Courbet e a cortina de veludo da mídia
Courbet e a cortina de veludo da mídia
Atualizado em 08/08/2008 às 23:08, por
Rodrigo Manzano.
A pintura "A origem do mundo", do realista francês Gustave Courbet, hoje repousa no Museu d'Orsay em Paris, mas já foi de propriedade do psicanalista Jacques Lacan. Conta-se que Lacan nunca expôs a obra em lugar aparente de sua casa e que, para não chocar os visitantes, cobria o quadro com uma outra pintura e só a mostrava para amigos mais íntimos. Outra versão garante que "A origem do mundo" ficava trancafiado em um armário e uma lenda menos difundida conta que Lacan o escondia atrás de uma cortina de veludo. Não consigo imaginar Lacan recatado, mas não é sobre Courbet que pretendo escrever.
Sempre me pergunto sobre quem seriam os operadores morais da mídia. Para esse tipo de questionamento existem várias respostas. Há quem afirme que a mídia é moralista, de maneira geral, porque o público o é, e de certa forma essa explicação está correta, ainda que parcialmente. Outros, no entanto, dizem que a mídia e o jornalismo são moralistas porque se submetem a uma espécie de auto-regulação, fruto do nosso tempo e das circunstâncias a que nos submetemos. Uma terceira versão explica, ainda, que a mídia e o jornalismo são conservadores e moralistas porque seus proprietários e funcionários também são. Todas essas explicações estão parcialmente corretas, mas não dão conta de atingir a essência do problema.
O moralismo da mídia é muito relativo. Se você perguntar a uma velha senhora católica de Taubaté o que ela acha da novela das oito, é bem possível que ela critique fortemente seu conteúdo embora, intimamente, até sinta algum prazer, transgressivo ou não, assistindo todos os dias aos capítulos tão obscenos no seu entendimento. O problema fundamental, no entanto, é outro: a mídia e o jornalismo utilizam dois pesos distintos para avaliar moralmente seus conteúdos. Num momento, deseja parecer liberal; noutro, não se arrisca em avanços, nem mesmo para acompanhar as mudanças sociais e as novas percepções públicas.
Um exemplo: regra geral, gays e lésbicas são bem aceitos na pauta das redações, especialmente no período das paradas ou quando a agenda pública é tomada por questões como parceria civil ou violência física contra homossexuais. Por outro lado, os gays e lésbicas não são bem-vindos em matérias gerais, cujos temas interessam a todos. Nunca vi uma reportagem sobre relacionamentos amorosos que entrevistasse, de maneira natural, casais héteros e gays. Nesse momento, as redações comportam-se ainda sob as regras morais do século 19.
Do livro " ", que chega à sua segunda tiragem, vem uma experiência enriquecedora. Escrito pela publicitária Karla Lima e pela fotógrafa Pya Lima, colaboradora da IMPRENSA, "Armário sem Portas" é um relato pessoal sobre a vida afetiva de duas mulheres. Mas não se restringe, em momento algum, ao amor gay. É um livro de amor, como qualquer outro livro de amor. Assim como Pya e Karla, muitos são os homens e as mulheres homossexuais que poderiam colaborar, como fontes, com seus exemplos banais, suas opiniões e suas experiências para o jornalismo nosso de cada dia. Não porque sejam diferentes, mas, sobretudo, porque são iguais a todos os outros homens e mulheres, independentemente de sua orientação sexual. Mas à mídia eles não interessam, pois na pauta é muito melhor um caso explosivo do jogador de futebol que foi flagrado em companhia de três travestis, e não o que pensam os gays e lésbicas sobre a situação econômica global.
Os gays no Brasil são o Courbet de Lacan, escondidos pela mídia sob o mentiroso quadro de que são aceitos, quando são, no máximo, tolerados.






