De Bagdá a Los Angeles: Entrevista com Sergio Dávila, da Folha
De Bagdá a Los Angeles: Entrevista com Sergio Dávila, da Folha
Uma vez consagrado, foi escolhido um dos sete jornalistas do planeta a ganhar a cobiçada Knight Fellowship, uma bolsa de estudos na Universidade Stanford. Desde julho, Sérgio está em Los Angeles, de onde envia uma coluna semanal para a Revista da Folha, além de reportagens especiais para o jornal. Confira a entrevista:
1) Qual é o seu trabalho exatamente aí nos EUA? Você faz algum curso? Trabalha em algum veículo estrangeiro?
Sou correspondente da Folha, colunista da Revista da Folha e correspondente do Uol News aqui na Califórnia. Tudo isso para unir o útil ao agradável, pois fui um dos sete jornalistas do mundo inteiro a ganhar a Knight Fellowship, uma bolsa dada pela Knight Foundation para que jornalistas passem um ano na Universidade Stanford estudando o que quiserem por um ano. Volto a trabalhar como repórter especial na Folha, em São Paulo, a partir de primeiro de julho deste ano. Além disso, sou o curador da coleção Jornalismo de Guerra, da editora Objetiva, com o jornalista Leão Serva, diretor do iG, que já cobriu diversos conflitos. Acabamos de lançar o primeiro livro da série, "A Guerra de Bagdá", do Jon Lee Anderson, da "New Yorker", que estava lá no hotel Palestine no mesmo período em que eu estava. Depois dele virão livros do escritor e cineasta Michael Herr, da escritora britânica Martha Gellhorn (que cobriu a guerra civil espanhola), de Joel Silveira (Segunda Guerra Mundial) e a reedição do clássico "O Gosto da Guerra", estupidamente esgotado há décadas, de José Hamilton Ribeiro, sobre a Guerra do Vietnã.
2) Quando não está trabalhando, qual é a sua rotina?
Estudando, indo a palestras, seminários, participando de eXperimentos acadêmicos... Quando sobra tempo, indo ao cinema, principalmente em San Francisco e Los Angeles.
3) Você que sugere as pautas para Folha de São Paulo? A viagem pela costa americana foi idéia sua ou sugestão da folha?
Para repetir o chavão, é uma via de duas mãos; tanto eu sugiro quando os editores e secretários de redação sugerem. A da viagem, não pela costa, mas de uma costa a outra dos EUA, que fiz em uma semana, dirigindo e percorrendo quase 5 mil quilômetros e oito Estados, foi sugerida pelo Editor de Domingo da Folha, o Alcino Leite Neto.
4) Você acha o custo de vida nos EUA caro? Você pretende voltar para o Brasil? Quando?
Para você ter uma idéia, pago US$ 1.700 por um quarto-e-sala que em São Paulo não sairia por mais de US$ 200 por mês... Volto a SP em julho deste ano.
5) Você mora sozinho?
Moro com minha mulher, a também jornalista Teté Ribeiro, autora do livro "A Nova York de Carrie, Samantha, Charlotte e Miranda", na minha suspeitíssima opinião o melhor guia de Nova York que já li, baseado na série "Sex and The City" e um dos sucessos de venda da Siciliano.
6) Pretende voltar a fazer coberturas de guerras e catástrofes? Você sente falta de grandes coberturas?
Pretendo, se o jornal quiser. Sinto falta, sim, gostaria de ter sido enviado à Ásia para cobrir as conseqüëncias do tsunami, mas não poderia, por conta das aulas e da bolsa de Stanford... Mas creio que outras grandes coberturas virão e sempre me oferecerei para fazê-las...
7) Quando lembra da guerra do Iraque que imagem vem a sua cabeça?
Iraquianos de idade, em suas melhores roupas de domingo, fazendo fila em frente ao hotel Palestine, já dominado pelos marines norte-americanos, pedindo emprego a estes soldados e sendo maltratados por eles. Essa imagem junta a dignidade do povo iraquiano, que nada tinha a ver com as sandices de Saddam Hussein, com a arrogância da invasão anglo-americana.
8) Em algum momento você pensou que iria morrer? Ou viu a morte muito de perto?
Em vários momentos, na verdade todos os dias. Mas em duas situações eu e meu amigo e colega, o fotógrafo Juca Varella, olhamos um para a cara do outro e falamos: "Foi um prazer ter conhecido você". A primeira foi na nossa fuga de Bagdá, na terceira semana da guerra, quando acabou nosso dinheiro. A segunda foi na nossa volta a Bagdá, menos de uma semana depois, quando da queda de Saddam Hussein, quando tudo era caos, linchamento, saques, insegurança... Por sorte, fomos os únicos jornalistas brasileiros a cobrir a guerra em Bagdá e fomos de novo os primeiros a chegar à cidade pós-queda de Saddam.
9) Como foi decidido sua ida para o Iraque? A decisão de ficar em Bagdá foi sua?
Fui convidado pela direção de redação da Folha. "Convidado" é a palavra certa, pois esta não é uma pauta que você manda seu repórter e ele tem de ir, quer queira, quer não. Pedi meia hora para decidir, resolvi em quinze minutos, graças à força de minha mulher, que me incentivou, mesmo sendo filha do José Hamilton Ribeiro, o jornalista da "Realidade" que se acidentou durante a Guerra do Vietnã. Mas essa história está contada em detalhes no livro que fiz com Juca Varella, "Diário de Bagdá - A Guerra do Iraque segundo os Bombardeados" (DBA, 2003).
10) Seu sogro José Hamilton Ribeiro entrou para história ao fazer a cobertura da guerra do Vietnã, ele te influenciou na cobertura do Iraque?
Sim, me deu vários conselhos, o principal deles parecido com (mas mais sofisticado que) o que o Assis Chateaubriand, o Chatô, deu ao Joel Silveira, ainda vivo, ambos personagens míticos do nosso jornalismo; "Não morra. Repórter tem de contar a história, não ser a história". Segui à risca!
11) Até que ponto uma cobertura de guerra é segura?
É a pauta mais insegura que um jornalista pode cobrir. Não há garantias de vida. Você corre risco 24 horas por dia. Tem de fazer um seguro de vida e assinar seu testamento antes de pegar o avião. Durante os dias em que eu e Juca ficamos em Bagdá, 16 jornalistas morreram, dois deles nossos colegas.
12) Qual a carga de perigo comparado ao Vietnã?
Acho que maior, pois no Vietnã todos os jornalistas eram "embutidos", no sentido de que sempre saíam com soldados norte-americanos. Proporcionalmente, morreu menos jornalista durante os 11 anos da Guerra do Vitnão do que durante os quase dois meses da do Iraque.





