Crítica e auto-crítica

Crítica e auto-crítica

Atualizado em 07/10/2008 às 17:10, por Igor Ribeiro.

"Crítica" é uma palavra rica e má compreendida. Cheia de valor, mas subutilizada. Como boa parte do nosso repertório léxico, um de seus sentidos restringiu toda a significância do vocábulo. A força do conteúdo "julgamento depreciativo" é tanta que dissolve as outras conotações possíveis para "crítica". E até denotações, já que deriva do grego kritiké, significando, literalmente, "arte de julgar", sem detalhar na raiz se deve ser pejorativa ou elogiosa, comparativa ou analítica, extensa ou resumida. Ela pode carregar todas ou nenhuma dessas peculiaridades, mas, o mais importante, é que seja justa e bem feita.

Somente o debate filosófico talvez guarde ainda a complexidade etimológica do termo, numa conseqüência direta dos estudos sobre o criticismo kantiano e sua revisão transversal do empirismo e da metafísica. O trato que o vocábulo recebeu da maior parte da intelectualidade ocidental não manteve, porém, o mesmo respeito da filosofia. "Crítica" foi corroída e desgastada até virar uma palavra banal, de fácil acesso e aplicação por parte de todos que se sentem no direito de gostar e desgostar. E essa idéia se disseminou infeliz e principalmente por causa do jornalismo especializado em analisar e recomendar arte, a tal "crítica especializada".

É assustadora a facilidade com que a imprensa atual bajula ou metralha qualquer evento e produto cultural sem a acuidade necessária. Afinal, trata-se de cultura e, portanto, de educação - daí sua importância. Além disso, a credibilidade desses veículos é tão pequena que o trabalho do jornalismo crítico já deixou de ser contestado só pelos alvos de seus ensaios e passou a ser atacado também por colegas e público, geralmente acusado de parcial, burro, intransigente e tolo. Paradoxalmente, acaba se influenciando, retroalimentando-se num crescendo de informação descartável e pouco construtiva, sem efeito para a própria melhoria e para o fomento intelectual de seus consumidores, que disseminam essas idéias de forma precipitada e, às vezes, até ingênua.

Há exceções em atividade. No Brasil, sua maioria é formada por poucos mestres ainda vivos, claudicantes rumo à aposentadoria compulsória, e pelos seus discípulos diretos, pertencentes à geração imediatamente seguinte. Já experientes e cheios de repertório cultural, esses profissionais divididem-se entre a grande mídia e o trabalho independente, representando a pequena salvaguarda do jornalismo crítico, ciente de que sua atividade deve, principalmente, construir um debate artístico que vai muito além da simples e reincidente recomendação cultural ao consumidor, quase sempre impregnada de um maniqueísmo tacanho.

Eu não saberia precisar um ponto de origem do crescimento dessa crítica banal. Mas, provavelmente, tanto a indústria cultural como as novas tecnologias da informação explicam alguns dos motivos que a impulsionaram. A crescente produção de arte e entretenimento para o consumo de massa atraiu um incremento midiático no mesmo ritmo. Aumentou o número de agentes, de público e de espaços, mas perdeu-se em tempo e qualidade. Na obrigação de ter mais textos sobre esses assuntos, apelou-se por gente não-especializada ou pouco calejada para lidar com as sutilezas da questão.

Outra forte influência sobre essa decadência vem da transformação da arte em negócio. Isso gerou um mecanismo de promoção cultural envolvendo interesses que ultrapassam o valor de determinado escritor, ator, músico, etc. Afinal, essa atividade movimenta um mercado obstinado por lucro e prestígio. O reflexo disso no meio estritamente jornalístico se dá pela relação entre crítico e assessoria de imprensa - muitas vezes pautada por jogos escusos entre liberdade e poder. Logo o cuidado sobre como tratar a obra de arte não recai só sobre o jornalista, mas também sobre o mercado sufocante que tenta conquistá-lo por quaisquer meios possíveis.

Mesmo nós, da Imprensa Editorial, temos que ter cuidado para não expor julgamentos rasteiros sobre os colegas jornalistas. Somos um segmento de mercado que está atento à mídia e aos meios de comunicação, mas não podemos nos achar donos da verdade e apontar o dedo para ninguém. Antes, um exercício ético pede que nós, como empresa, e eu, como jornalista, tenhamos auto-crítica quanto ao nosso trabalho. Seguros de que estamos desempenhando-o bem - ainda que em busca de contínua melhoria -, podemos, aí sim, ficar mais à vontade para alimentar uma discussão. Mas nunca determinar de modo ignorante o que é bom ou ruim.

No fim das contas, creio que é justamente essa auto-crítica que falta à mídia e aos próprios críticos. Mas a prioridade acaba sendo outra - mercantilista -, empobrecendo e eliminando um debate potencialmente mais nobre e saudável. Se antes se debruçasse detalhadamente sobre os próprios problemas e suas possíveis soluções, a crítica especializada descobriria que pode recuperar sua qualidade intelectual sem ferir o mercado. E sem ser sua escrava.