Da generosidade das fontes, por Silvia Bessa

Sempre quis escrever sobre a generosidade das fontes, sobre essa boa vontade que algumas pessoas têm mais do que outras de contar com detalh

Atualizado em 01/04/2014 às 12:04, por Silvia Bessa.

Crédito:Leo Garbin es para nós – jornalistas e, na maioria das vezes, estranhos – suas histórias, emoções e opiniões. Toda vez que encontro um entrevistado assim, mais generoso, tento dar um aperto de mão com vigor, em sinal de agradecimento. Não sei se dá para perceber; mas desejo que sim, que o sujeito entenda que, sem ele, não haveria textos, vídeos, notícia.
Nesse último mês, dei apertos de mão vigorosos dez vezes, ao entrevistar Lutgardes Freire, Luiz Arraes, Victor Soares, Anatólio Julião, Cristina Capistrano, Thales Silveira, Alberto Vilarinho Amaral, Flávio Régis, Mariana Freire e Joana Rolemberg durante a produção do webdocumentário “Filhos do Golpe”, que pretendia ouvir dez filhos atingidos pela ditadura no Brasil. Superando tabus pessoais, dramas, diante das câmeras, eles revelaram conflitos domésticos, dúvidas amorosas, culpas paternas, saudades, detalhes da vida íntima. A proposta era colher testemunhos pessoais, em conversas informais e sem roteiro rígido que guiassem a entrevista. Alguns entrevistados nos deram espontaneamente retorno depois.
No dia em que o especial foi publicado na web, Joana – uma jornalista de 33 anos de Aracaju, moradora de São Paulo – escreveu em seu Facebook para amigos: “A entrevista me despe”. Quando nos recebeu, disse, enfrentou uma “dor de cabeça fenomenal” após falar do passado dos seus pais, João Bosco Rolemberg Côrtes e Ana Maria dos Santos, torturados e presos durante o regime militar. “Me entreguei bastante naquela manhã de quinta-feira quando as três jornalistas pernambucanas preencheram a sala inteira do meu “apê”, de Santa Cecília, de perguntas e sensibilidades”, narrou, referindo-se a mim e às colegas Juliana Colares e Annaclarice Almeida. Joana fez constatações também a respeito dos demais filhos ouvidos: “estamos nus. E bastante emocionados”.
Um entrevistado nos mandou mensagem dizendo que “gostou da forma como falou” conosco. Um terceiro disse que ele é quem tinha de agradecer por nos importarmos com suas lembranças. Lembro de ligar a câmera e ouvir, após a primeira pergunta que fiz, o sociólogo Lutgardes Freire pedir “desculpas”. Estava ali por inteiro falando de seu pai, o educador Paulo Freire, preso e depois exilado no período da Ditadura Militar no Brasil (1964-1985). Lutgardes conversou por quase duas horas sobre si, no improviso. Ao final, não pediu nenhum corte, não fez ponderações sobre quais das suas emoções deveriam ser editadas. Foi, por demais, generoso.
Acho que generosidades assim nos impõem uma responsabilidade maior com o que nos foi ofertado e com o que iremos apresentar ao leitor, telespectador ou internauta.
é repórter especial do Diário de Pernambuco. Escreve sobre questões sociais e direitos humanos no Nordeste. silviabessape@gmail.com.