Cultura ou Ditadura do 10?, por Silvia Bessa
Crédito:Léo Garbin Não se falava sobre nada além do 10 de fulana no Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) e do 10 de beltrano entre estudantes de jornalismo no campus de Juazeiro da Universidade do Estado da Bahia, minutos depois de encerrarem oficialmente a graduação.
Seria uma cultura do 10 ou uma ditadura do 10? Viajei 700 quilômetros rumo à Universidade da Bahia para participar como convidada da banca de TCC da estudante Patrícia Laís, que eu não conhecia e que teve a ousadia de querer e insistir para ter a opinião de um profissional de fora do eixo onde mora.
Tensa, Patrícia também esperava o 10. Fez uma apresentação segura sobre o seu livro-reportagem que trata de mães de crianças especiais. Foi uma das três da turma que não ganharam 10. Ficou decepcionada com a média 9,5 concedida pela banca, via-se no rosto dela. Passado um mês, me respondeu com sinceridade: “É uma pressão dos próprios alunos entre si. A expectativa do 10 maltrata”, admitiu, falando como observadora do que se vive nos corredores.
Estive na banca ao lado de duas profissionais experientes: a professora Teresa Leonel e a assessora de comunicação da Universidade Federal do Vale do São Francisco, Renata Freitas. Na mesa de um restaurante, analisávamos: “Um grande número de notas 10 pode ser tão prejudicial a uma turma quanto a disseminação de notas baixas”, pensa Renata. Teresa acredita que a ansiedade dos alunos é resultado da formação educacional recente. “Receber um não, perder, errar, parece não fazer parte da vida dos jovens atuais”, diz.
Outra hipótese dela é a nova relação que os jovens têm com tecnologia. Os estudos nesse sentido, pondera, são pequenos, mas a facilidade de proliferação da notícia pode gerar algo maior do alunado, sobretudo porque respiram o desejo de conquistar um lugar na profissão.
Saí daquela visita rápida feita à Universidade da Bahia intrigada e pensando que algo de muito preocupante se dá naquele centro acadêmico. Será que o mesmo acontece em outras faculdades? Será uma tendência vista mais nas escolas de jornalismo situadas no interior do Brasil?
São muitas teorias e dúvidas porque é intrigante ouvir relatos de alunos que choram copiosamente porque tiraram 8,5. De outros que desistem de apresentar trabalho por acharem que está incompleto, imperfeito; e de estudantes que não aceitam menos que 10, e com louvor. Questiono: Qual o papel dos avaliadores, profissionais formados, na perpetuação da cultura (ou ditadura) da nota 10?
Alguma coisa está fora da ordem. Um debate amplo e urgente se faz obrigatório para se obter respostas.
é repórter especial do Diário de Pernambuco. Escreve sobre questões sociais e direitos humanos no Nordeste. silviabessape@gmail.com.





