Da chapa de magnésio ao visor digital
Da chapa de magnésio ao visor digital
Paulo Martinho - Jornal Unidade / Sindicato dos Jornalistas de São Paulo
Atrasado na cena da notícia e com uma máquina "caindo aos pedaços". Mas tudo deu certo. Foi assim que José Dias Herrera - o mais antigo repórter-fotográfico em atividade no País - começou sua carreira. Deu tão certo que há mais de 60 anos dedica sua vida ao jornalismo de imagem.
Foto: Luigi Bongiovanni
Com uma impressionante memória sobre cada detalhe e um bom humor típico de quem não delimita fronteiras entre trabalho e prazer. Assim é José Dias Herrera, Zezinho para os íntimos. Nascido no tradicional bairro paulistano do Brás, em 1920, desceu a serra e se mudou para Santos aos 7 anos de idade, iniciando uma saga pontuada por sacrifícios em nome de uma grande causa: a defesa da própria família. Desde garoto começou a trabalhar. Limpou vitrines, foi ajudante de espelhador, de sapateiro, copeiro no bar da alfândega e até passou de casa em casa recolhendo metais para a feitura de armas usadas na Revolução de 1932.
Aos 14 anos, surgiu a oportunidade que o levaria a seguir sua verdadeira vocação: ajudante de laboratório fotográfico. "Nessa época, conheci dois fotógrafos da Tribuna de Santos, que me contrataram para fazer ampliações. Acabei aprendendo o ofício melhor do que eles", conta.
Três anos depois entrou na redação do jornal O Diário como repórter-fotográfico, "com máquina boa, registro em carteira e tudo certinho", como diz. Era o tempo das chapas de magnésio tipo ´mosquetão´, como relembra seo Herrera. Aliás, o proprietário do jornal concorrente fez inúmeras ofertas para tentar contratá-lo, mas "naquele tempo não havia Lei de Imprensa e tudo era feito irregularmente. Pagava-se por tarefa e os jornalistas não eram registrados na Tribuna . Não aceitei, mas levei meu irmão mais novo, Rafael, que entrou lá como ajudante e trabalhou por 50 anos no jornal", diz, contando que, no final das contas, a família Herrera gerou três repórteres-fotográficos para a imprensa da baixada santista: Rafael, Paco e ele mesmo. Posteriormente, José Herrera aceitou o convite da Tribuna . Ao todo, foram 42 anos entre O Diário e A Tribuna de Santos .
Herrera acompanhou a evolução do equipamento fotográfico, que do magnésio foi para as lâmpadas elétricas, com menos tamanho e mais potência. No O Diário , era responsável pela seção Porto e Mar, fotografando muitas personalidades que chegavam a bordo de navios. "Chegava às seis da manhã, pegava a lista de passageiros e, para adiantar, seguia com o barco da Polícia Marítima até o navio, antes dele atracar", conta.
Lord bailarino
Como o pagamento no jornal era pouco, Herrera fazia muitos frilas também - ´bicos´, como ele diz. Um dos mais rentáveis era para a extinta revista O Cruzeiro , quando fotografava autoridades públicas e personalidades diversas no cassino do Grande Hotel Guarujá, reduto da elite praiana. "Aos finais de semana ficava no hotel, onde havia muitos shows de artistas estrangeiros, e também passava pela ´praia dos grã-finos´. Tirava umas 60 fotos brincando. Mas pensa que era só mandar os negativos? Corria para o laboratório do jornal, revelava, ampliava, voltava ao hotel para que o gerente identificasse as pessoas e só depois enviava para a revista", explica, divertindo-se ao relembrar os momentos em que, entre uma foto e outra, dançava com as moças que se aproximavam, curiosas com o seu trabalho. "Eu era um verdadeiro lord bailarino", brinca.
O mundo é redondo
Apesar de ser ´especializado em tudo´, como gosta de dizer, Herrera dedicou muitos anos da sua carreira à cobertura de futebol, especialmente dos três times da baixada: Santos, Jabaquara e Portuguesa Santista. Foi correspondente da Gazeta Esportiva, da Folha de S. Paulo, do O Estado de São Paulo e do jornal O Esporte , quando viajou por todo o Brasil, América Latina e Europa atrás das peripécias de Pelé e da constelação de estrelas do Santos, que encantava multidões com o verdadeiro futebol arte. "Lembro bem: era setorista do Santos quando num dia, por acaso, vi um garoto chegar timidamente com a família à Vila Belmiro. Era o Pelé, prestes a assinar contrato com o clube. Tirei a primeira foto dele com a camisa do Santos e acabamos virando amigos. A pedido dele, fotografei seu primeiro casamento", lembra com orgulho.
Aos 84 anos, Herrera permanece firme e forte, fotografando para a Assessoria de Imprensa da Prefeitura de Santos. Lá, usa uma câmera digital e se sente um "mero batedor de chapas". Para exercitar a liberdade criativa que tanto preza, segue fazendo frilas. "Existe muito repórter-fotográfico novo que pensa que estou velho. Mas enquanto eles tiram dezenas de fotos para escolher uma, eu tiro duas ou três e acerto de primeira. Sabe como? Digo para a câmera o que ela tem que fazer", revela Herrera, um autêntico exemplo de talento, caráter, humildade e amor ao jornalismo.






