Dar conselhos é negócio de família nos EUA

Dar conselhos é negócio de família nos EUA

Atualizado em 15/07/2009 às 10:07, por Silvia Dutra.

Vocês lembram que há duas semanas eu falei sobre Abigail Von Buren e sua bem sucedida carreira de colunista e conselheira em mais de mil jornais americanos durante 53 anos? Pois então, a irmã da Abigail, Esther Pauline Friedman também seguiu a mesma carreira, embora com menos sucesso.

As duas eram gêmeas, filhas de judeus russos que emigraram para os Estados Unidos em 1908 e se instalaram em Sioux City, em Iowa. Lá, tiveram quatro filhas: Helen e Dorothy e as gêmeas Pauline Esther e Esther Pauline, que nasceram em 1918, quando a família já possuía uma modesta mercearia e um pequeno teatro onde apresentavam filmes e artistas de vaudeville.

Como a maioria das gêmeas, Pauline e Esther experimentaram muitos eventos importantes simultaneamente. Usavam roupas iguais, dividiam a mesma cama, participavam em atividades similares e compartilhavam os mesmos interesses. Inclusive casaram-se no mesmo dia, dois de julho de 1938, com vestidos idênticos, numa sinagoga em Sioux City. Pauline com Mort Phillips e Esther com Jules Lederer. Os maridos se tornaram grandes amigos, mas a amizade entre as mulheres azedou ao longo dos anos e nem a proximidade da morte conseguiu trazer paz e conforto entre as duas.

Como Jules Lederer era um vendedor, ele e Esther viajaram bastante e moraram durante alguns anos em New Orleans e depois numa cidade de Wisconsin chamada Eau Claire.
Nessa última, Esther se tornou ativa em política, participando como conselheira do partido democrático local. Por causa da participação política, fez contatos e conhecimentos com pessoas influentes que depois viriam a ser úteis na sua futura carreira de colunista. Quando o casal voltou a viver em Chicago, Esther procurou um amigo da família, Wilbur Munnecke, que era gerente de uma companhia de comunicação, e quis saber se poderia prestar alguma assistência à colunista do Sun Times, Ann Landers.

Felizmente para ela, o jornal estava mesmo procurando alguém para substituitr Ann Landers, que era pseudônimo de uma enfermeira de Chicago, Ruth Crowley, e que durante 15 anos escreveu uma coluna sobre puericultura e conselhos sobre como criar filhos. Já falei para vocês que escrever colunas sobre os mais variados assuntos é uma tradição na imprensa americana. Tem sobre tudo: como colecionar moedas, selos, como plantar orquídeas, azaléias, como dar festas, organizar a casa, criar filhos, perder peso, conselhos e palpites sobre tudo e qualquer coisa.

Quando Ruth Crowley morreu, aos 48 anos, em julho de 1955, o Sun Sentinel promoveu um concurso para escolher a nova colunista e Esther Pauline Freidman Lederer se tornou a nova Ann Landers, iniciando sua carreira em outubro de 1955 e seguindo até sua morte em 2002.

Dois meses depois de sua estréia, sua irmã gêmea, Pauline Esther, do outro lado do País, em San Francisco, iniciou também uma carreira como colunista e conselheira, com o pseudônimo de Abigail Von Buren e alcançou muito mais fama, dinheiro e prestígio, provavelmente porque era mais espirituosa e engraçada. Ann Landers tinha um estilo de escrever direto, meio áspero e frequentemente crítico. Muitas vezes, expressou opiniões nada populares, preconceituosas e contraditórias.

Por exemplo, defendia a legalização da prostituição, era favorável ao aborto, mas atacava incansávelmente Madalyn O'Hair, uma ateia americana que inflamou o país com uma campanha para banir das escolas a obrigatoriedade das crianças rezarem antes do começo das aulas. Essa Madalyn era uma mulher profundamente irada e mal humorada, com uma língua afiada, que defendia com unhas e dentes suas idéias e, por causa disso, angariou muitos inimigos ao longo da vida até acabar assassinada com o neto e a esposa dele num episódio até hoje mal explicado.

Ann Landers escreveu, em 1973, apoiando a legalização dos atos homossexuais e dizendo que era preciso ter compreensão e compaixão. Entretanto, ela descrevia a homossexualidade como uma "doença "uma disfunção" e algo não "natural".

Sua carreira foi pontuada de episódios embaraçosos e alguns até causaram prejuízos. Em 1955, comentando sobre o Papa João Paulo II, ela o chamou de "polaco" e disse que todos os homens nascidos na Polônia eram contra as mulheres. A comunidade Polonesa nos Estados Unidos respondeu com ira e o jornal Milwaukee Sentinel cancelou a coluna dela após o incidente. No mesmo artigo, sobrou até para o pai do presidente John F. Kennedy, que foi chamado de "anti-semita" e portador de outras características indesejáveis e desabonadoras.

Dois meses após começar sua carreira como a colunista Ann Landers, Esther ficou enciumada com o sucesso que sua irmã gêmea, Abigaill von Buren estava conseguindo também como colunista na Costa Oeste e, durante cinco anos, as duas cortaram relações e deixaram de se comunicar. Depois de uns anos voltaram a se comunicar, mas a amizade e companheirismo da infância nunca mais foram recuperados.

Ao longo dos anos Ann Landers falou sobre assuntos frívolos do tipo "como pendurar apropriadamente o rolo de papel higiênico no banheiro" até assuntos sérios e importantes como Aids e incestos. Seus conselhos frequentes sobre procurar ajuda psicológica ajudaram a tirar o estigma da psicanálise, até então considerada na sociedade americana como um assunto tabu. Foi uma defensora ferrenha do direito ao aborto, de um controle mais rígido na venda de armas e contra o uso de animais em pesquisas médicas. Ganhou com isso a ira da Associação Nacional de Rifles e Armas de Fogo, dos grupos contrários do aborto e de associações de pesquisas médicas a favor do uso de animais. Declarou que esses três grupos a enojavam e que ela tinha muito orgulho de usar sua voz e espaço na imprensa para irritá-los.

Em 1975, seu casamento de 36 anos com Jules Lederer terminou em divórcio e ela contou a história para seus 90 milhões de leitores nos 1,2 mil jornais que publicavam suas colunas. Recebeu, na ocasião, 35 mil cartas de apoio, que foram as únicas que fez questão de guardar. Todas as demais milhares de cartas recebidas durante a carreira foram destruídas porque, como declarou sua filha e assistente, Margo Howard, num artigo publicado em 2003, "ninguém precisa saber que "Myrtle, em Oklahoma City, trocou todas as torneiras da casa dela de graça porque resolveu dormir com o encanador".

Era uma mulher de opiniões fortes, sem a menor intenção de agradar ou ser amada pelo público. Falava o que pensava e, muitas vezes, pagou caro por isso com críticas e cancelamento de seus contratos com alguns jornais. Escreveu seis livros, mas declarava que preferia ter as colunas delas pregadas nos refrigeradores das casas dos leitores do que receber qualquer prêmio literário importante. Ann Landers morreu de mieloma múltiplo, em sua casa, em Chicago, em junho de 2002. Foi a primeira jornalista a ganhar o Prêmio Albert Lasker por Serviços Públicos em função de ter angariado recursos para a pesquisas do câncer e por ter educado seus leitores a procurar ajuda médica e tratamento para uma variedade de doenças e condições físicas e mentais. Também recebeu a honra de fazer parte de comitês em instituições de prestígio como a Escola de Medicina de Harvard e o Instituto de Reabilitação de Chicago.

Como sua irmã, Abigail Von Buren, chocava e divertia seus leitores. Escrevia coisas desse tipo:

"Uma em cada quatro pessoas nesse país é mentalmente desequilibrada. Pense nos seus três amigos mais próximos. Se eles parecem bem, então você é o desequilibrado".

"Não aceite a admiração do seu cachorro como evidência conclusiva de que você é maravilhoso".

"Se você casa com um homem que traiu sua ex-esposa, você está casada com um homem que vai trair a esposa atual".

Após sua morte, em 2002, a coluna deixou de ser publicada. Como eu já havia dito na coluna sobre a Dear Abby, as gêmeas Friedman ganharam a vida escrevendo palpites e conselhos sobre todos os assuntos, dos mais banais ao mais relevantes. Esther Pauline morreu em 2002 e sua única filha, Margo Howard, seguiu os passos da mãe, também tem uma coluna de conselhos, agora na Internet.

Pauline Esther, a Abigail Von Buren, ainda é viva, tem 91 anos e o cérebro devastado pelo Alzheimer. Sua filha, Jeanne Phillips, assumiu o pseudônimo da mãe, continua publicando seus conselhos e palpites em 1,4 mil jornais americanos e canadenses e também na Internet. A rivalidade entre as primas, Jeanne e Margo, continua e as duas não mantém nenhum tipo de relacionamento. Os interessados em conhecer o trabalho das duas podem checar esses sites : e