De manequim à coordenadora de moda, Vilma França fala sobre trajetória na TV Gazeta
Nascida em Salvador (BA) e moradora de uma favela, Vilma França dos Santos conheceu de perto a pobreza. Filha do meio entre quatro homens, sua infância e adolescência foram marcadas pela falta de quase tudo.
Esses elementos estiveram em sua trajetória até chegar ao que é hoje, com 56 anos: coordenadora de moda e beleza da TV Gazeta. “A gente sempre tem condições de lutar pela vida. Você não pode pensar que nasceu assim e tem que ficar assim, não pode cruzar os braços nem se entregar. Você muda o seu destino”, defende.
Vilma começou na emissora paulista em 1979, como manequim, e atualmente coordena uma equipe formada por cerca de vinte profissionais, entre maquiadores, cabeleireiros, camareiras e figurinistas. “Nunca falei ‘vou ser isso ou aquilo’, eu falava ‘eu vou trabalhar, vou conquistar’.”
Crédito: Vilma França é coordenadora de moda e beleza da TV GazetaCom 35 anos de casa, no figurino, ela acompanha a escolha, a compra e o empréstimo de roupas, vê se as provas estão certas, confere a organização, entre outras coisas. Já na maquiagem, ela procura ver os resultados, trocar experiências, corrigir falhas e, se necessário, resolver pepinos. “Televisão é ego. Se você aparece um minuto no vídeo também vai ter, é normal. Às vezes, chega alguém com pressa para gravar e quer ser o primeiro, mas quem vai entrar ao vivo é prioridade.”
Fora os contratempos, Vilma apenas coordena o trabalho. “Tem que dar liberdade para o profissional ou ele não cresce.”
Anjos, estrelas e chaves
Entre Salvador e São Paulo a profissional andou bastante. Aos 17 anos, foi trabalhar para a cliente de sua mãe que abriu uma sauna para a alta sociedade feminina. Lá, aprendeu a fazer massagem e depilação, e só saiu para estudar para o vestibular.
“De manhã fazia cursinho, trabalhava à tarde e, à noite, fazia o ensino técnico para me formar no 3º ano. Chegava em casa meia-noite e saía às seis. Minha mãe já me esperava com um copo de mingau. Eu só tomava banho, tomava o mingau e caía na cama.” O esforço, no entanto, a deixou doente e ela concluiu apenas o 3º ano.
Decidida a sair da Bahia, ela continuou como massagista. Um dia conheceu uma amiga de sua cliente que morava em São Paulo. “Pedi para ficar na casa dela. Lá, uma amiga falou para eu ser modelo, pois era alta e usava 38. O curso de manequim ia começar em junho, mas minha família não aceitava.” Foi um desabafo com a sua cliente médica, a quem considera um anjo, que mudou tudo. “Ela, que tinha a idade da minha mãe e não tinha filhos, fez uma mala para mim, me deu o dinheiro da passagem e disse ‘vai embora’”, recorda emocionada.
Em São Paulo, morando num pensionato, ajudava a vizinha a costurar em troca de comida. Um dia, assistindo o programa “Clarice Amaral em Desfile” ela viu o comercial de uma academia e foi pedir emprego de massagista. Um mês depois, a própria Clarice, que frequentava a academia, deu um teste a Vilma na TV Gazeta.
Crédito: Vilma cuida do cabelo, figurino e maquiagem dos apresentadores e convidados da casaApós anos desfilando, o Silvio Alimari (Tico), superintendente, pediu para ela cuidar da maquiagem, que até então era uma caixa, um balcão e uma cadeira. Vilma fez curso e pediu uma sala. A direção aceitou. “‘Vão vender tudo nesse salão, serve para você?’. Pensava ‘meu Deus, como vou saber?’ ‘Onde você quer a sala?’. Tempo para conversar com Deus. ‘Perto do estúdio’. ‘Como você quer a iluminação?’ ‘Deus...’. ‘Igual do estúdio’. Eu falo que Deus fez essa sala porque não fui eu”, diz. E ainda teve surpresa. “Tinham feito um céu estrelado na sala. Aí tive certeza que não fui eu que fiz, foi Deus”, afirma ela que é espiritualista.
Sala pronta, foi preciso também cuidar dos cabelos dos apresentadores e convidados: ela fez curso e contratou ajudantes. Quando Tico viajou, confiou a ela o figurino: novos cursos, mais trabalho e outra chave nas mãos. “As oportunidades que foram surgindo eu fui pegando.”
No 8º andar
Além dos apresentadores, por ali passam artistas, políticos e personalidades. Acostumada com o ambiente, ela não coleciona fotos nem mima ninguém. Para ela, além da imparcialidade na hora de resolver problemas, sua postura ajuda a equipe a agir com profissionalismo. “Para chefiar, primeiro tem que dar exemplo.” Não por acaso, hoje ela só lembra de uma foto.
“Sempre gostei do Milton Nascimento. Ele veio dar entrevista e ficou afinando o violão. ‘Milton, desculpa, eu trabalho aqui há tantos anos, nunca pedi isso, mas deixa eu tirar uma foto com você?’. ‘Você espera eu cantar?’, ‘Claro’. Ele cantou, depois foi na sala de maquiagem me chamar”, lembra feliz.
Com mais tempo na TV Gazeta do que em Salvador, hoje ela se sente mais em casa dentro de uma televisão, entre roupas, sapatos e maquiagens. “Foi onde me descobri. No ano passado, quando fiquei doente, tive todo apoio da direção e do RH e não me senti em nenhum momento desamparada. Peço a Deus que proteja esse lugar, os trabalhadores, a direção. É um local onde eu fui abençoada.”






