Cultura ou Ditadura do 10?, por Silvia Bessa

Crédito:Léo Garbin Não se falava sobre nada além do 10 de fulana no Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) e do 10 de beltrano entre estudantes de jornalismo no campus de Juazeiro da Universidade do Estado da Bahia, minutos depois de encerrarem oficialmente a graduação.

Atualizado em 03/03/2015 às 12:03, por Silvia Bessa.

sobre nada além do 10 de fulana no Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) e do 10 de beltrano entre estudantes de jornalismo no campus de Juazeiro da Universidade do Estado da Bahia, minutos depois de encerrarem oficialmente a graduação. Nenhum aluno parecia surpreso com a repercussão da produção. Estranha naquele ninho, tive a impressão que estavam felizes, sobretudo por terem conseguido atender à expectativa do conjunto de amigos. “Foi 10”, disse um. Outro repetiu. Três, quatro... Salvo engano, dos 18 TCCs da turma vespertina, só três deles não obtiveram nota 10.

Seria uma cultura do 10 ou uma ditadura do 10? Viajei 700 quilômetros rumo à Universidade da Bahia para participar como convidada da banca de TCC da estudante Patrícia Laís, que eu não conhecia e que teve a ousadia de querer e insistir para ter a opinião de um profissional de fora do eixo onde mora.


Tensa, Patrícia também esperava o 10. Fez uma apresentação segura sobre o seu livro-reportagem que trata de mães de crianças especiais. Foi uma das três da turma que não ganharam 10. Ficou decepcionada com a média 9,5 concedida pela banca, via-se no rosto dela. Passado um mês, me respondeu com sinceridade: “É uma pressão dos próprios alunos entre si. A expectativa do 10 maltrata”, admitiu, falando como observadora do que se vive nos corredores.


Estive na banca ao lado de duas profissionais experientes: a professora Teresa Leonel e a assessora de comunicação da Universidade Federal do Vale do São Francisco, Renata Freitas. Na mesa de um restaurante, analisávamos: “Um grande número de notas 10 pode ser tão prejudicial a uma turma quanto a disseminação de notas baixas”, pensa Renata. Teresa acredita que a ansiedade dos alunos é resultado da formação educacional recente. “Receber um não, perder, errar, parece não fazer parte da vida dos jovens atuais”, diz.


Outra hipótese dela é a nova relação que os jovens têm com tecnologia. Os estudos nesse sentido, pondera, são pequenos, mas a facilidade de proliferação da notícia pode gerar algo maior do alunado, sobretudo porque respiram o desejo de conquistar um lugar na profissão.


Saí daquela visita rápida feita à Universidade da Bahia intrigada e pensando que algo de muito preocupante se dá naquele centro acadêmico. Será que o mesmo acontece em outras faculdades? Será uma tendência vista mais nas escolas de jornalismo situadas no interior do Brasil?


São muitas teorias e dúvidas porque é intrigante ouvir relatos de alunos que choram copiosamente porque tiraram 8,5. De outros que desistem de apresentar trabalho por acharem que está incompleto, imperfeito; e de estudantes que não aceitam menos que 10, e com louvor. Questiono: Qual o papel dos avaliadores, profissionais formados, na perpetuação da cultura (ou ditadura) da nota 10?


Alguma coisa está fora da ordem. Um debate amplo e urgente se faz obrigatório para se obter respostas.


é repórter especial do Diário de Pernambuco. Escreve sobre questões sociais e direitos humanos no Nordeste. silviabessape@gmail.com.