De duas, uma, por Gabriel Priolli

Crédito:Leo Garbin Há exatos 40 anos, num mês de março como este, a minha vida mudou bastante. Eu era um jovem publicitário com a carreira ascendente, bem remunerado e relativamente feliz com a profissão que abraçara.

Atualizado em 03/03/2015 às 11:03, por Gabriel Priolli.

anos, num mês de março como este, a minha vida mudou bastante. Eu era um jovem publicitário com a carreira ascendente, bem remunerado e relativamente feliz com a profissão que abraçara. Mas era também estudante de comunicação na USP e acabava de mudar de curso.


Em vez de publicidade e propaganda, que eu queria cursar inicialmente, mudei para jornalismo. A ideia era ter um canudo forte de uma segunda profissão, porque eu já havia me estabelecido na primeira, tinha trabalho, era sindicalizado e a publicidade não exigia diploma de nenhum tipo. Não pretendia trocá-la pelo jornalismo. Queria apenas ter a possibilidade.


No entanto, três dos meus professores na Escola de Comunicações e Artes também trabalhavam na TV Cultura: Walter Sampaio, como diretor de jornalismo; Paulo Roberto Leandro e Cremilda Medina, como editores. Eles precisavam de reforço na redação e, como só havia verba para contratar “focas”, me ofereceram uma vaga de repórter.


Assim, antes que pudesse entender o que eram lead e “pirâmide invertida”, lá estava eu a bordo da nau dos insensatos, a Arca de Gutemberg. Devidamente picado pela mosca azul, que embarcou nela antes de qualquer outro bicho e que contagia todos eles.


Ao longo da carreira, vivi todas as dores da convivência dessas profissões. Mais que correlatas, elas são irmãs siamesas, unidas por laços uterinos de interdependência, embora gostem de crer que são apenas primas em segundo grau.


O noticiário é a fonte de muita criação publicitária, assim como o anúncio é a seiva que alimenta a imprensa comercial. Mas cultivava-se a ideia de manter as atividades bem separadas, para que o jornalismo não fosse “contaminado” e não perdesse o rigor crítico, a isenção.


Com o avanço da televisão, primeiro, e depois com a chegada da internet e da cultura digital, velhas certezas do jornalismo e da publicidade desmoronaram. Limites claros de atuação se esfumaçaram. Padrões de linguagem se interpenetraram. Tabus foram quebrados.


Eis, então, que agora temos uma publicidade que faz conteúdo, inclusive jornalístico, assim como temos um “jornalismo de listas”, fortemente apoiado na publicidade e no entretenimento. O site BuzzFeed, nascido de uma costela do jornal digital The Huffington Post, é um bom exemplar da espécie, que coleciona listas dos “dez mais” (ou qualquer número) de quase tudo.


Isso é bom? Difícil dizer, sem parecer um ogro analógico do século passado. Assisto às mudanças meio perplexo, de um posto de observação localizado bem na confluência do jornalismo com a publicidade: o marketing político. Antes, era privativo de agências especializadas. Mas agora, com tanta politização editorial, parece que os jornais também estão nesse mercado.


foi editor executivo e diretor de redação de IMPRENSA entre 1987 e 1991. Hoje é produtor independente de TV.
gpriolli@ig.com.br.