De Novo e Novamente

Fiz cobertura de uma dúzia de viagens do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao Nordeste. Era aquela muvuca acompanhar o deslocamento de um município para outro, ou de um evento para outro numa mesma cidade.

Atualizado em 02/05/2013 às 15:05, por Silvia Bessa.

de viagens do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao Nordeste. Era aquela muvuca acompanhar o deslocamento de um município para outro, ou de um evento para outro numa mesma cidade. Grava, observa, cadê o homem que ele afagou? Falou com quem? Decupa, escreve.
Lula era espécie de matéria semipronta: trazia informações (uma inauguração ou promessa de obra), procurava emocionar, tecia frases de efeito e contava histórias. Duvido até hoje da veracidade de algumas, mas era das cenas descritas por ele que o povo mais gostava – e lembrava depois.
Estava na última visita que ele fez ao semiárido como chefe do Executivo, em dezembro de 2010 em Salgueiro (PE). Foi nessa passagem que Lula anunciou a instalação de uma montadora da Fiat em Pernambuco. Pronta a partir de 2014, deverá produzir 250 mil veículos por ano. Era a notícia. Estima-se que o investimento, estimado em US$ 2 bilhões, irá gerar a contratação de 4,5 mil empregos diretos e 12 mil empregos in indiretos. Dessa vez senti falta de uma boa história. Lula só tinha as de bastidores de uma negociação com a fábrica italiana e com o governo de Pernambuco; nenhuma inspirada em populares.
Oito meses depois, quando já se sabia que Goiana (de 75 mil habitantes) seria o município premiado, pensei: como estava Goiana em 2011 antes de sofrer a grande transformação? Escrevi: “Goiana desperta com cheiro de feijão cozido temperado com uma banda de charque”. A primeira linha, relato de um hábito de uma família de boias-frias às 3h20, prenunciava a tentativa de narrar cenas de um cotidiano que ficaria na memória entre o antes e o depois da Fiat.
Era o bagaço da cana que cobria as ruas com a poeira fina às 4h. A limpeza feita por seu Antônio Dias (61 anos na época), que trabalha a partir das 4h30 para driblar o vento e as pessoas que “não têm educação”. As manias de dona Maria José de Araújo (80 anos), a Nena, de ajudar na varrição do Beco do Curtume e comer o famoso pão de xerém da Padaria Rainha. E um texto que trazia nuances de uma feira erguida às 5h30 e dos personagens que a fazem, tipo Larissa da Silva (8 anos), que ajuda a vender laranjas e goiabas.
Quando Lula fez em 2010 o anúncio sobre Goiana imaginei meses de matérias subsequentes. Em 2011, na semana anterior ao início da construção da fábrica, tinha a sensação de que já se tinha publicado quase tudo sobre Goiana e a nova Fiat. Não tudo, ainda.
Sorte nossa, o ainda é reserva técnica do jornalismo. Sempre se tem o que falar sobre um tema já muito explorado pela mídia. Tendo como base a vida das pessoas, matéria-prima do jornalismo, faz-se, reescreve-se e se revisita. Qualquer matéria. Até as que parecem feitas de assuntos gastos.