“Crises e Desinformação” por Marcelo Molnar
Estamos em crise. Confesso que não me lembro de viver em uma época sem crise. Elas podem ser de saúde pública, política, social, moral, internacional, energética ou econômica.
Narrativas conflitantes são coloridas por diversas interpretações, e discernir o que realmente está acontecendo torna-se quase impossível. O que as pessoas temem acaba se materializando e agora, com o volume de dados cada vez maiores, as expectativas criam uma situação ainda pior. Os indicadores econômicos formam um desenho rebuscado de dados e tendências. Se pensarmos bastante sobre eles, tudo faz sentido, mas há muito o que interpretar. As teorias sobre o que fazer é relativamente conhecida, mas quando juntamos pandemia, guerra, desequilíbrio climático e problemas gerais nas cadeias de suprimentos, o cenário fica mais desafiador.
Muitos culpam a inflação pela manipulação de preços e, definitivamente, há um fundo de verdade nisso. No entanto, o mercado publicitário, criando desejo de consumo de coisas desnecessárias, só contribui para piorar o cenário. Vivemos nesta insana engrenagem de oferta e procura, movimentando os indicadores da saúde do sistema econômico mundial. Uma crise no fornecimento energético de gás natural e petróleo, contamina todos os mercados. Quando os preços da energia sobem, tudo tem que subir de valor, e isso resulta em um ambiente sombrio.
Porém, não podemos esquecer que são as percepções das pessoas moldam a economia. E essas percepções, por sua vez, são moldadas pela mídia. Esse entrelaçamento ocorre em todas as esferas. O desenvolvimento tecnológico potencializou o discurso de conscientização e colaboração e, nas mesmas proporções, das competições e comparações. Praticamente não existe nenhuma atividade que não seja organizada em rede. O que até recentemente era incontrolável se tornou insuportável.
Essa provavelmente será a primeira crise econômica em um ambiente dominado pela desinformação. E a retroalimentação da desinformação nos desvia da solução de problemas importantes. Em uma sociedade que acredita que a Terra é plana, que as vacinas não têm eficácia e fazem mal a saúde, que o aquecimento global é modismo de ambientalistas, o que podemos esperar sobre racionalidade de consumo e lógica econômica em um período inflacionário?
A desinformação reforça conceitos questionáveis como a teoria de que armar a população traz mais segurança. Que ações populistas consolidam o processo democrático. Que o desmatamento é bom para o agronegócio. Que a cor da pele determina o potencial intelectual ou caráter de um indivíduo. E tantas outras discussões sociais que deveriam estar superadas, ou ao menos pacificadas nos dias de hoje.
Sempre que posso, reforço a importância dos profissionais de comunicação nesse cenário. Precisamos de ajuda de especialistas e de instituições sérias, justas e equilibradas. Perdemos a harmonia entre ouvir e falar. Entre ler e refletir. Não conseguimos mais separar os ignorantes engraçados dos notáveis conscientes. O viés ganha de lavada da imparcialidade. Só acreditamos e propalamos o que corrobora com nossos pensamentos.
Entretanto, tenho certeza de que essa será mais uma das tantas crises que superaremos. Será difícil, mas conseguiremos suplantar. Acredito que as próximas gerações tirarão grandes aprendizados deste momento que estamos passando. Platão já dizia que a necessidade é a mãe da inovação. Muitas coisas pareciam impossíveis até que alguém conseguiu realizar. Sempre será possível descobrir caminhos promissores mesmo que eles estejam escondidos em momentos desfavoráveis. Uma crise sempre será uma oportunidade.
* é formado em Química Industrial, com pós graduação em Marketing e Publicidade. Experiência de 18 anos no mercado da Tecnologia da Informação, atuando nas áreas comercial e marketing. Diretor de conteúdo em diversos projetos de transferência de conhecimento na área da publicidade. Criador do processo ICHM (Índice de Conexão Humana das Marcas) para mensuração do valor das marcas a partir de sua relação emocional com seus consumidores. Coautor do livro "O segredo de Ebbinghaus". Atualmente é Sócio Diretor da Boxnet.





