De olhos vendados, jornalista vai às ruas e conhece a realidade dos deficientes visuais
De olhos vendados, jornalista vai às ruas e conhece a realidade dos deficientes visuais
Com o objetivo de humanizar as reportagens que escrevia, o jornalista Fabiano Ormaneze seguiu pelo caminho do jornalismo literário. Professor da matéria na faculdade de Jornalismo da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUCCAMP), interior de São Paulo, e há dois anos repórter do Correio Popular , da mesma cidade, ele usou seu conhecimento para conceber a matéria "Ensaio sobre a cegueira", em que simula ser cego por um dia na região central do município.
| Divulgação |
| Fabiano Ormaneze |
Experiente em trabalhos diferenciados como este, Ormaneze - que também dá aulas de pesquisa em comunicação no curso de Relações Públicas na PUCCAMP - acredita que é difícil, no jornalismo diário, conseguir escrever reportagens baseadas no jornalismo literário que concebemos como ideal. No entanto, afirma que "alguns aspectos desse estilo podem nortear matérias em quaisquer veículos de comunicação".
Para ele, um destes aspectos é justamente a humanização. "Independentemente do veículo, seu trabalho sempre pode ser pautado por histórias humanas. Um bom personagem e uma boa história podem permear a apuração e o texto, que sem isso ficariam muito chatos", diz.
Outro aspecto importante, segundo Ormaneze, é a imersão, "ficar o mais perto possível da história". Mas como conciliar essas práticas com a pressão do dia-a-dia e a urgência do fechamento? O jornalista concorda que não é sempre que se tem tempo disponível, mas quando tem, ele não pode ser desperdiçado. "O problema é quando tem oportunidade e não a usa. Porque se o seu trabalho for bem feito, será bem recebido, e você acabará conquistando um espaço", acredita.
Durante a experiência como cego - que foi concebida após uma sugestão de sua editora - ele relata que aprendeu a utilizar mais os outros sentidos, principalmente o olfato e a audição - como por exemplo, para sentir o cheiro dos tecidos de uma loja de roupa e se localizar, situação que passa despercebida por quem enxerga - , e que se surpreendeu com a solidariedade. "Penso que talvez tenha procurado demais por gente que usaria de má-fé e só encontrei solidariedade. Em cada esquina, bastava parar e alguém se oferecia para me acompanhar até o outro lado", escreveu.
Esta foi a reportagem feita por ele que mais trouxe retorno de leitores. "Senti que as pessoas esperam por coisas mais diferentes no jornal; elas querem assuntos que fujam do tradicional. Como um e-mail que eu recebi, que afirmava que minha matéria 'trouxe um pouco mais de alma ao jornal'", contou o repórter ao Portal IMPRENSA.
Mas a grande lição, explicou Ormaneze no texto, foi perceber que "ver é uma ação fisiológica, envolve córnea, cristalino e retina. Enxergar é um pouco mais e exige sutilezas. Não é uma questão física, mas de sentir a si e aos outros. E ao mundo".
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