Criador de "Quadrinhos Ácidos" fala sobre o mercado de tirinhas virtuais
A última edição do dicionário Michaelis, de 1998, traduz a palavra “cartum” no seguinte verbete: “Narrativa humorística expressa através de caricatura e normalmente destinada a público em jornais e revistas”.
Atualizado em 24/03/2014 às 17:03, por
Lucas Carvalho*.
Michaelis, de 1998, traduz a palavra “cartum” como uma “narrativa humorística expressa através de caricatura e normalmente destinada a público em jornais e revistas”. Fica claro, 16 anos depois, que um meio de comunicação muito mais popular hoje em dia do que o impresso não foi considerado nessa tradução: a web.
Crédito:Marcos Nagelstein/Jornal do Comércio Cartunista reforça espaço da internet para os quadrinhos
Pedro Leite, ilustrador e publicitário, sabe muito bem como é desenhar e escrever quadrinhos para a internet. São dele as tirinhas da série “Quadrinhos Ácidos”, cartuns que já atingiram os quatro cantos da rede criticando, com bom humor, o comportamento do brasileiro no século XXI. “Big Brother Brasil”, Carnaval, Copa do Mundo e até os clichês de propagandas de cerveja podem ser pautas para ele.
“Eu estava meio frustrado um dia e estava fazendo um quadrinho sobre as atitudes de algumas pessoas que eu não entendia. Alguém que fuma no século XXI, coisas assim. Eu postei no meu perfil no Facebook só para ver a reação do pessoal. O que me surpreendeu foi que, um dia depois, teve mais de mil compartilhamentos. Foi assim que vi que dava pra fazer crítica na internet de uma forma bem humorada, sem ser uma coisa chata”, revela.
Segundo Pedro, o diferencial do seu trabalho está no conteúdo, como o nome diz, “ácido” das tirinhas. Porém, ele não acredita que os temas abordados sejam tão pesados a ponto de ofender alguém. Pelo contrário, afirma que os desenhos têm uma carga pessoal forte o suficiente para fazer com que qualquer leitor se identifique facilmente com as situações retratadas.
Crédito:Reprodução/Quadrinhos Ácidos
Tirinhas de Pedro Leite brincam com coisas do cotidiano
“As críticas dos ‘Quadrinhos Ácidos’ vêm mais de coisas que podem estar dentro de cada pessoa. Por exemplo, se tem uma tirinha sobre “como meu amigo só publica foto boba no Facebook”… Eu sinto que o leitor que compartilha essa piada tem dentro dele uma crítica que quer fazer a outro amigo e vai querer compartilhar para o cara ver. Então, acho que ‘Quadrinhos Ácidos’ é uma crítica que é bacana, não é nada pesado”, diz.
Mesmo com 90 mil seguidores no e quase 80 mil visualizações mensais em seu oficial, Pedro lamenta que a arte dos quadrinhos não seja tão valorizada pelos jornais brasileiros quanto já foi um dia.
“Eu sinto que os quadrinhos de jornal têm sido desvalorizados. Os veículos não estão mais dando tanta atenção quanto eles deram nos anos 80 ou 90, quando publicavam muito mais. Eu ouço ‘pô, os 'quadrinhos ácidos' não estão sendo publicados em nenhum jornal, que coisa’. Mas cada quadrinho que eu posto ali tem cem, duzentas mil visualizações. Muitas vezes isso é muito mais do que um jornal”, diz.
Para ilustrar um possível “descaso” da grande imprensa com os novos talentos, Pedro cita o caso da personagem “Psicóloga Direta”. A publicação foi interrompida em fevereiro pela Folha de S.Paulo , após uma acusação de plágio. Para o cartunista, o fato é lamentável, tendo em vista que o mercado está cheio de profissionais com boas e novas ideias, mas sem oportunidade.
“O que deixou muita gente chateada foi que a Folha , um dos maiores jornais do Brasil, não incentiva os quadrinhos nacionais, e quando vai contratar alguém, contrata sem ver o histórico. Tem tanta gente boa que podia estar lá e os caras não olham. Isso é triste. Por outro lado, tem muita gente criando quadrinhos e se tornando conhecida pela internet, que é o meu caso”, opina.
O cartunista, porém, nega que suas histórias sejam desenvolvidas pensando, exclusivamente, no público digital. Ele afirma que os “Quadrinhos Ácidos” podem ser publicados em qualquer meio, mas admite que as ferramentas disponíveis na web oferecem um universo imenso de possibilidades para os desenhistas.
“Acho que tem pouca coisa na web que realmente é feito e pensado para ela. Por exemplo, como um autor tem muito mais espaço para usar, ele pode fazer um quadro grande, outro pequeno, ou ele coloca um GIF animado no meio da tirinha, uma animação… Essas são as possibilidades que o jornal não dá, naturalmente. Mas eu sou mais pelo quadrinho tradicional, que pode ser publicado em papel, na internet, em qualquer lugar.”
Quando perguntado se o futuro das tirinhas em quadrinhos é mesmo na internet, ou se o impresso pode sobreviver, Pedro resume: “não sei”. Mas, para ele, o mercado editorial ainda tem sido receptivo aos novos quadrinhos, na contramão dos jornais.
“Uma coisa que eu acho interessante é que hoje em dia muitos quadrinhos têm deixado as bancas de revista para virar livros. Há dez anos, por exemplo, não haviam tantos sendo vendidos em livraria. E isso é muito bom. Ao mesmo tempo, como eu falei, os jornais não têm publicado muita coisa. [...] Mas a internet está aí, né. Só temos que aprender a usar direito”, conclui.
* Com supervisão de Vanessa Gonçalves
Crédito:Marcos Nagelstein/Jornal do Comércio Cartunista reforça espaço da internet para os quadrinhos
Pedro Leite, ilustrador e publicitário, sabe muito bem como é desenhar e escrever quadrinhos para a internet. São dele as tirinhas da série “Quadrinhos Ácidos”, cartuns que já atingiram os quatro cantos da rede criticando, com bom humor, o comportamento do brasileiro no século XXI. “Big Brother Brasil”, Carnaval, Copa do Mundo e até os clichês de propagandas de cerveja podem ser pautas para ele.
“Eu estava meio frustrado um dia e estava fazendo um quadrinho sobre as atitudes de algumas pessoas que eu não entendia. Alguém que fuma no século XXI, coisas assim. Eu postei no meu perfil no Facebook só para ver a reação do pessoal. O que me surpreendeu foi que, um dia depois, teve mais de mil compartilhamentos. Foi assim que vi que dava pra fazer crítica na internet de uma forma bem humorada, sem ser uma coisa chata”, revela.
Segundo Pedro, o diferencial do seu trabalho está no conteúdo, como o nome diz, “ácido” das tirinhas. Porém, ele não acredita que os temas abordados sejam tão pesados a ponto de ofender alguém. Pelo contrário, afirma que os desenhos têm uma carga pessoal forte o suficiente para fazer com que qualquer leitor se identifique facilmente com as situações retratadas.
Crédito:Reprodução/Quadrinhos Ácidos
Tirinhas de Pedro Leite brincam com coisas do cotidiano “As críticas dos ‘Quadrinhos Ácidos’ vêm mais de coisas que podem estar dentro de cada pessoa. Por exemplo, se tem uma tirinha sobre “como meu amigo só publica foto boba no Facebook”… Eu sinto que o leitor que compartilha essa piada tem dentro dele uma crítica que quer fazer a outro amigo e vai querer compartilhar para o cara ver. Então, acho que ‘Quadrinhos Ácidos’ é uma crítica que é bacana, não é nada pesado”, diz.
Mesmo com 90 mil seguidores no e quase 80 mil visualizações mensais em seu oficial, Pedro lamenta que a arte dos quadrinhos não seja tão valorizada pelos jornais brasileiros quanto já foi um dia.
“Eu sinto que os quadrinhos de jornal têm sido desvalorizados. Os veículos não estão mais dando tanta atenção quanto eles deram nos anos 80 ou 90, quando publicavam muito mais. Eu ouço ‘pô, os 'quadrinhos ácidos' não estão sendo publicados em nenhum jornal, que coisa’. Mas cada quadrinho que eu posto ali tem cem, duzentas mil visualizações. Muitas vezes isso é muito mais do que um jornal”, diz.
Para ilustrar um possível “descaso” da grande imprensa com os novos talentos, Pedro cita o caso da personagem “Psicóloga Direta”. A publicação foi interrompida em fevereiro pela Folha de S.Paulo , após uma acusação de plágio. Para o cartunista, o fato é lamentável, tendo em vista que o mercado está cheio de profissionais com boas e novas ideias, mas sem oportunidade.
“O que deixou muita gente chateada foi que a Folha , um dos maiores jornais do Brasil, não incentiva os quadrinhos nacionais, e quando vai contratar alguém, contrata sem ver o histórico. Tem tanta gente boa que podia estar lá e os caras não olham. Isso é triste. Por outro lado, tem muita gente criando quadrinhos e se tornando conhecida pela internet, que é o meu caso”, opina.
O cartunista, porém, nega que suas histórias sejam desenvolvidas pensando, exclusivamente, no público digital. Ele afirma que os “Quadrinhos Ácidos” podem ser publicados em qualquer meio, mas admite que as ferramentas disponíveis na web oferecem um universo imenso de possibilidades para os desenhistas.
“Acho que tem pouca coisa na web que realmente é feito e pensado para ela. Por exemplo, como um autor tem muito mais espaço para usar, ele pode fazer um quadro grande, outro pequeno, ou ele coloca um GIF animado no meio da tirinha, uma animação… Essas são as possibilidades que o jornal não dá, naturalmente. Mas eu sou mais pelo quadrinho tradicional, que pode ser publicado em papel, na internet, em qualquer lugar.”
Quando perguntado se o futuro das tirinhas em quadrinhos é mesmo na internet, ou se o impresso pode sobreviver, Pedro resume: “não sei”. Mas, para ele, o mercado editorial ainda tem sido receptivo aos novos quadrinhos, na contramão dos jornais.
“Uma coisa que eu acho interessante é que hoje em dia muitos quadrinhos têm deixado as bancas de revista para virar livros. Há dez anos, por exemplo, não haviam tantos sendo vendidos em livraria. E isso é muito bom. Ao mesmo tempo, como eu falei, os jornais não têm publicado muita coisa. [...] Mas a internet está aí, né. Só temos que aprender a usar direito”, conclui.
* Com supervisão de Vanessa Gonçalves





