Da fazenda, uma experiência 2.0
Da fazenda, uma experiência 2.0
Todos ficaram impressionados com o caso do leite que tomou conta das páginas de jornais e do noticiário de rádio, televisão e internet nas últimas semanas. Ninguém supunha que o leite, logo ele, estaria contaminado com soda cáustica, logo ela. O desdobramento da "Operação Ouro Branco" na mídia ofereceu a jornalistas, a comunicadores, a assessores, enfim, aos profissionais da área, diversas lições. Mas nenhuma delas foi, para mim, tão exemplar como a que entrou pela porta do meu apartamento na terça-feira.
Em casa, compramos legumes e verduras orgânicos de uma espécie de cooperativa de produtores independentes, que, organizados, eliminaram os atravessadores da linha de produção, e os entregam diretamente ao consumidor final. O sistema é todo dependente da internet. A lista de produtos da semana, a cesta com os legumes e verduras da estação e os preços chegam três dias antes por e-mail, e por ele retornam, preenchidos pelos consumidores. Na data prevista, uma caixa, que será devolvida na semana seguinte em nome da sustentabilidade, é entregue com o pedido do consumidor. Nada, assim, extraordinário, a não ser pelo tomate, incomparável, e por uma simpática newsletter que acompanha o pedido.
Nessa semana, o artigo da edição era uma agradável surpresa - ao menos para quem gosta de pensar a mídia em nossos dias. Tratava-se de um texto onde se lia um relato de uma das consumidoras da cesta semanal. Resumidamente: a mãe da leitora, que tivera no passado uma vaca para produção de leite, foi obrigada a dela se desfazer e começar a comprar leite em caixa longa-vida. Ficou com uma alergia e, investigada a origem do mal súbito, descobriu-se que o leite que ela comprava no supermercado havia sido batizado com soda cáustica, com o objetivo de prolongar a sua durabilidade. Só que aquele texto, originalmente, havia sido publicado no mesmo boletim em 2003. Ou seja, nós, da redação, na cidade, cheios de tecnologia e fontes, fomos furados por uma newsletter escrita por um homem do campo, mais ou menos solitário no seu ofício. Alguma coisa isso deve significar.
A web 2.0 inaugurou, em nossos dias, uma nova mentalidade sobre a participação coletiva na produção e distribuição de conteúdo. O monopólio da informação ruiu e as mídias tradicionais são constantemente questionadas. O autor do artigo, "jornalista" (uso as aspas apenas por exigência estilística) sem formação e sem respaldo midiático, é um entre tantos cidadãos de quem temos que aprender algumas lições. Ele não precisou da Polícia Federal. Ele não precisou de mega-estruturas. Ele sequer se queixou de que não há espaço para expor suas idéias. Ele apenas contou uma história, como tantas outras que as redações insistem em ignorar.
Por suas condições de produção, merecia ganhar um Pulitzer.






