De novo o jornal e de novo na escola
De novo o jornal e de novo na escola
Na última semana ministrei um minicurso sobre a presença do jornal na educação partindo da abordagem discursiva que é o que procuro estudar atualmente. Basicamente considero o jornal como um produto de linguagem e, sendo linguagem, é produto humano e por isso é atravessado pela história e pelos valores da sociedade que ele está inserido. Cada jornal representa, fala, simboliza a história do seu tempo, do lugar que está localizado, e claro, fala também dos homens e das histórias dos homens que lêem e escrevem neste jornal.
Mas esta é uma abordagem um tanto complexa que requer calma e muita prudência, no ensino do jornalismo esta prudência precisa ser redobrada, pois nos acostumamos a idealizar a linguagem como algo estável, permanente e digna da verdade absoluta. Se está escrito, é fato, é verdade! Esta lógica funciona bem dentro do universo jornalístico principalmente quando acionamos outros mecanismos importantes para a profissão como a idéia de imparcialidade, a de se reportar a fontes confiáveis, enfim. Sem dúvida essa abordagem diferenciada da linguagem também coloca em perspectiva essas outras verdades jornalísticas e é por isso que precisamos ter calma.
Tratando destes assuntos com os alunos do minicurso, em sua maioria professores ou futuros professores, percebi claramente que não existe ingenuidade no magistério. Os professores me surpreenderam positivamente com suas análises, simples e concretas, sobre o papel da mídia na sociedade, seu poder de influência e como este poder interfere definitivamente no processo de aprendizado dos seus alunos. Os professores já perceberam o papel discursivo do jornal e que a leitura de uma notícia não é necessariamente a leitura do mundo, mas a leitura de uma visão de mundo.
Dito isto podemos todos rasgar nossos jornais, embrulharmos nossos peixes e simplesmente ignorar as notícias? Afinal, se a mídia representa uma visão parcial do mundo ela não deveria nos interessar, certo? Bom, eu ainda acho que esse simplismo está errado. Não podemos inverter a curvatura da vara e de santa portadora da verdade transformar a mídia em um demônio, manipulador e mentiroso. Existe o equilíbrio! E a meu ver ele está muito mais do lado do leitor do que do lado do jornal.
O jornal pode não trazer a verdade absoluta, mas ele traz um discurso sobre o nosso tempo, ele fala da nossa sociedade e dos acontecimentos que influenciam sua dinâmica, a leitura atenta e crítica deste movimento que acontece diariamente nas páginas dos jornais é importante, faz diferença. O leitor preparado encontra o equilíbrio justamente em não acreditar em tudo o que lê.
Por isso considero tão importante levar o jornal para sala de aula, pois lá a leitura pode ser contextualizada. O jornal sendo usado pelo professor não deve ser visto como mais um método inovador de ensino e sim como um objeto a ser lido, criticado, analisado, ponderado.
Quando tenho a oportunidade levo um jornal em baixo do braço e começo minhas aulas citando exemplos tirados das suas páginas. Geralmente os debates mais calorosos e produtivos surgem desta pequena atitude. Procuro sempre contextualizar as notícias com outros textos e exemplos porque o exercício crítico é exatamente resultado de um movimento intenso de leitura e de confrontação da leitura.
Assim, neste movimento crítico podemos aos poucos questionar velhas verdades sobre o exercício do jornalismo ponderando sempre com os futuros profissionais que o fato de não existir verdade absoluta não libera o jornalista para inventar, deixar de apurar ou de buscar o rigor na produção da informação. Ao contrário, quanto mais críticos e quanto mais entendemos o poder da informação, mais responsáveis nos tornamos pela qualidade de sua produção.
*Nota do editor: a colunista passará um tempo afastada do Portal IMPRENSA, mas por um motivo maravilhoso. Em breve, a pequena Sofia chega ao mundo e deixará nossa querida parceira um tanto ocupada. Todos nós da equipe IMPRENSA desejamos à Kátia, ao Leduíno e à, com certeza, linda Sofia, toda a saúde e felicidade!!!






