De novo, os planos de saúde na berlinda. E com razão

De novo, os planos de saúde na berlinda. E com razão

Atualizado em 15/04/2011 às 16:04, por Wilson da Costa Bueno.

A imprensa não tem perdoado os planos de saúde, dedicando a eles espaço e tempo significativos em notícias ou reportagens que focalizam sobretudo as suas inúmeras mazelas.
Alguém pode até criticar a posição da mídia, julgando-a parcial ou por assumir uma visão preconceituosa em relação aos planos de saúde, mas é forçoso admitir que, nesse caso com em muitos outros, a versão não está muito distante dos fatos.
Em primeiro lugar, é fundamental separar o joio do trigo porque há muitas empresas que atuam nessa área e não se pode generalizar levianamente, colocando todas elas no mesmo saco. Há diferenças sensíveis entre elas e quase sempre os deslizes se situam no campo da ética empresarial, da falta de compromisso com o interesse público, da reduzida seriedade com que encaram a questão da saúde em nosso país.
A situação é tão dramática que a ANS (Agência Nacional de Saúde) tem sido obrigada a intervir para evitar abusos inaceitáveis. É o caso, por exemplo, da chamada "consulta bonificada" (também conhecida como "pagamento por performance") que, segundo Talita Bedinelli, em reportagem publicada na Folha de S. Paulo (14/04/2011, p.C1) consiste em favorecer monetariamente os médicos que pedem menos exames. Ou seja, profissionais de saúde e empresas faturam em detrimento da saúde dos pacientes. Pode isso? A ANS e nós todos achamos que não.
As denúncias contra os planos de saúde se multiplicam em todo o território nacional e não são formalizadas apenas pelos que pagam mensalidades caras para, muitas vezes, receberem serviços precários. Os médicos fizeram recentemente uma manifestação de âmbito nacional para protestar contra os baixos valores pagos pelas empresas, que sequer repassam para os profissionais os aumentos que conseguem junto aos seus usuários. Os médicos também denunciam pressões para que não solicitem exames, particularmente os de alto custo, e o descredenciamento daqueles que não fazem o jogo das empresas.
Os pacientes, como todos nós, temos as nossas queixas recorrentes. Os idosos reclamam de aumentos absurdos e dizem que os planos querem se livrar deles quando mais precisam de assistência. A maioria dos usuários não concorda com o fato de as consultas demorarem uma eternidade para serem marcadas, repetindo o que também acontece no SUS. E todo mundo bota a boca no trombone porque há sempre restrições insuportáveis quando da utilização de direitos previstos nos contratos (alguns draconianos). Muitos embates entre pacientes e planos acabam na Justiça que, em muitos casos, decide a favor da parte mais fraca felizmente. Muitas empresas fecham as portas por absoluta incompetência de gestão, deixando milhares de cidadãos sem cobertura.
A imprensa, portanto, não está fazendo avaliações descoladas da realidade e, na prática, jornalistas e empresários da comunicação, que são também usuários dos planos, sabem como as coisas funcionam no Setor, ressalvadas as excelentes exceções.
O problema, no fundo, tem a ver com uma visão mercantilista da Medicina e na falta de controle das autoridades que vêem a campo apenas quando o clamor da opinião pública é ensurdecedor. Na verdade, o Governo sabe que estes desvios têm a ver com o processo de privatização da saúde, com o fato de que, há muito tempo, ele vem sucateando os hospitais públicos, degradando a assistência médica oficial, empurrando, obrigatoriamente, os que podem ou conseguem pagar para as mãos do setor privado.
É imperioso que os governos e a sociedade ponham ordem na casa, saneando os planos que andam capengando, fechando as empresas que não têm (algum dia tiveram?) condições de continuarem na ativa e, quando é o caso, punindo exemplarmente aqueles que insistem em prejudicar os cidadãos.
Está na hora de cobrar dos planos os prejuízos decorrentes da utilização de serviços e hospitais públicos por parte dos seus usuários, muitas vezes encaminhados ao Setor Público por gestores privados que sabem cobrar mensalidades mas não estão capacitados a entregar o que prometem na hora da contratação dos planos".
A saúde no Brasil é um caso de polícia e a saída não está em aumentar impostos para cobrir rombos seculares, mas imprimir uma gestão séria, eliminar a corrupção, o desperdício, combater com vigor os lobbies de farmacêuticas e distribuidores de medicamentos.
Temos repetidamente insistido na necessidade de fazer a indústria do tabaco pagar as despesas que gera para o sistema público da saúde (nos EUA, ela fez um acordo bilionário com inúmeros estados americano) e na adoção de medidas severas contra agentes que afrontam a saúde pública. É preciso frear o impacto brutal dos agrotóxicos que emporcalham o solo, o ar , a água e contaminam os nossos alimentos e também exigir a produção de uma gasolina e um diesel mais limpos (até quando vamos ser vítimas do combustível sujo - um dos mais sujos do mundo - que a nossa querida Petrobras nos obriga a respirar?).
A mídia pode desempenhar papel fundamental em prol da qualidade de vida. Ela não deve se limitar às denúncias contra os planos de saúde, embora não deva dar-lhes trégua porque eles têm uma tendência natural a sobrepor o interesse privado ao interesse público. Deve exigir investimentos em pesquisa para analisar a relação entre saúde e meio ambiente, entre saúde e transgênicos e definitivamente explicitar o potencial cancerígeno dos agrotóxicos ( que devem ser vistos como veneno e não como remedinho para planta).
A mídia deve levantar barricadas contra a falta de investimentos em saneamento básico, a degradação do ensino médico, a relação espúria entre profissionais de saúde e farmacêuticas e assim por diante.
Os planos de saúde são a ponta (perigosa, é claro) do iceberg, mas há um volume imenso de desmandos e de agressões à saúde pública em nosso país. Toda atenção é pouca porque, nesta área, não existe mesmo almoço grátis.
Que os planos mereçam auditoria permanente e que os profissionais e pacientes prejudicados continuem fazendo soar as trombetas da denúncia. Que possamos também saudar os que fazem direito a lição de casa e respeitam os consumidores. Infelizmente, eles não são muitos, mas constituem a prova inconteste de que é possível ser sustentável sem afrontar a nossa qualidade de vida.