Dalai Lama no Brasil: IMPRENSA conta bastidores de matérias com líderes espirituais
No mês em que Dalai Lama visita o Brasil, IMPRENSA buscou histórias de repórteres que já entrevistaram grandes líderes espirituais, incluind
Atualizado em 13/09/2011 às 19:09, por
Guilheme Sardas*.
Encontros Solenes
o o próprio guia budista tibetano
Em 1944, o repórter David Nasser e o fotógrafo Jean Manzon, da revista O Cruzeiro, bolaram um plano para desmascarar Chico Xavier, o médium mineiro da pequena cidade de Pedro Leopoldo que começava a assombrar o Brasil com seus poderes inexplicáveis. Fingindo-se jornalistas estrangeiros, conseguiram a entrevista. Se Chico fosse um médium tão poderoso como diziam - pensou a dupla -, os espíritos superiores o avisariam da farsa e o protegeriam do engodo. Durante toda a entrevista, Chico reagiu normalmente, sem esboçar desconforto. Dias depois, a reportagem intitulada "O detetive do além" chegava às bancas, repleta de ironias: insinuava que o médium era leitor voraz e dotado de habilidades literárias, o que permitia que imitasse a escrita dos poetas e escritores e criasse as mensagens dos espíritos que dizia psicografar. A dupla poderia ter comemorado o sucesso do plano, convictos de que tinham conseguido se passar por jornalistas americanos sem serem descobertos. Mas não foi o que aconteceu: a matéria omitia um detalhe, que o próprio Nasser confidenciaria muitos anos depois.Enquanto escrevia a matéria na redação de O Cruzeiro, Manzon telefonou-lhe: "David, você trouxe aquele livro que o homem nos ofereceu?", perguntou. "Claro que sim", respondeu Nasser. "Pois bem, abra-o na primeira página e leia a dedicatória". O repórter leu assombrado: "Ao irmão David Nasser, oferece Emmanuel". Emmanuel era o guia espiritual de Chico, espírito que, segundo o médium, dirigiu suas atividades mediúnicas de 1931 até sua morte, em 2002.
Chico Xavier ficara tão magoado com o episódio que dificultaria o acesso à imprensa brasileira pelos próximos 24 anos. Em 1968, o Brasil abrigava uma criatura intrigante, mundialmente conhecida, envolta de inúmeras histórias extraordinárias. E a imprensa local pagava pela audácia da dupla Nasser e Manzon. No entanto, um repórter estava determinado a romper o silêncio do maior médium brasileiro.
Crédito:Instituto Chico Xavier Após sete meses de exaustivas tentativas de contato, Saulo Gomes, então repórter da TV Tupi, de São Paulo, recebera um recado de uma pessoa próxima de Chico: o médium queria falar com ele. "Fui para Uberaba e, para não correr o risco de perder a matéria, já levei equipe e equipamento. Ficou tudo guardado no hotel, esperando a hora de conversar com ele", explica. Ainda não havia concessão formal de entrevista. Chico "queria falar com ele", apenas isso. Depois de longa conversa entre os dois, que adentrou a madrugada, Chico, enfim, disse: "Pode buscar seus colegas, que eu vou fazer a reportagem que você quer". E finalizou, enigmático: "Você é quem eu pensava". "Você é quem eu pensava...", repete Saulo, em memória. "Uma frase intrigante, e parou nisso. Nunca consegui perguntar por que ele tinha me dito aquilo".
Depois de quase duas décadas e meia de distanciamento da imprensa brasileira, havia muito a se perguntar. O que Chico pensava sobre a juventude daquele conturbado fim dos anos 1960? Como o médium via a Igreja Católica? Como Chico podia falar da cidade espiritual retratada em "Nosso Lar", sua obra de maior alcance, sem conhecê-la? Ou conhecia? "Certa noite, o próprio Emmanuel e André Luiz me levaram a determinado bairro da cidade de Nosso Lar. Posso dizer que eu fui, em desdobramento espiritual, na chamada zona hospitalar da cidade. Foi para mim uma excursão espiritual inesquecível", respondeu o médium.
Pouco a pouco, todos os tipos de dúvidas foram expressas por um repórter contido e experiente. E sanadas com loquacidade e clareza espantosas pelo "Mestre Chico Xavier", como Saulo insistia em chamá-lo durante toda a entrevista, mesmo que o médium, repetidamente, rejeitasse com ar cordial e um sorriso constrangido. "Estou muito longe de ter mestria em qualquer ramo da atividade humana. Eu sou apenas um amigo, um servidor de todos", disse Chico em certo trecho da entrevista. Após pouco mais de uma semana, a entrevista foi ao ar na TV Tupi, incluindo outro registro histórico.Chico em sua primeira psicografia televisionada com áudio e vídeo. Como de praxe, a cabeça baixa, a mão esquerda sobre a fronte cobrindo os olhos, enquanto a mão direita escreve garranchos nas folhas brancas com enorme velocidade. Ao fim, recolhe o calhamaço e inicia a leitura. Era uma mensagem de Emmanuel. Ao voltar a Uberaba alguns dias depois, o repórter ouviu de Chico uma revelação curiosa: "Ele disse da surpresa que teve de se ver psicografando, coisa que ele não tinha a menor ideia de como acontecia", relembra Saulo.
O repórter estava, de fato, agradecido. Mal podia imaginar que, dali em diante, acompanharia incontáveis entrevistas e visitas a programas com o médium, como "homem de confiança". "Não tenho nem ideia de quantas entrevistas ajudei a fazer. Foram muitas, convivi com ele por mais de 30 anos", diz. A quem fica a dúvida se o repórter era ou se tornara espírita, ele próprio esclarece. "Quando vou fazer palestras em centros espíritas ou federações, a primeira pergunta que fazem é 'você é espírita ou virou espírita'? Eu respondo: eu sou repórter".
UM HOMEM PERIGOSO
O carro patinou na placa de gelo e bateu contra a grade. O acidente não era o melhor prenúncio para o sucesso da empreitada. Uma mulher e um homem saltaram do carro danificado, caminhando cerca de 2 quilômetros, rumo a Neauphle le Château, povoado a 70 quilômetros de Paris. A mulher era a jornalista espanhola Rosa Montero, do jornal El País; o homem, o fotógrafo que a acompanharia naquela que seria, para ela, "a entrevista mais absurda e grotesca que fez na vida".
O local estava longe da aparência de uma pacata vila francesa. Seus chalés abrigavam uma gente nova, forasteira: militantes, políticos, religiosos, jovens intelectuais. Cinco vezes ao dia, todos se voltavam para o ancião baixinho, de longas barbas brancas e vestimentas pretas, que saía de seu retiro para dirigir as rezas sobre o chão gelado. Era um líder espiritual e, mais que isso, o líder de uma revolução que, dali a 20 dias, adentraria o Irã para decretar o fim da ditadura do xá Reza Pahlavi. Era Ruhollah Khomeini, futuro aiatolá Khomeini, o entrevistado de Rosa.
Alguns preparativos a aguardavam. Todas as mulheres da comunidade eram obrigadas a ocultar Crédito:Divulgação seus corpos com panos e túnicas negras; Rosa não teria privilégios. "Tive que cobrir minha cabeça com um lenço que não deixava à vista nem sequer minhas sobrancelhas", relembra. Durante toda a entrevista, era preciso ainda manter a cabeça mais baixa que a dele. Diante daquele interlocutor encurvado e de baixa estatura, não havia outra opção: "Fiz a entrevista praticamente deitada
no chão". Por 25 minutos, Rosa formulava as perguntas previamente acordadas em francês ao tradutor(um dos ajudantes de Khomeini), que as repetia em persa. Então, o líder respondia em persa, sem que o intérprete traduzisse naquele momento - isso só seria feito após a entrevista - a resposta a Rosa, de modo que ela formulava a próxima pergunta sem saber a resposta da anterior. Por mais que a jornalista temesse que o intérprete suavizasse ou alterasse suas perguntas, não cogitou questionar. A figura do líder era pouco convidativa: "Ele me pareceu um homem muito perigoso. Era um velho carrancudo que parecia estar sempre irritado".
Além de encontrar com o grande líder poucos dias antes de seu retorno triunfante ao Irã, a entrevista feita por Rosa revelaria um traço importante da revolução iraniana. Se xá era tirano, e Khomeini lutava contra xá, Khomeini era um libertador, um democrata. Uma multidão apoiou Khomeini fiando-se nesse silogismo equivocado. A história constataria o equívoco. Após o golpe, Khomeini perseguiu impiedosamente seus adversários políticos e fundou uma república islâmica como líder político e religioso supremo do Irã. "Na entrevista, ele mentiu para mim, dizia que era uma revolução tolerante e democrática. Em dois meses, estava pendurando os políticos democratas nos estádios", finaliza Rosa.
NOBEL DESCONTRAÍDO
Em um dia comum de trabalho na revista Época, em 2006, o então repórter Ivan Padilla recebeu um e-mail especial. A mensagem, do Office Of Tibet, agência oficial do governo tibetano em exílio, autorizava-o a fazer uma entrevista exclusiva com Tenzin Gyatso, o 14º Dalai Lama. Padilla teria, no entanto, que viajar a Dharamsala, na Índia. "Era uma viagem cara, deram uma estudada, mas, por fim, resolveram apostar", lembra o jornalista.
Crédito:Luca Galuzzi
De São Paulo a Londres, de Londres a Nova Délhi, mais doze horas de trem e três de ônibus, até que chegou, enfim, à residência do eminente anfitrião: uma construção ampla, com inúmeros casarões, além de parte da administração do governo tibetano. Sentado na recepção, Padilla avistou Dalai Lama se aproximar, estender-lhe a mão em cumprimento e se dirigir em silêncio à sala de audiência.
Definitivamente, a figura à sua frente não era um homem comum. Era o líder espiritual e político de um povo, ganhador do Prêmio Nobel da Paz em 1989, pensador respeitado e escutado por chefes de nações de todo o mundo. Havia motivos demais para uma entrevista tensa. Mas não foi. "Eu esperava alguém mais sisudo, mas me surpreendi. Ele, um líder, prestava atenção, ria sempre, batia na perna, abraçava. Foi muito mais caloroso do que eu tinha imaginado", diz Padilla.
Em uma hora e meia de entrevista, em que o repórter fazia as perguntas em inglês, em seguida traduzidas por um intérprete, Dalai Lama respondeu tudo sem restrições. Havia uma única orientação: evitar tocar no líder. Regra ignorada pelo próprio Dalai Lama, que surpreendeu Padilla com vários "tapinhas" nas costas. Padilla surpreendeu- se ainda com a sinceridade do entrevistado. "Você defende a independência do Tibet?" - perguntou. A resposta revelava um líder pragmático. "Ele disse que não acreditava, que muito tempo havia se passado. Em termos práticos, ele achava mais interessante fazer parte da China, do que ser independente", recorda Padilla.
A entrevista pode durar apenas algumas horas, mas os jornalistas que tiveram a oportunidade de testemunhar, presencialmente, os enigmas do maior médium brasileiro, as particularidades de um líder religioso 20 dias antes da revolução, e a informalidade de um Nobel da Paz, reservam espaço especial em seus portfólios para tais memórias. Mesmo os mais incrédulos dos repórteres.
*Com Jéssica Oliveira
**Matéria publicada na edição de setembro (271) da Revista IMPRENSA






