Culturas autoritárias não favorecem a comunicação democrática
Culturas autoritárias não favorecem a comunicação democrática
Atualizado em 24/08/2010 às 17:08, por
Wilson da Costa Bueno.
"Nas organizações brasileiras, as relações de poder são permeadas por características marcantes como centralização, pouca participação dos empregados em processos decisórios amaciadas pela proximidade pessoal e pelo baixo conflito com que detém o poder". Esta contestação, evidenciada por pesquisa, é de Betânia Tanure, professora da PUC Minas e consultora, uma autoridade na área de Recursos Humanos ou, como se prefere hoje em dia, de Gestão de Pessoas, em coluna publicada no Valor Econômico de 20 de agosto de 2010,.
Se compararmos o cenário real apresentado pela profa. Betânia com o discurso das organizações brasileiras, especialmente dos gestores de RH ou de comunicação, chegaremos a uma triste mas óbvia conclusão: a hipocrisia empresarial continua à solta, num atestado lamentável de que falta coragem, falta coerência e sobra cinismo a empresários e executivos que insistem em praticar o marketing da manipulação.
No fundo, as organizações e seus representantes não ignoram que atravessamos uma nova era e que a administração do século XX, respaldada na centralização do poder, nas estruturas hierárquicas rígidas e no autoritarismo (ainda que muitas vezes camuflado), não têm mais vez e que está em conflito com um novo paradigma, desenhado pela economia colaborativa, pelas redes sociais e pela gestão do conhecimento.Eles sabem disso, mas têm uma dificuldade enorme de abrir mão de seus privilégios, dos cargos mantidos pelo assédio moral, pela chantagem e confundem, equivocadamente, autoridade com autoritarismo.
Por isso, praticam o marketing verde, buscando parecer sustentáveis (esse é caso de agroquímicas, mineradoras, empresas de papel e celulose e até da indústria tabagista, entre outras); por isso incorporam o discurso da responsabilidade social, mas permanecem reféns de uma cultura organizacional que não se compromete com a cidadania e que busca legitimar-se por ações mercadológicas de curto prazo; por isso repetem, sem ficar corados, que "os funcionários são o maior patrimônio da organização" e os demitem em massa e sem dó ao primeiro prenúncio de crise, como fez a Embraer recentemente com 4.200 "colaboradores".
A pesquisa coordenada pela profa. Betânia junto a centenas de executivos mostrou que 70% deles admitem ser autoritários e porcentagem significativa deles não deseja excluir este traço de seu caráter e de sua postura. Uma outra parcela destes chefes autoritários deseja apenas mudar a forma de expressar esta condição, talvez porque almejam disfarçá-la porque, nos dias de hoje, ela não está sintonizada com as práticas modernas e costuma "sujar o filme" de quem as professa.
Neste ambiente desfavorável para a democracia interna, como fica a comunicação empresarial? Ora, fica exatamente como a contemplamos, sobretudo na comunicação interna: anda cada vez mais patrulhada, cada vez mais avessa ao debate, ao diálogo, à divergência, ainda que organizações continuem praticando o discurso da diversidade, do empreendedorismo etc etc.
As nossas organizações, com raras exceções, não pretendem mudar coisa alguma, apesar do discurso em contrário, porque os que detêm o poder não têm perfil, não têm competência para administrar em ambientes democráticos, não conseguem gerenciar sem o apelo recorrente à truculência, a pressões, presas umbilicalmente ao velho bordão "manda quem pode, obedece quem tem juízo".
Felizmente, as novas gerações, os verdadeiros talentos têm repudiado culturas organizacionais em que estes atributos ainda se manifestam e buscado encontrar ambientes onde são incentivados o debate, a participação e respeitada a liberdade de expressão. Nunca as organizações se empenharam (e gastaram ) tanto para reter as melhores cabeças e nunca se surpreenderam tanto com a saída de líderes autênticos e de perfis inovadores, expulsos por um clima organizacional irrespirável.
A comunicação interna tem sofrido apenas mudanças cosméticas e permanece absolutamente autoritária, com a mão forte das chefias sobre os liderados, com a censura e auto-censura governando a circulação das informações e a repressão explícita aos que ousam ter idéias e posições divergentes dos que detêm o poder. Nas publicações empresariais, por exemplo nos house-organs, prevalecem o auto-elogio, a badalação sobre os gestores, ao mesmo tempo em que aumentam a lista dos temas tabus e a restrição ao debate.
As chefias incompetentes e inseguras continuam vendo e criando fantasmas, creditando à Rádio Peão as suas próprias mazelas, enfiando a cabeça na areia como fazem os avestruzes para não enxergarem a realidade.
As organizações aumentam os controles sobre a participação dos funcionários nas redes sociais, monitoram o Twitter, o Orkut e o Facebook para caçar possíveis detratores, vigiam e-mails e diminuem os espaços de interação. Chegam até a instalar câmaras de vídeo para gravar a conversa de funcionários, como denunciamos nesta coluna, ícones que são de uma administração dinossáurica, que aposta na "solução Big Brother" para atenuar as críticas internas.
Estas organizações encontram respaldo também em algumas associações da área de Comunicação, comprometidas com empresas e chefias e não com os comunicadores ou funcionários, contemplando inclusive com prêmios cases de comunicação interna relatados pelos próprios gestores ( absolutamente suspeitos em virtude desta condição).
Cumpre ressaltar, dentro do contexto desta coluna, artigo publicado pelo Valor Econômico no dia 23 de agosto de 2010, sob o título Século XXI pode trazer o fim da administração moderna, assinada por Alan Murray, do The Street Journal, que identifica problemas como os apontados por Betânia Tanure. Segundo esta reportagem, há um desafio para as empresas no século XXI e que consiste em"criar estruturas que motivem e inspirem trabalhadores. Há evidências de sobra de que a maioria dos trabalhadores nas organizações complexas da atualidade simplesmente não está envolvida com o próprio trabalho ". O artigo continua : "O novo modelo terá de inspirar nos trabalhadores o tipo de empenho, criatividade e espírito inovador que se vê geralmente em empreendedores. O modelo terá de empurrar poder e capacidade de decisão o mais para baixo possível na pirâmide, em vez de concentrá-los no topo."
Isto significa - e Betânia Tanure e Alan Murray estão de acordo - que não é mais possível para as organizações alcançarem a competitividade necessária sem mudanças profundas neste modelo de gestão centralizador e autoritário.
Os comunicadores que continuarem legitimando este paradigma ultrapassado sucumbirão junto com ele. Talentos natos, pessoas criativas, mentes inovadoras e críticas não emergem ou não permanecem em culturas arredias à convivência democrática.
Chefes autoritários, empresas autoritárias serão engolidas pelos novos tempos que exigem diálogo, interação, participação e respeito às opiniões contrárias.
Os que apostarem contra este novo modelo que já está posto serão derrotados um dia. Esperamos, em nome da democracia, que ele esteja bem próximo.

Se compararmos o cenário real apresentado pela profa. Betânia com o discurso das organizações brasileiras, especialmente dos gestores de RH ou de comunicação, chegaremos a uma triste mas óbvia conclusão: a hipocrisia empresarial continua à solta, num atestado lamentável de que falta coragem, falta coerência e sobra cinismo a empresários e executivos que insistem em praticar o marketing da manipulação.
No fundo, as organizações e seus representantes não ignoram que atravessamos uma nova era e que a administração do século XX, respaldada na centralização do poder, nas estruturas hierárquicas rígidas e no autoritarismo (ainda que muitas vezes camuflado), não têm mais vez e que está em conflito com um novo paradigma, desenhado pela economia colaborativa, pelas redes sociais e pela gestão do conhecimento.Eles sabem disso, mas têm uma dificuldade enorme de abrir mão de seus privilégios, dos cargos mantidos pelo assédio moral, pela chantagem e confundem, equivocadamente, autoridade com autoritarismo.
Por isso, praticam o marketing verde, buscando parecer sustentáveis (esse é caso de agroquímicas, mineradoras, empresas de papel e celulose e até da indústria tabagista, entre outras); por isso incorporam o discurso da responsabilidade social, mas permanecem reféns de uma cultura organizacional que não se compromete com a cidadania e que busca legitimar-se por ações mercadológicas de curto prazo; por isso repetem, sem ficar corados, que "os funcionários são o maior patrimônio da organização" e os demitem em massa e sem dó ao primeiro prenúncio de crise, como fez a Embraer recentemente com 4.200 "colaboradores".
A pesquisa coordenada pela profa. Betânia junto a centenas de executivos mostrou que 70% deles admitem ser autoritários e porcentagem significativa deles não deseja excluir este traço de seu caráter e de sua postura. Uma outra parcela destes chefes autoritários deseja apenas mudar a forma de expressar esta condição, talvez porque almejam disfarçá-la porque, nos dias de hoje, ela não está sintonizada com as práticas modernas e costuma "sujar o filme" de quem as professa.
Neste ambiente desfavorável para a democracia interna, como fica a comunicação empresarial? Ora, fica exatamente como a contemplamos, sobretudo na comunicação interna: anda cada vez mais patrulhada, cada vez mais avessa ao debate, ao diálogo, à divergência, ainda que organizações continuem praticando o discurso da diversidade, do empreendedorismo etc etc.
As nossas organizações, com raras exceções, não pretendem mudar coisa alguma, apesar do discurso em contrário, porque os que detêm o poder não têm perfil, não têm competência para administrar em ambientes democráticos, não conseguem gerenciar sem o apelo recorrente à truculência, a pressões, presas umbilicalmente ao velho bordão "manda quem pode, obedece quem tem juízo".
Felizmente, as novas gerações, os verdadeiros talentos têm repudiado culturas organizacionais em que estes atributos ainda se manifestam e buscado encontrar ambientes onde são incentivados o debate, a participação e respeitada a liberdade de expressão. Nunca as organizações se empenharam (e gastaram ) tanto para reter as melhores cabeças e nunca se surpreenderam tanto com a saída de líderes autênticos e de perfis inovadores, expulsos por um clima organizacional irrespirável.
A comunicação interna tem sofrido apenas mudanças cosméticas e permanece absolutamente autoritária, com a mão forte das chefias sobre os liderados, com a censura e auto-censura governando a circulação das informações e a repressão explícita aos que ousam ter idéias e posições divergentes dos que detêm o poder. Nas publicações empresariais, por exemplo nos house-organs, prevalecem o auto-elogio, a badalação sobre os gestores, ao mesmo tempo em que aumentam a lista dos temas tabus e a restrição ao debate.
As chefias incompetentes e inseguras continuam vendo e criando fantasmas, creditando à Rádio Peão as suas próprias mazelas, enfiando a cabeça na areia como fazem os avestruzes para não enxergarem a realidade.
As organizações aumentam os controles sobre a participação dos funcionários nas redes sociais, monitoram o Twitter, o Orkut e o Facebook para caçar possíveis detratores, vigiam e-mails e diminuem os espaços de interação. Chegam até a instalar câmaras de vídeo para gravar a conversa de funcionários, como denunciamos nesta coluna, ícones que são de uma administração dinossáurica, que aposta na "solução Big Brother" para atenuar as críticas internas.
Estas organizações encontram respaldo também em algumas associações da área de Comunicação, comprometidas com empresas e chefias e não com os comunicadores ou funcionários, contemplando inclusive com prêmios cases de comunicação interna relatados pelos próprios gestores ( absolutamente suspeitos em virtude desta condição).
Cumpre ressaltar, dentro do contexto desta coluna, artigo publicado pelo Valor Econômico no dia 23 de agosto de 2010, sob o título Século XXI pode trazer o fim da administração moderna, assinada por Alan Murray, do The Street Journal, que identifica problemas como os apontados por Betânia Tanure. Segundo esta reportagem, há um desafio para as empresas no século XXI e que consiste em"criar estruturas que motivem e inspirem trabalhadores. Há evidências de sobra de que a maioria dos trabalhadores nas organizações complexas da atualidade simplesmente não está envolvida com o próprio trabalho ". O artigo continua : "O novo modelo terá de inspirar nos trabalhadores o tipo de empenho, criatividade e espírito inovador que se vê geralmente em empreendedores. O modelo terá de empurrar poder e capacidade de decisão o mais para baixo possível na pirâmide, em vez de concentrá-los no topo."
Isto significa - e Betânia Tanure e Alan Murray estão de acordo - que não é mais possível para as organizações alcançarem a competitividade necessária sem mudanças profundas neste modelo de gestão centralizador e autoritário.
Os comunicadores que continuarem legitimando este paradigma ultrapassado sucumbirão junto com ele. Talentos natos, pessoas criativas, mentes inovadoras e críticas não emergem ou não permanecem em culturas arredias à convivência democrática.
Chefes autoritários, empresas autoritárias serão engolidas pelos novos tempos que exigem diálogo, interação, participação e respeito às opiniões contrárias.
Os que apostarem contra este novo modelo que já está posto serão derrotados um dia. Esperamos, em nome da democracia, que ele esteja bem próximo.






