Crônica esportiva brasileira atual padece de criatividade, dizem escritores

Estilo narrativo, fundamental para o imaginário brasileiro, enfrenta estagnação nas redações

Atualizado em 31/05/2014 às 12:05, por Rodrigo Álvares.

Especial "A IMPRENSA na Copa do Mundo" mostra diversos aspectos da competição que retorna ao país do futebol.


É lugar-comum ouvirmos que o futebol faz parte da identidade brasileira. Mas este aspecto é relativamente recente no imaginário cultural no Brasil e teve os cronistas esportivos como peças fundamentais na popularização do próprio esporte no País.

Hoje em dia, nomes consagrados como Mário Filho, Nelson Rodrigues e João Saldanha são reverenciados por suas crônicas sobre o nobre esporte bretão. Entretanto, de acordo com escritores ouvidos por IMPRENSA, estes autores pairam, insubstituíveis, sobre o jornalismo esportivo atual.

O marco inicial ocorreu na década de 1930, momento em que o esporte se torna profissional no país, graças à popularização promovida de forma determinante pelo jornalismo, por meio da mediação das transmissões dos jogos pelo rádio e do aumento de espaço nas editorias dos jornais impressos.

Mas foi a partir da década de 1950, quando finalmente a polêmica sobre se o futebol seria ou não parte constitutiva da cultura nacional foi apaziguada no meio intelectual, a crônica esportiva ganhou prestígio no país, sobretudo por intermédio dos textos de autores como Mário Filho e Nelson Rodrigues.

Antes de Mário, os melhores cronistas escreviam de forma rebuscada. Após a reforma introduzida pelo jornalista, por meio da simplicidade de seus textos, a importância do futebol nos periódicos adquiriu uma perspectiva até então inédita - era a primeira vez que uma partida ocuparia todas as oito colunas da capa e que apareceria um jogador em ação, da cabeça aos pés.

No entanto, neste mesmo período, uma cisão de caráter estilístico veio à tona em relação ao gênero, uma disputa entre os racionalistas, que preferiam escrever sobre a parte tática da modalidade, e os apaixonados, mais preocupados com os aspectos sociais ligados ao esporte do que com a partida propriamente dita.


ENTRA A TECNOLOGIA

O motivo principal para essa divisão foi a chegada da televisão no Brasil, na década de 1950. Até então, a crônica esportiva brasileira baseava-se muito na emoção. Livres do registro da imagem, os autores usavam a imaginação e estimulavam os leitores, discorrendo sobre fatos curiosos que ocorriam nas partidas e, sobretudo, nos seus entornos.

Crédito:Divulgação Douglas Ceconello, do site impedimento.org

De acordo com o jornalista Douglas Ceconello, do site Impedimento.org, isso ajudou a desidratar a própria narrativa dos textos: “Tratar o futebol de uma forma apaixonada é algo que sempre se manteve, mas a diferença é que hoje se faz isso apenas da perspectiva do torcedor de clube, então se perdeu a vocação para aquela visão profunda sobre os fatos menores que sempre caracterizou a crônica”.

Falta de criatividade Para o escritor Ruy Castro, há um elo entre os primeiros cronistas e os atuais: “A maioria dos colunistas de hoje adora citar as imagens criadas pelos pioneiros, e sempre as mesmas ‘pátria em chuteiras’, ‘complexo de vira-lata’ etc., em vez de inventar as suas”.

As duas expressões, criadas pelo escritor e jornalista Nelson Rodrigues, estão cunhadas no imaginário brasileiro até hoje. Nelson, com seu estilo passional e de pendor dramático, teve em várias ocasiões suas crônicas questionadas por outros cronistas que divergiam dos seus posicionamentos pautados nas imagens – para esses criou a expressão “idiotas da objetividade”, que terminou sendo recorrente em seus textos.

Irmão de Mário Filho, Nelson afirmava que as transformações trazidas pelos novos meios tecnológicos tolhiam a imaginação. Foi por acreditar nisso que decretou a frase: “O videoteipe é burro”, também bastante repetida em suas declarações.

Na mesma linha, está o jornalista João Saldanha, autor de algumas das frases mais famosas do futebol brasileiro como “se macumba ganhasse jogo Campeonato Baiano terminava empatado” e “se concentração ganhasse jogo time da penitenciária não perdia um”.

DESERTO DE INSPIRAÇÃO

Com o passar do tempo, a mídia impressa perdeu espaço para as transmissões repletas de detalhes que os meios audiovisuais podem oferecer ao espectador. Já na década de 1990, com o armazenamento de dados nos meios digitais, o jornalismo esportivo avançou para uma vertente voltada à valorização das estatísticas para explicar certos desfechos nas partidas.
Crédito:Divulgação O escritor Ruy Castro

Mas, mesmo com todo o espaço que a crônica esportiva tem atualmente - graças a autores como Mário Filho e Nelson Rodrigues -, o jornalismo esportivo padece de prestígio, como explica Ruy Castro: “Não temos novos Marios e Nelsons - mas também porque não temos os grandes jogadores atuando no Brasil. Deve haver uma diferença entre escrever sobre Pelé, Garrincha, Didi, Bellini, Castilho, Julinho, Canhoteiro, Nilton Santos, Evaristo, Telê, Manga, Almir Pernambuquinho e tantos outros [também interessantes como pessoas] e sobre os autômatos que hoje atuam pelos nossos clubes enquanto não se mandam até para a Ucrânia”.

Na visão de Ceconello, também há uma mudança comportamental dos leitores. “O estreitamento dos círculos sociais na internet muitas vezes faz com que a opinião de amigos ou conhecidos seja mais relevante do que aquela expressa pelos veículos. Então as crônicas sobre futebol, que já não são tão numerosas, ficam ainda mais pulverizadas”, explica.

“Hoje, a crônica é tratada como um texto de jogo, com o único diferencial de obedecer a ótica subjetiva de um jornalista ou escritor. Não há inovação estilística e nem percebemos um esforço em aproximar a crônica da literatura. Hoje praticamente se confunde crônica com coluna, que é opinião”, explica.
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