Crise política causa repercussão em Ponta Grossa, por Diego Antonelli / UEPG (PR)

Crise política causa repercussão em Ponta Grossa, por Diego Antonelli / UEPG (PR)

Atualizado em 10/10/2005 às 16:10, por .

Diante de um quadro político recheado de denúncias que envolvem escândalos de corrupção, de Caixa Dois e três Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs), o Brasil passa por uma situação política instável. As repercussões desses casos invadem gabinetes, sedes partidárias e sindicais, além do meio universitário de Ponta Grossa.

O Partido dos Trabalhadores (PT) é formado por diversos e diferentes segmentos. O Movimento PT, coordenado por Luis Dzulinski, que representa a área esquerda do partido, é um deles. Dzulinski acredita ser difícil o Presidente Luis Inácio Lula da Silva não ter o conhecimento das razões da crise. "Não sei se ele sabe da extensão total, mas alguma noção ele deve ter", afirma.

Em relação a rumores de existência de Caixa Dois na campanha que elegeu Lula, ele acredita que a única maneira de saber a verdade "seria comparar a quantidade de dinheiro gasto com a prestação de contas do PT". Dzulinski afirma que quando Fernando Henrique Cardoso era presidente foram tentadas abrir 40 CPIs para investigar Caixa Dois na campanha de FHC. "Mas elas não funcionaram. Alguns deputados foram comprados para não votarem a favor da abertura de uma CPI", revela Dzulinski.

Para o coordenador do Movimento PT, estes dirigentes traíram a classe trabalhadora e caíram em descrédito da população. "Não adianta expulsar os envolvidos ou provar que 100% das denúncias não procedem ou são inverdades. O estrago está feito", declara Dzulinski. No partido, segundo ele, ainda existem pessoas com ideais e que vêem uma sociedade diferente, mais igual. "Foram apenas alguns petistas que deram aval a esta falcatrua e retrocederam os avanços da classe trabalhadora".

O vereador Gerveson Tramontin Silveira , que faz parte do campo majoritário do PT no município, acha que o partido errou ao não controlar as finanças. "Além disso, fazer compromissos financeiros para custear campanhas não é crime, não é ilegal. O que pode ser caracterizado como crime é a origem desses recursos", afirma o vereador que completa, no fim do mandato, 10 anos no cargo.

Sobre o possível Caixa Dois na campanha do Lula, Silveira afirma que não há campanha que tenha recursos rígidos para custeá-la. "Não há como impedir o surgimento de Caixa Dois, mesmo se mudar a legislação ela existirá", confessa. Perguntado se em suas campanhas teve este ato sujo da política brasileira, ele afirma de forma ríspida: "Não tive nem 'Caixa Um' direito", e dá um tapa na mesa.

Para ele, os culpados pelo início das crises são as pessoas que coordenaram o partido. "Entre eles estão o (José) Genoíno e o Delúbio (Soares). Se fizessem de forma transparente, mesmo que a origem do dinheiro seja do Marcos Valério não teria problema. Emprestar dinheiro não é crime, ou é?", questiona Silveira.

O vereador descarta a possibilidade de impeachment. "O que vai ocorrer é esse desgaste feito pela imprensa e pelos políticos da oposição. Mas, mesmo assim, o Governo Lula vai até o fim do mandato", acredita. Segundo Silveira, o grande erro do Lula foi ceder o apelo da direita. "Fizeram isso para obter a maioria no Congresso", afirma. "Eu tenho medo que o PT deixe de estimular a esperança. O povo é essa esperança e não o partido. O PT é um instrumento de mobilização da sociedade", confessa o vereador.

Para o professor do curso de Comunicação Social/Jornalismo, Sérgio Luiz Gadini o descrédito da população com os partidos não é de agora. "Isso é de vários anos e tende a aumentar já que o PT era um partido que pregava ética e transparência política. Vimos, agora que não existe esta suposta transparência.", afirma. Segundo o doutor em Ciências da Comunicação, Gadini, Lula perdeu a credibilidade e está envolvido nestes fatos.

De acordo com o professor, não existe um grande culpado pela origem da crise. "Tem grupos partidários que adotam práticas das políticas tradicionais. Isso inclui, agora, o PT", afirma. Gadini entende por "política tradicional" pessoas que se revezam no poder. "Os mesmos que faziam parte do MDB e da Arena, por exemplo, estão presentes no cenário político atual", explica.

O presidente do Sindicato dos Empregados no Comércio de Ponta Grossa, João Vendelin, acredita que o governo demora a agir como representante da nação. "Onde há fumaça, há fogo. Tem que apagar este fogo logo", diz o sindicalista. Segundo presidente do Sindicato, o Lula deve responder por essas crises. "Ele pode não ser o culpado, mas foi ele quem escolheu as pessoas que fariam parte dos cargos de confiança. Nós não elegemos estas pessoas", afirma.

Vendelin não vê a possibilidade de um impeachment do Presidente Lula hoje. "Por outro lado vejo que a traição pode ser tão grande que leve o governo a desistir do mandato", acredita. O sindicalista confessa que está desapontado com o Lula e não apóia a reeleição. Para ele, o povo tem que agir de alguma forma: "Quem elegeu este governo tem que levantar bandeiras e cobrar uma atitude do Presidente".

Saldos pós-crises

Luis Dzulinski, coordenador da ala esquerda "Movimento PT", acha que o Psol (Partido Socialismo e Liberdade) pode ter destaque. "Deve-se perceber que eles (integrantes do Psol) estão entrando em contradição. Usam um discurso de esquerda, mas, em algumas situações, juntam-se com os partidos de direita para poderem 'bater' no atual Governo", afirma. Segundo ele, para ter uma atuação política séria tem que escolher um lado para atuar.

O vereador, do campo majoritário do PT, Gerveson Tramontin Silveira, crê que não haverá vencedor após as crises. "O que vai ocorrer é que a população vai ficar mais desacreditada no que diz respeito à política eleitoral", diz Silveira.

Para o professor do curso de Comunicação Social/Jornalismo, Sérgio Luiz Gadini, esta crise não terá saldo positivo. "Isso afeta todos os partidos, é claro que de forma mais acentuada, o PT", afirma. Já o presidente do Sindicato dos Empregados no Comércio de Ponta Grossa, João Vendelin, afirma: "Qualquer chacoalhada que se dá pode melhorar algo na política brasileira".