Damares Alves posta no Twitter que vai processar jornalista e gera onda de comentários racistas e intolerantes

Ministra contestou comentário do editor em matéria da Folha que revelou plano para tentar impedir aborto de menina de 10 anos vítima de estu

Atualizado em 23/09/2020 às 10:09, por Redação Portal Imprensa.

Uma postagem de Damares Alves, ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, em seu perfil pessoal no Twitter, gerou uma onda de comentários racistas e intolerantes contra o editor Flávio Costa, do UOL.

Crédito:Alan Santos / PR


Ela afirmou que irá processar o jornalista, após ele comentar uma matéria da Folha sobre o caso da menina de 10 anos que engravidou de um estupro.


A matéria revelou, no último dia 21, um plano que teria tido a participação da ministra nos bastidores, para impedir que a criança passasse pelo procedimento de aborto legal. O objetivo era transferir a criança do Espírito Santo, onde ela morava, para um hospital em São Paulo, para que a menina tivesse o bebê, mesmo havendo risco de morte.


O jornalista comentou no Twitter em resposta à Folha: “Basicamente o que Damares tramou foi o sequestro de uma criança de dez anos. Aliás sequestrar crianças é uma expertise”.


Damares retrucou: “Terá que provar isso na Justiça. Nos vemos nos tribunais”.



Em seguida, internautas iniciaram uma série de comentários ameaçadores e ofensivos ao jornalista, incluindo alguns de cunho racista, como "Vai pra Magalu ser escravo" [em referência ao programa de trainees aberto pela empresa para pessoas negras]; "Aí preto!!! Vai tomar um processo pra ficar esperto, se for possível ficar esperto, né?"; e "Nem nós de macaco assanhado", em resposta a um tweet de Costa em que ele dizia não ter medo "de turba, de galera, nem de gado assanhado".


A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) considerou a publicação da ministra como uma ameaça. À entidade, Flávio Costa disse que ela está no seu direito de processar, caso entenda que ele tenha cometido crime de calúnia, mas que ele também tem o direito de se defender.


Costa foi orientado por advogados a parar de responder os comentários, mas pediu que os internautas denunciassem ao Twitter os comentários racistas referentes ao caso. O jornalista está reunindo provas dos ataques para registrar queixa na Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância.


Em nota enviada por email à Abraji, Damares disse que "os jornalistas citados [Flávio Costa e Mariliz Pereira Jorge, que também comentou a mesma reportagem] ultrapassaram o limite da liberdade de expressão e fizeram acusações caluniosas, o que, de acordo com a legislação brasileira, lhe dá o direito de reparação por conta das ofensas proferidas".


Ela afirmou ainda que o ministério estuda quais medidas poderão ser tomadas contra a Folha para "restabelecer a verdade dos fatos".


Após a reportagem, o Ministério Público Federal pediu que o Tribunal de Contas da União investigue se Damares Alves violou o princípio constitucional da laicidade do Estado. Para o subprocurador geral Lucas Rocha Frutado, a ministra deixou de cumprir a responsabilidade de proteger a criança.