De como o telégrafo revolucionou a imprensa

De como o telégrafo revolucionou a imprensa

Atualizado em 24/05/2010 às 09:05, por Nelson Varón Cadena.

Comemora-se hoje (24/05) o dia do telegrafista, a data uma referência à primeira mensagem enviada por Samuel Morse, o inventor do código que encurtou as distâncias e deu uma nova dimensão à imprensa. A invenção de Morse aproximou a noticia do leitor. Nasce o chamado tempo real da imprensa que antes do telegrafo era medido pelo número de dias, semanas ou meses, em que as cartas manuscritas pelas fontes, ou correspondentes, contendo a narrativa dos fatos, chegavam às mãos do redator do jornal. A partir do telegrafo, o tempo real da notícia passa a ser de um, ou dois dias, no máximo. Representava a morte do jornalismo feito na base de recortes e colagem, conforme a previsão de James Benett, editor do New York Herald que também enxergou no novo invento o fim da imprensa opinativa, com interesses estratégicos. Em parte tinha razão.
Se a invenção do telégrafo já impactava a imprensa norte-americana em meados do século XIX, no Brasil a nova tecnologia de fato seria disponibilizada para a mídia a partir de 1.874 quando da inauguração do cabo submarino e no ano seguinte com o início dos serviços da agência de noticias Havas. Antes disso as noticias de outros estados tinham o tempo real de uma viagem de navio, ou da diligência dos Correios (Duas semanas da Bahia para o Rio, pelo mar, ou três dias do Rio para São Paulo por terra). Já as notícias internacionais demoravam a chegar de um, a dois meses, a depender dos ventos, descritas em cartas e gazetas endereçadas às repartições diplomáticas, ou particulares, nos navio a vela, ou a vapor que cruzavam o atlântico.
Noticia como prioridade
O telégrafo também no Brasil aniquilou a imprensa de opinião, favorecendo o jornalismo informativo. A notícia passou a ser prioridade para o leitor, doravante interessado nos acontecimentos de outros estados e do mundo. Os grandes jornais que já exibiam tiragens de mais de 5.000 exemplares, no ultimo quarto de século, criaram a seção de telegramas, também denominada de noticias de última hora, com destaque no alto da segunda, ou terceira páginas. Algumas dessas notícias eram reproduzidas na capa, a depender de sua importância e dos interesses políticos e de relações de poder de seus proprietários. Essa tecnologia, porém, não era disponibilizada diretamente ás empresas jornalísticas e sim intermediada pela repartição dos Correios e Telégrafos e por tanto, algumas vezes, sujeita à censura.
Nos embates políticos que antecediam as eleições de deputados para o legislativo essa intermediação do órgão público, na distribuição da noticia, resultava na omissão de telegramas cujo teor ameaçava o sistema de poder vigente. Jornais liberais, conservadores, ou republicanos, faziam referências nos seus editoriais a esses procedimentos. O poder público silenciava, raras vezes se manifestando. Quando se manifestava, negava. Era de fato censura explícita, problema que se agravava no interior do país já que os Correios interferiam não apenas na distribuição dos telegramas como do próprio jornal, retido na repartição por ordens de um chefe político local.
Política aparte, o telégrafo revolucionou a imprensa encurtando o tempo entre a notícia e o leitor. Tornou possível consumir noticias políticas e econômicas atualizadas, influenciou os homens de negócios, provocou a criação da pirâmide invertida e conseqüentemente do texto objetivo (o sinal caia e o primeiro parágrafo devia conter a informação básica), reformulou o papel das agências de notícias e valorizou o seu serviço e se houve um prejuízo nesse processo, numa etapa inicial, foi para os jornalistas. Bennet chegou a admitir a possibilidade de desemprego em massa: Para que jornalistas se a notícia vem pronta? Não aconteceu exatamente conforme imaginado.
O fato é que o telégrafo revolucionou a imprensa e sinalizou o futuro. O Código Morse nada mais era do que um Tag.