De Chagas Freitas a Anthony Garotinho (ou) Do clientelismo ao assistencialismo

De Chagas Freitas a Anthony Garotinho (ou) Do clientelismo ao assistencialismo

Atualizado em 09/12/2004 às 15:12, por Thiago Pinheiro/Universidade Estácio de Sá (RJ).

Por Nova pagina 1



Os governantes são eleitos para governarem em nome do povo. No Brasil, como em dezenas de outros países, os que assumem o poder não têm apenas a tarefa de administrar. Eles precisam também, e em muitos casos é - ou deveria ser - a sua prioridade, lidar com a pobreza que assola a maioria das cidades do nosso país. Alguns escolhem políticas sérias que atacam a origem do problema. Outros utilizam a pobreza como uma forma de se manterem no poder, agravando e perpetuando a miséria da população. E, acreditem. São aplaudidos por isso.

No Rio de Janeiro a situação não é diferente. Aproveitando-se do vácuo de poder causado pela perda do status de capital e também do caos político decorrido da fusão imposta pelos militares; políticos, ao longo das últimas décadas, têm se valido de práticas assistencialistas e do clientelismo político para chegarem ao poder e lá se manterem. Chagas Freitas[1], se não foi o precursor, lapidou e deu uma forma única ao esquema clientelista de fazer política. Apesar disso, ele interrompeu - por um curto período de tempo - uma tradição de políticos personalistas no Rio de Janeiro com seu estilo avesso a discursos. É só ver que, se antes Carlos Lacerda dominava o cenário político carioca, após Chagas Freitas a vez foi de Brizola.

Porém, o que deveria ter sido uma benesse para a política fluminense, transformou-se em uma prática nefasta de política que, ironicamente, foi exportada para o restante do país, como uma última contribuição da política fluminense para o Brasil: o assistencialismo. Não que tal atividade fosse inédita na nossa política. Porém, a forma direta que o Estado atua, aproveitando-se da pobreza da população, garantindo parcos recursos - sempre com nomes pomposos que remetam ao Estado - que permitem a população...sobreviver!. Tudo isso, com o Estado agindo como se não tivesse nenhuma culpa em relação a esta situação. Ao contrário!, com tais práticas, não busca-se a solução do problema do povo, mas sim a sua perpetuação, reforçando a dependência da população em relação ao Estado. Assim, garante-se a permanência dos governantes populistas no poder, como bem define Alfred Keller em seu artigo, "Populismo Institucional e Populismo Revolucionário na Venezuela" (Cadernos Adenauer V, nº2 - 2004)

"Em última instância, o populismo não é senão uma maneira de assistencialismo ou de patronato por parte do Estado que avilta a liberdade das pessoas obrigando-as a depender de políticas redistributivas que lhe permitam viver no limite da sobrevivência. A maior esperteza e crueldade do populismo é seu propósito de transformar esta humilhação em agradecimento e em aplauso."

Nos últimos anos, mais particularmente nos governos de Anthony Garotinho e de sua esposa, Rosinha, a população foi exposta a uma onda de assistencialismo. Garotinho aproveitou-se do fato de ter como principais adversários políticos ligados à cidade do Rio de Janeiro (César Maia e Luiz Paulo), e mais especificamente, às classes média e alta da cidade, e se tornou o "representante dos pobres". Além disso, teve bastante competência em se aproveitar de ter vindo de Campos e não da capital, para conseguir a maioria dos votos fora da região metropolitana.

Eleito e tendo como base eleitoral a população de menor renda, era natural que seu governo fosse orientado a essa parcela da população. O que não se esperava, era o surgimento de inúmeros programas assistencialistas, como os populares programas a um real, que incluem restaurantes, hotéis e mais recentemente, numa tentativa desesperada de se reverter a situação em Campos, casas. Fora o cheque-cidadão, que havia sido o carro-chefe do início do primeiro governo Garotinho, mas que ficou de fora da mídia por algum tempo, até fazer o seu retorno nesta última eleição.

Se o modelo chaguista de fazer política, consistia no apoio das lideranças locais através de acordos políticos (ou seja, uma troca); Garotinho aproveita-se da herança chaguista e alimenta as lideranças locais com seus programas assistencialistas. Com isso, aumenta e consolida a sua base eleitoral, como provam as eleição vitoriosas para o estado do Rio de Janeiro em 98; a de sua esposa, em 2002; e os seus 15 milhões de votos para a eleição presidencial, também em 2002[2].

Assim como as classes média e alta acabaram com a carreira política de Chagas Freitas em 82, resta, a essas mesmas parcelas da população, determinar o fim desse triste capítulo da política fluminense, elegendo para o governo do estado em 2006 alguém que tenha a capacidade de solucionar o grave problema da pobreza no nosso estado, bem como a sua crise econômica que se arrasta há muitos anos. As eleições de 2004 apontaram alguns caminhos, resta saber quem será a pessoa a trilhá-lo.

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[1] lembrando que, até 1960 no Rio de Janeiro, se tinha um prefeito nomeado pelo presidente e de 1960 até 1974, um governador. De 1975 até 1985, com a fusão, a cidade voltou a ter um prefeito. E em 1986, as primeiras eleições para prefeito, elegendo Saturnino Braga.

[2] Esta, porém, deve-se também ao fato da poderosa máquina evangélica e da natural repulsa que candidatos como Lula, Ciro Gomes e José Serra causavam na população, por motivos como longa exposição ou divergência ideológica, por exemplo.