneviva. Discussões jurídicas à parte, o fato é que sem provas materiais, um recibo que seja, dificilmente o caso "mensalão" não acabará em pizza.
Em 1992, a capa de Veja, "Pedro Collor conta tudo", não teria a mesma força se os repórteres de IstoÉ, Augusto Fonseca e João Santana Filho, não tivessem se antecipado à CPI e encontrado um novo personagem, que serviu de elo da cadeia: o motorista do Planalto, Eriberto França. Sua entrevista exclusiva foi turbinada pelo depoimento na CPI de Sandra Fernandes de Oliveira, secretária do empresário Alcides Diniz, amigo de Collor.
Em 2005, todas as expectativas giram em torno da agenda e do depoimento da secretária Karina Somaggio. O roteiro, pelo menos, é minucioso.
Compram-se deputados
Em 1997, dois escândalos dividiram as manchetes dos jornais e das TVs. Naqueles dias, a Folha de S.Paulo destacava, dia sim, outro também, a compra de votos para aprovar a emenda que permitiria a reeleição de FHC. Esse furo, é claro, foi da Folha, mais precisamente de Fernando Rodrigues. Do outro lado da trincheira, no Estado de S. Paulo, as vedetes eram as histórias envolvendo desvio de recursos de prefeituras petistas para bancar a campanha de Lula à presidência. Esse episódio, por sua vez, veio à tona graças a um furo do repórter especial Luis Maklouf. O debate em torno dessas duas frentes foi acirrado. Enquanto os petistas chamavam o Estadão de reacionário - o acusavam de desviar a atenção de Brasília para evitar a vitória da esquerda e pediam, nas ruas, o "Fora FHC" -, os tucanos caminhavam no sentido diametralmente inverso. Na somatória final, FHC conseguiu a reeleição, as denúncias contra o PT acabaram em pizza e os dois casos saíram das manchetes para entrar na história. Em 2005, o escândalo do "mensalão", tal qual em 1997 com Sérgio Motta, tem como protagonista mais um tesoureiro e suas relações perigosas. Também participam do enredo deputados que teriam vendido seus votos.
Na edição de 14 de maio de 1997, com a manchete "Nova fita liga Sérgio Motta a compra de voto para reeleição", a Folha dedicou nove páginas ao caso. O Estadão deu menos espaço a essa denúncia, assim que estourou. Na sua primeira página, havia apenas uma chamada no canto superior esquerdo e com pouco destaque, intitulada "Câmara apura denúncia de corrupção", sem mencionar FHC tampouco Motta. Não noticiou nada de diferente, ficando a reboque da Folha. Nos dias posteriores, voltou ao assunto, divulgando entrevista de FHC à Rádio Eldorado, em que falou sobre a compra de votos. Editorial do Estado intitulado "A responsabilidade de cada um" louvou a disposição do presidente em se pronunciar sobre o episódio. Pouco depois, deixou de lado o caso, pautando denúncias que colocavam o PT sob suspeita: favorecimento de uma empresa de consultoria por prefeituras do partido, demonstrando uma agressividade que não imprimiu nas denúncias contra o governo e seu articulador político, o ministro das Comunicações, Sérgio Motta.
A pouca persistência na revelação de novos desdobramentos sobre a compra de votos levou o caso a não ir adiante, embora houvesse provas bastante contundentes. Hoje, a partir de denúncias baseadas apenas em testemunhos, vemos uma temperatura muito maior nas redações, ainda que o "mensalão" seja notícia velha requentada, já que foi publicada pelo Jornal do Brasil em setembro do ano passado, com recuo do então ministro Miro Teixeira e processo contra o jornal.
Líderes governistas têm se queixado da maneira como os meios de comunicação têm tratado o episódio. Durante os trabalhos da CPI do PC, a tropa de choque do presidente Collor também reclamou do espaço que a imprensa dava à oposição e, como sempre, se pronunciava em nome da "governabilidade". José Dirceu foi o autor do requerimento que criou a CPI. Hoje, Dirceu desqualifica Jefferson. "É natural. Qualquer advogado mediano aconselhará os seus clientes: comece desqualificando o seu oponente", comenta Maurício Azedo. Hoje, com três CPIs em curso, os jornais têm material suficiente para se posicionar. Uns chamam isso de conspiração. Outros, de escolha editorial.






