De big brothers a big candidatos 

De big brothers a big candidatos

Atualizado em 29/11/2004 às 11:11, por João Camargo Neto estudante de jornalismo da faculdade ALFA e  Goiânia.

De big brothers a big candidatos

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Nas últimas eleições, a então apresentadora do telejornal Goiânia Urgente, Rachel Azeredo, foi eleita deputada estadual com maior número de votos no Centro-Oeste. Agora, a mesma, há quase três anos fora do vídeo, concorre à Prefeitura de Goiânia. O "big brother" Dhomini é candidato à Câmara Municipal. Ao mesmo pleito, concorre o vencedor da segunda edição de "No Limite" (programa da Rede Globo), o empresário Leonardo Rassi Neto. O apresentador do"Cidade Esperança", Túlio Isaac, ao lado do prefeitável Sandes Júnior, também radialista, busca sua cadeira dentre outros candidatos a vereador. Os cônjuges também correm atrás de seus minutos de fama, ou suas chances políticas; é o caso de dona Tereza. O quê? Você não sabe quem é dona Tereza? É a esposa de um ícone do radialismo goiano. Isso mesmo, a esposa do Barbosinha.

Nas eleições estaduais no Paraná, Carlos Roberto Massa Júnior, o filho do Ratinho, foi o deputado estadual mais votado. Agnaldo Timóteo, duas vezes deputado federal pelo Rio de Janeiro, agora é candidato a vereador em São Paulo, ao lado de Paulo Maluf. Enquanto isso, na Cidade Maravilhosa, o goiano global Stepan Nercessian está na disputa por uma vaga no legislativo municipal carioca.

A professora da Universidade Federal de Goiás, e doutora em Ciência Política pela Katholiche Universitat Eichsttat/Alemanha, Silvana Krause, responde que não saberia o motivo que leva alguém que já tenha sua imagem midiatizada a candidatar-se a um cargo eletivo. "A imagem ser muito divulgada já é um facilitador, mas não é uma relação automática. Não é todo jornalista, por exemplo, que sensibiliza o eleitor", afirma. "O Brasil não tem tradição partidária forte, por isso, a mídia é mecanismo divulgador da imagem que é vendida", complementa.

Túlio Isaac tem uma história um tanto quanto esquisita. "Era filiado ao PT e não sabia", diz. "Quando era sócio do atual deputado federal Rubens Otoni numa rádio, assinei os papéis de filiação ao Partido dos Trabalhadores, há uns dez anos, mas nem me lembrava mais". Túlio descobriu que era filiado ao partido da estrela depois de preencher sua ficha de filiação ao PSDB, há um ano. O apresentador do "Cidade Esperança" diz que a solidariedade é o principal motivo para votarem nele, tanto os telespectadores de seu programa quanto os colaboradores. Ele diz, ainda, que o candidato Sandes Júnior é atingido pelo preconceito dos que acham que radialista não sabe administrar.

Talvez, dentre os postulantes à Câmara Municipal de Goiânia, André Augusto Ferreira Fontes seja o que a mídia mais explorou. Ele é o big brother 3 que, após o reality show da Globo, gravou comerciais para a Flávio's Calçados. Dhomini filiou-se ao Partido de Reedificação da Ordem Nacional (Prona) no ano passado. Em Goiânia desde 1981, o principal projeto do mineiro para a capital é a recuperação do rio Meia Ponte, mesmo não sendo de competência do governo municipal. "Já mostrei para o Íris e ele me apoiou", fala. O candidato revela que lançou sua candidatura somente porque o partido lhe garantiu apoio irrestrito a Íris Rezende. "Quando o Barbosa Neto-PSB (de quem foi secretário parlamentar) disse para eu ser candidato, me filiei ao Prona. Sou apaixonado pelo Enéas, ele é muito inteligente", declara.

O candidato revela que o PMDB o tem ajudado com os custos de confecção de santinhos, e apenas pequena parte do prêmio de R$ 500 mil foi investida na campanha, visto que já aplicou quase todo o dinheiro. Dhomini é invejado por outros postulantes da coligação por quase sempre ter Íris Rezende em seu palanque nos comícios. "Acho que muita gente votará em mim por causa do Big Brother Brasil, mas estou trabalhando muito, olhando nos olhos do eleitor. Não espero os votos dos telespectadores do programa, vou atrás", afirma. Ele diz representar as classes B, C, D e E porque a A não precisa de político. O presidente nacional do Prona aparece na campanha televisa do "brother", como de outros candidatos do partido. Dhomini garante que inicia no próximo ano um curso superior de gestão.

É, os "brothers" têm mesmo sede política. Todo mundo se lembra de "No Limite" (programa de competições produzido pela Globo)? Pois é, da segunda edição, e última, saiu um candidato. Leonardo Rassi Neto, 26, pós-graduando em gestão empresarial pela Fundação Getúlio Vargas, formado em engenharia da computação e dono de uma lan house (Monkey) que agrega, nada menos que 65 computadores.

Léo, como é mais conhecido, é candidato a vereador pelo PPS, mas garante ter entrado para o partido bem antes de ingressar no programa global: "Sou filiado desde 1999". "No Limite" foi o primeiro reality show produzido no Brasil e a última edição foi exibida em 2001, diretamente da Chapada dos Ventos, no Mato Grosso. Ele diz que sua participação vitoriosa no programa é um bom motivo para que se vote nele.

Dona Tereza é produtora do Programa do Barbosinha há mais de 30 anos. Devota de Nossa Senhora, ela assegura: "O Marconi não é o melhor governador do Brasil, é o melhor governador do mundo. Sandes é jovem, mas conhece a necessidade do povo. E você pode ter certeza que ele vai fazer igual ao Marconi. Ele vai ser o melhor prefeito que Goiânia já teve". Ela representa a classe mais simples, "a que dá audiência para a gente e que realmente precisa". Dona Tereza e Barbosinha seguiram os passos partidários de Sandes, são filiados ao PP desde 1996 por causa do "amigo da gente".

Em 1992, ela foi candidata pelo PDT, sendo a segunda mais votada do partido à época, embora não tenha sido eleita. Ela diz não usar o nome do marido para fazer campanha e sim para saberem que eles trabalham juntos. De acordo com a candidata, utiliza-se o rádio para fazer trabalho social que, dentro das possibilidades, ajuda no que é possível. "Por isso quero entrar para a política, para fazer um trabalho melhor", avalia. Tem como bandeira a os direitos da mulher e acha um absurdo as creches municipais funcionarem apenas de segunda à sexta-feira. Seu principal projeto é a creche-escola em tempo integral, inclusive aos fins de semana, que tende a beneficiar muito mais a mulher.

O rádio é o meio de comunicação de massa que consegue atingir o maior número de pessoas. Talvez seja esse o motivo que o faz germinador de candidatos. Túlio Isaac (tem um programa assistencialista também no rádio), Cristiano Flowers, Carlinhos do Esporte e o próprio candidato a prefeito, Sandes Júnior, são radialistas. Todos participam da Coligação Goiânia do Futuro, chapa majoritariamente do PP e do PSDB. Mas partidos de outras linhas ideológicas também têm seus candidatos artísticos, como o DJ Fox, que concorre a uma vaga na Câmara pelo PT.

Palavra de especialista

A seguir, o cientista político Pedro Célio, professor-doutor da Faculdade de Ciências Humanas e Filosofia da Universidade Federal de Goiás, fala sobre o uso da mídia pelos candidatos e da apropriação de cabos eleitorais de renome.

O fato de alguns candidatos estarem na mídia ou terem passado por ela os credibiliza diante a sociedade?

Certamente são candidatos que iniciam a campanha mais conhecidos do que a maior parte de seus concorrentes. O prévio conhecimento público de que desfrutam, embora gere facilidades para pedir votos, não reverte em automática credibilidade. Depende, inclusive, da forma como se fizeram conhecidos.

O que há de positivo e negativo na candidatura deles?

Em geral, quando acontece de candidatos vinculados profissionalmente aos meios de comunicação conseguirem êxito na carreira política, apoiados na exposição de sua figura pessoal, e não em vínculos de representação de segmentos sociais organizados, há evidências de fragilidade partidária e a atividade representativa, ela mesma, reduz-se a conteúdos personalistas. Mas essa não é uma regra, pois o fenômeno repete-se em partidos de diferentes características e compromissos ideológicos.


Rachel Azeredo foi a deputada estadual mais votada em Goiás, atualmente está mal pontuada nas pesquisas de intenção de voto para a Prefeitura de Goiânia. Considera estratégico essa candidatura ao executivo municipal para a Rachel se reeleger deputada nas próximas eleições?

É sempre bom lembrar que há diferenças substanciais entre disputa proporcional e majoritária. Na primeira, a fragmentação e a diversidade intrínsecas favorecem mais os candidatos com prestígio pessoal, assentado nos meios de comunicação, do que a segunda.

Há características gerais comuns a esses candidatos?
Além da origem profissional e da vantagem prévia na competição, difícil pensar em outra base de classificação para agrupá-los. Só se for o fato de intimidade com o meio (para propaganda), que é o que já faziam antes de candidatarem-se.

Candidatos como Ratinho Jr. e Wellington Camargo foram eleitos sem antes serem bem conhecidos, mas a imagem deles era associada a ícones do mundo televisivo e musical. Dona Tereza, esposa do Barbosinha, utiliza-se da imagem do marido no material de campanha. Há eleitor que vota por associar o candidato à outra pessoa?

Sim, em geral os eleitores são mobilizados pela ação dos cabos eleitorais. É compreensível e legítimo que os candidatos procurem se valer dos seus apoiadores da melhor maneira possível, qualquer que seja o candidato.