Dar palpite na vida dos outros pode ser bom negócio
Dar palpite na vida dos outros pode ser bom negócio
Não sei vocês, mas eu adoro receber conselhos. Especialmente quando eles vêm da Abigail e são dados gratuitamente através da imprensa. Peguei essa mania há mais de 20 anos quando mudamos para Ottawa, no Canadá, e descobri no jornal local a coluna dessa lenda do Jornalismo norte-americano. Abigail Von Buren, figuraça do tipo que eu gosto. Devo a ela não só muitas risadas, mas um entendimento mais amplo e profundo da alma e da cultura dos canadenses e americanos que teria me escapado caso ela não existisse. Ou se eu só lesse as manchetes e páginas de assuntos sérios, chatos e repetitivos como economia e política.
As páginas sérias dos jornais, no meu modesto entender, mostram a sala de visitas de um país, no máximo a cozinha. Dá pra ter uma ideia do nível da bagunça, dá pra vislumbrar quanto lixo se acumula nos cantos e embaixo dos tapetes, mas só elas nunca foram suficientes para satisfazer meu curioso apetite voyeur. Ler a coluna de conselhos de Abigail é espiar os norte-americanos pelo buraco da fechadura do quarto, do banheiro, e conhecer a nudez de suas crenças, ingenuidades, medos, preconceitos, ignorâncias e valores mais profundos.
Assim como as crônicas no Brasil, as colunas de conselhos e consultorias são um gênero tradicional na imprensa do lado de cá, verdadeiro gancho pra fisgar leitores. Eu mesmo sou uma que começo ler jornais por essas colunas, para rir com as perguntas e respostas e ganhar fôlego para as páginas mais sérias. Grandes e pequenos jornais têm colunistas que respondem dúvidas sobre dilemas de etiqueta, moda, criação de filhos, jardinagem, animais, problemas sentimentais, financeiros e o que mais você puder imaginar. Apesar das inúmeras mudanças sociais, políticas e tecnológicas das últimas décadas, o fascínio do público por esse gênero persiste. E ninguém capturou e manteve cativos tantos leitores, por tantos anos, quanto Abigail Von Buren, a "Querida Abby".
Abigail Von Buren é o pseudônimo de Pauline Esther Friedman, que estreou no Jornalismo em 1956. A carreira começou no dia em que ela, num impulso, procurou o editor do San Francisco Chronicle e declarou ser capaz de escrever respostas melhores que as da colunista que até então dava os conselhos e respondia às dúvidas dos leitores. O editor a entrevistou e pediu que ela escrevesse algumas respostas para cartas que o jornal tinha recebido. Ele gostou do estilo direto e assertivo dela e a contratou. O sucesso foi imediato e em apenas dois meses sua espirituosa coluna de conselhos "Dear Abby" (Querida Abby) estava sindicalizada e sendo publicada em aproximadamente 1,2 mil jornais americanos e canadenses, atingindo diariamente mais de 20 milhões de leitores nos dois países.
Durante 31 anos Abby distribuiu conselhos e respostas para dúvidas e problemas espirituais, sentimentais, familiares, dos mais trágicos e tristes, aos mais bizarros e cômicos. E divertiu, emocionou e chocou seus conterrâneos com suas respostas curtas, sensatas, seu humor ácido e estilo direto. O sucesso foi tanto que ela ficou rica e famosa a ponto de receber uma estrela na Calçada da Fama de Hollywood, ao lado de astros do cinema. E inúmeras menções em filmes, seriados de TV, até músicas. Virou um ícone da cultura americana.
Escreveu quatro livros, todos best sellers, dois deles sobre suas receitas prediletas e outros dois com as perguntas e dúvidas mais peculiares dos leitores e as correspondentes respostas cheias de humor e de uma sabedoria áspera, sem panos quentes. Teve também um programa de rádio, nos mesmos moldes da coluna nos jornais. E quando o mal de Alzheimer chegou, em 1988, sua filha, Jeanne Phillips, assumiu o posto e o pseudônimo e continuou o sucesso da mãe, com as bençãos do público sempre fiel.
Desde a estréia, em 1956, até hoje, o modelo é o mesmo: todas as cartas começam com "Querida Abby". Para vocês terem uma ideia, aí vai uma tradução de algumas das consultas feitas à colunista, retiradas do livro "The best of Dear Abby", publicado em 1981.
"Querida Abby. Meu namorado faz 20 anos semana que vem. Eu gostaria de dar a ele algo que ele quisesse muito. O que você acha que ele gostaria?" - Indecisa
E a resposta da Abby : "Querida Indecisa. Não importa o que ele gostaria. Dê a ele uma gravata".
"Querida Abby: meu marido tem 73 anos e continua perseguindo outras mulheres. Alguma sugestão?"- Annie.
E o tapa com luva de pelica, bem no estilo sarcástico dela: "Querida Annie, não se preocupe. Meu cachorro tem perseguido carros há anos. Mesmo que um dia ele consiga pegar um, ele não saberia o que fazer com ele".
"Querida Abby: meu filho casou e cinco meses depois nasceu minha neta, com 4 kg. Ele e a esposa falam que o bebê foi prematuro. É possível um bebê prematuro ter esse peso?"
Curiosa.
"Querida Curiosa. O bebê nasceu no tempo certo, o casamento é que foi tarde".
E por aí vai: dúvidas e consultas sobre tudo e qualquer coisa.
Pauline vai completar 90 anos essa semana, dia 4 de julho, e nem faz ideia do sucesso que sua Abigail Von Buren continua tendo, agora na Internet. "Dear Abby" é a coluna mais lida e publicada simultaneamente no mundo. O site oficial cita 1,4 mil jornais e leitores diários na ordem de 110 milhões. Jeanne Phillips, filha de Pauline, recebe mais de 10 mil cartas e e-mails por semana, sendo que 80% dessa correspondência é enviada por leitores entre 18 e 49 anos. Já os 20% restantes, por menores de idade.
Eu acho "Dear Abby" um assunto fascinante, ainda mais porque é a única família que eu conheço que fez uma carreira muito bem sucedida no negócio de dar palpites nos dilemas da vida alheia. Pauline era gêmea de uma outra mulher, já falecida, que também foi colunista de sucesso e que escrevia sob o pseudônimo de Ann Landers. Mas esse assunto fica para uma próxima coluna. Os interessados em saber mais sobre "Dear Abby" e se divertir com as tiradas dela, .






