"Correspondentes qualificaram a cobertura da Primavera Árabe", diz Arlene Clemesha

A professora de história árabe e diretora do Centro de História Árabe da USP, Arlene Clemesha, é atualmente uma das principais estudiosas brasileiras consultadas pela imprensa quando o assunto é o mundo árabe e os conflitos na Palestina.

Atualizado em 28/10/2011 às 11:10, por Luiz Gustavo Pacete.



Desde que eclodiu a Primavera Árabe, no início deste ano, sua presença tem sido constante tanto na TV como em jornais, revistas e portais. À IMPRENSA, Arlene analisou o tipo de cobertura que os jornalistas fazem sobre o tema e alguns avanços que ocorreram nos últimos anos em termos de compreensão do mundo árabe.

Divulgação Arlene Clemesha IMPRENSA - A senhora vê imparcialidade na cobertura do conflito Israel/Palestina por parte dos jornalistas? Arlene Clemesha - Discutir imparcialidade é algo complexo. Mas eu vejo como positiva a abertura da imprensa para o assunto. Abertura no sentido de pluralidade. É muito bom que os autores possam ter opiniões diferentes.
IMPRENSA - Pode-se dizer o mesmo sobre a cultura árabe? Arlene - Sobre isso existe outro problema sério e que ainda persiste: a concepção definida e conservadora, considerando a sociedade árabe como atrasada e, portanto, que não faz parte das inter-relações da sociedade mundial. Isso eu considero uma exclusão.
IMPRENSA - Mas como exatamente se dá essa exclusão? Arlene - Muitos meios ainda enxergam e retratam os árabes como uma civilização que não segue o passo do mundo. Uma atitude que ignora o processo histórico e infelizmente está disseminado nos meios. Essa é uma visão muito estereotipada e arraigada em uma concepção orientalista típica do século 19. Infelizmente, quando não se tem um olhar para o tema mais cuidadoso essa visão acaba prevalecendo na grande mídia, gerando problemas e preconceitos.
IMPRENSA - Após os atentados do 11 de setembro, os jornalistas aprenderam a diferenciar islamismo de terrorismo? Arlene - Acredito que essa equivocada relação não existe mais de forma automática. Mas, infelizmente, ainda existe a ideia de que o islamismo é propenso a criar o fundamentalismo, como se outras religiões não cometessem o fundamentalismo. É como se o islamismo por natureza permitisse o terrorismo.

Reprodução Protestos no Egito IMPRENSA - Os atentados contribuíram para difundir melhor o conceito de terrorismo? Arlene - Mais ou menos. Ainda existe um sério desconhecimento sobre o que é terrorismo. As pessoas associam essa palavra somente com homens explodindo carros. Mas um ataque militar, utilizando um jato F16 em uma capital densamente povoada, é terrorismo, mas as pessoas ignoram como tal.
IMPRENSA - A senhora é presente na mídia. O que vê em relação ao preparo dos jornalistas que cobrem o tema? Arlene - Vejo que é melhor do que há cinco anos, em função de dois fatos recentes que obrigaram os jornalistas a olhar para o Oriente Médio: primeiro, o ataque à Faixa de Gaza e o ataque à flotilha, e depois ao Líbano. Depois desses acontecimentos, vejo os jornalistas com muito mais embasamento, não só teórico, mas vivencial.

Mortes e Protestos

Durante as manifestações que aconteceram na chamada "Revolta do Mundo Árabe", desde o início de 2011, 11 jornalistas foram mortos, aponta a organização Campanha Emblemática de Imprensa (PEC).


Jornalistas mortos:


5 Líbia / 2 Bahrein / 1 Iêmen

1 Egito/ 1 Tunísia / 1 Argélia


O país mais perigoso para jornalistas continua sendo o Paquistão.



IMPRENSA - Com a Primavera Árabe, foi perceptível um aumento de correspondentes naquela região? Arlene - O fato de ter jornalistas na região contribui para que a cobertura seja mais viva e embasada. Com a presença de jornalistas visitando e conhecendo a região, só melhora. Mas é claro que não dá para ignorar o fato de que a imprensa é uma indústria. E na medida em que ela é uma indústria sempre vai ter que responder a certos interesses. Isso, às vezes, pode dificultar o processo de esclarecimento de notícias aprofundadas.
IMPRENSA - A senhora viu abusos da imprensa internacional na divulgação de imagens sobre a morte de Kadafi? Arlene - Eu não vi problemas críticos. O que vi foi uma resposta de dois pesos e medidas por parte dos representantes de organizações internacionais. Não que eu queira defender ninguém, mas quando o Osama Bin Laden foi capturado e morto, eu não vi a ONU exigindo investigação ou prestação de contas. Também não vi nenhum tipo de questionamento de invasão de espaço aéreo e sumiço dos corpos. Mas com relação à cobertura não vi exageros; é claro que teria gostado que aquelas fotos explicitas não fossem divulgadas.

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