Damares Alves posta no Twitter que vai processar jornalista e gera onda de comentários racistas e intolerantes
Ministra contestou comentário do editor em matéria da Folha que revelou plano para tentar impedir aborto de menina de 10 anos vítima de estu
Uma postagem de Damares Alves, ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, em seu perfil pessoal no Twitter, gerou uma onda de comentários racistas e intolerantes contra o editor Flávio Costa, do UOL.
Crédito:Alan Santos / PR
Ela afirmou que irá processar o jornalista, após ele comentar uma matéria da Folha sobre o caso da menina de 10 anos que engravidou de um estupro.
A matéria revelou, no último dia 21, um plano que teria tido a participação da ministra nos bastidores, para impedir que a criança passasse pelo procedimento de aborto legal. O objetivo era transferir a criança do Espírito Santo, onde ela morava, para um hospital em São Paulo, para que a menina tivesse o bebê, mesmo havendo risco de morte.
O jornalista comentou no Twitter em resposta à Folha: “Basicamente o que Damares tramou foi o sequestro de uma criança de dez anos. Aliás sequestrar crianças é uma expertise”.
Damares retrucou: “Terá que provar isso na Justiça. Nos vemos nos tribunais”.
Em seguida, internautas iniciaram uma série de comentários ameaçadores e ofensivos ao jornalista, incluindo alguns de cunho racista, como "Vai pra Magalu ser escravo" [em referência ao programa de trainees aberto pela empresa para pessoas negras]; "Aí preto!!! Vai tomar um processo pra ficar esperto, se for possível ficar esperto, né?"; e "Nem nós de macaco assanhado", em resposta a um tweet de Costa em que ele dizia não ter medo "de turba, de galera, nem de gado assanhado".
A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) considerou a publicação da ministra como uma ameaça. À entidade, Flávio Costa disse que ela está no seu direito de processar, caso entenda que ele tenha cometido crime de calúnia, mas que ele também tem o direito de se defender.
Costa foi orientado por advogados a parar de responder os comentários, mas pediu que os internautas denunciassem ao Twitter os comentários racistas referentes ao caso. O jornalista está reunindo provas dos ataques para registrar queixa na Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância.
Em nota enviada por email à Abraji, Damares disse que "os jornalistas citados [Flávio Costa e Mariliz Pereira Jorge, que também comentou a mesma reportagem] ultrapassaram o limite da liberdade de expressão e fizeram acusações caluniosas, o que, de acordo com a legislação brasileira, lhe dá o direito de reparação por conta das ofensas proferidas".
Ela afirmou ainda que o ministério estuda quais medidas poderão ser tomadas contra a Folha para "restabelecer a verdade dos fatos".
Após a reportagem, o Ministério Público Federal pediu que o Tribunal de Contas da União investigue se Damares Alves violou o princípio constitucional da laicidade do Estado. Para o subprocurador geral Lucas Rocha Frutado, a ministra deixou de cumprir a responsabilidade de proteger a criança.





