Dê o troco!
Dê o troco!
Atualizado em 12/11/2010 às 14:11, por
Silvia Dutra.
Era final de tarde, mas dia claro ainda. Eu tinha 16 anos e voltava do cinema com uma amiga. Morávamos em Santos, uma cidade que era tranquila no final da década de 70. De repente, caminhando na calçada em sentido contrário ao nosso, vinham esses três rapazes. Minha amiga e eu ficamos tensas porque sabíamos que ouviríamos gracejos ou obscenidades, mas foi ainda pior. Fomos violentamente prensadas contra um muro e três pares de mãos apressadas passearam por nossos corpos, tentando levantar saias e blusas. O ataque foi rápido, silencioso e inesperado, durou menos de um minuto. Mas jamais vou esquecer do quanto aquelas mãos desconhecidas me humilharam. E do ódio que senti ao ver aqueles rapazes se afastarem rindo do susto que haviam causado em mim e em minha amiga. E da sensação de impotência de não ter com quem reclamar, a quem reportar aquela violência.
Acredito que toda mulher, em algum momento de sua vida, já se sentiu ameaçada ou ofendida em locais públicos por palavras grosseiras, olhares lascivos ou insistentes, assovios, gestos obscenos ou, como aconteceu comigo, avanços indesejados por desconhecidos. Acontece diariamente. Dentro de transportes públicos, de elevadores, em filas, bares, nas ruas, a qualquer hora. Gays também são vítimas frequentes desse tipo de agressão. O fenômeno é mundial e aqui nos Estados Unidos é definido como "street harassment", ou "assédio nas ruas".
Em 2005, em New York, sete pessoas -- três homens e quatro mulheres -- conversando sobre essas experiências se deram conta que, embora existam leis que protejam mulheres e gays de violência e discriminação sexual nos locais de trabalho, as mesmas leis não são respeitadas em locais públicos. Especialmente se a agressão se restringe a palavras e gestos obscenos, sem contato físico, espancamentos ou estupro. Geralmente as vítimas são pegas de surpresa, o agressor se mistura à multidão, quem presencia fica calado e o episódio sequer é reportado a nenhuma autoridade, que nas raras vezes em que são acionadas pouco fazem.
O grupo de New York resolveu virar o jogo criando um website e um movimento que começou nos Estados Unidos e atualmente já conta com representantes e capítulos locais em diversos países, como Inglaterra, Israel, Canadá e Argentina. Trata-se do movimento "Hollaback", que poderia ser traduzido como "Devolva o xingamento".
O principal objetivo do movimento www.holllaback.org é educar a população de que esse tipo de comportamento não deve ser encarado como o preço a ser pago por ser mulher, ou ser gay. E que aceitar passivamente essas agressões verbais como meros contratempos desagradáveis é dar sustentação a uma cultura que degrada mulheres e homossexuais e abre o caminho para violências ainda maiores. Não se trata de uma brincadeira, uma piada, ou uma cantada desajeitada. Os comentários são feitos para intimidar, constranger e humilhar uma outra pessoa. Como num estupro, o que está em jogo não é o sexo em si, mas o poder e a dominação de um indivíduo pelo outro.
Já que as autoridades nada fazem, o pessoal do Hollaback resolveu usar a tecnologia para espalhar o conceito de responder ao xingamento e expor os agressores, identificando os locais onde eles agem. Além do site -- que funciona também como um fórum para que vítimas possam compartilhar idéias e experiências --, criaram um aplicativo que pode ser comprado por menos de um dólar e usado em iPhones e Androids. A idéia é que qualquer pessoa vítima desse tipo de perturbação deve, sempre que possível e tomando precauções de segurança, fotografar o agressor e o local do evento e imediatamente postar a informação na Internet, junto com um breve relato dos fatos.
Tal ação, acreditam os idealizadores do movimento, forçará a sociedade civil e as autoridades a prestarem mais atenção a essa questão. Segundo artigo recente publicado no The New York Times, em 2009, a polícia recebeu 1.300 reclamações de comportamento obsceno só no metrô da cidade -- exposição de genitais e masturbação -- e de avanços e toques físicos indesejados, além de 800 casos de exposição não intencional, geralmente associada com indivíduos intoxicados ou com problemas mentais. O chefe de Polícia do Departamento de Trânsito de New York, James P. Hall, declarou aos vereadores que "avanços sexuais indesejados são o primeiro item na lista dos problemas que afetam a qualidade de vida dos usuários do metrô".
Na India, de acordo com dados do site , o problema é tão grave e frequente que, em algumas localidades, as autoridades tiveram que criar linhas de ônibus e trens só para mulheres. Não consegui encontrar números referentes ao Brasil quanto a essa questão, mas minha experiência pessoal e o que já ouvi de amigas e conhecidas indica que a situação não deve ser muito diferente. No Brasil ainda não existe nenhuma filial do Hollaback, mas aqueles que se interessarem pela causa e quiserem participar do movimento podem mandar um email para HOLLA@ihollaback.org.
Acredito que toda mulher, em algum momento de sua vida, já se sentiu ameaçada ou ofendida em locais públicos por palavras grosseiras, olhares lascivos ou insistentes, assovios, gestos obscenos ou, como aconteceu comigo, avanços indesejados por desconhecidos. Acontece diariamente. Dentro de transportes públicos, de elevadores, em filas, bares, nas ruas, a qualquer hora. Gays também são vítimas frequentes desse tipo de agressão. O fenômeno é mundial e aqui nos Estados Unidos é definido como "street harassment", ou "assédio nas ruas".
Em 2005, em New York, sete pessoas -- três homens e quatro mulheres -- conversando sobre essas experiências se deram conta que, embora existam leis que protejam mulheres e gays de violência e discriminação sexual nos locais de trabalho, as mesmas leis não são respeitadas em locais públicos. Especialmente se a agressão se restringe a palavras e gestos obscenos, sem contato físico, espancamentos ou estupro. Geralmente as vítimas são pegas de surpresa, o agressor se mistura à multidão, quem presencia fica calado e o episódio sequer é reportado a nenhuma autoridade, que nas raras vezes em que são acionadas pouco fazem.
O grupo de New York resolveu virar o jogo criando um website e um movimento que começou nos Estados Unidos e atualmente já conta com representantes e capítulos locais em diversos países, como Inglaterra, Israel, Canadá e Argentina. Trata-se do movimento "Hollaback", que poderia ser traduzido como "Devolva o xingamento".
O principal objetivo do movimento www.holllaback.org é educar a população de que esse tipo de comportamento não deve ser encarado como o preço a ser pago por ser mulher, ou ser gay. E que aceitar passivamente essas agressões verbais como meros contratempos desagradáveis é dar sustentação a uma cultura que degrada mulheres e homossexuais e abre o caminho para violências ainda maiores. Não se trata de uma brincadeira, uma piada, ou uma cantada desajeitada. Os comentários são feitos para intimidar, constranger e humilhar uma outra pessoa. Como num estupro, o que está em jogo não é o sexo em si, mas o poder e a dominação de um indivíduo pelo outro.
Já que as autoridades nada fazem, o pessoal do Hollaback resolveu usar a tecnologia para espalhar o conceito de responder ao xingamento e expor os agressores, identificando os locais onde eles agem. Além do site -- que funciona também como um fórum para que vítimas possam compartilhar idéias e experiências --, criaram um aplicativo que pode ser comprado por menos de um dólar e usado em iPhones e Androids. A idéia é que qualquer pessoa vítima desse tipo de perturbação deve, sempre que possível e tomando precauções de segurança, fotografar o agressor e o local do evento e imediatamente postar a informação na Internet, junto com um breve relato dos fatos.
Tal ação, acreditam os idealizadores do movimento, forçará a sociedade civil e as autoridades a prestarem mais atenção a essa questão. Segundo artigo recente publicado no The New York Times, em 2009, a polícia recebeu 1.300 reclamações de comportamento obsceno só no metrô da cidade -- exposição de genitais e masturbação -- e de avanços e toques físicos indesejados, além de 800 casos de exposição não intencional, geralmente associada com indivíduos intoxicados ou com problemas mentais. O chefe de Polícia do Departamento de Trânsito de New York, James P. Hall, declarou aos vereadores que "avanços sexuais indesejados são o primeiro item na lista dos problemas que afetam a qualidade de vida dos usuários do metrô".
Na India, de acordo com dados do site , o problema é tão grave e frequente que, em algumas localidades, as autoridades tiveram que criar linhas de ônibus e trens só para mulheres. Não consegui encontrar números referentes ao Brasil quanto a essa questão, mas minha experiência pessoal e o que já ouvi de amigas e conhecidas indica que a situação não deve ser muito diferente. No Brasil ainda não existe nenhuma filial do Hollaback, mas aqueles que se interessarem pela causa e quiserem participar do movimento podem mandar um email para HOLLA@ihollaback.org.






