Correspondentes internacionais mostram costumes e valores de terras além mar

No diversificado menu de cobertura dos correspondentes internacionais, a atenção aos detalhes é característica indispensável para que o jornalista traduza os costumes e valores de terras distantes.

Atualizado em 24/12/2014 às 14:12, por Christh Lopes.

Ao narrar uma situação inusitada de um país em conflito, por exemplo, o repórter sabe que seu discurso deve proporcionar ao leitor o cenário mais próximo possível do real.
O mesmo cuidado vale para as coberturas de turismo, já que descrever lugares paradisíacos e apresentar novos destinos se tornou parte da rotina dos que atuam fora do País. Entre uma reportagem de fôlego e outra, os enviados especiais ainda aproveitam a estadia para conhecer os pontos mais belos de cada região visitada. É daí que aparecem grandes pautas culturais.
Samy Adghirni, por exemplo, foi além. O jornalista viajou ao Irã pelo jornal Folha de S.Paulo, e produziu, ao lado da namorada, um suplemento com um guia turístico do país muçulmano com mais de oito páginas. O caderno trouxe reportagens pontuais, além de textos que desmistificavam dogmas e conceitos ultrapassados, sempre sob o olhar dos iranianos.
O suplemento trouxe ainda dicas de gastronomia, um guia de lojas, e sugestões de paisagens imperdíveis. O jornalista ressalta que tudo envolve política no país, inclusive, o turismo, que tende a crescer em breve com a aparente abertura do governo. “Com a posse do presidente Hassan Rohani, eleito com um discurso muito apaziguador em relação ao Ocidente, os turistas começam a voltar ao país”.
Crédito:Divulgação Samy Adghirni é repórter da Folha de S.Paulo Nos anos 1990, os americanos, europeus e latino-americanos costumavam visitar mais as intermediações da República Islâmica. Só que, com o 11 de setembro, tudo mudou. A administração do antecessor de Rohani sofreu com o medo Ocidental. Mas, com a saída de Ahmadinejad, o turismo deu um grande salto. O correspondente conta que o crescimento do setor entre 2012 e 2013 foi de 300%. Durante os três anos que passou por lá, o novo cenário rendeu pautas das mais curiosas.
“O exemplo que me vem à mente é o museu das joias, o único no mundo que tem uma coleção incrível de peças que pertenciam aos antigos reis da Pérsia”, diz. Outra reportagem que ficou marcada foi a que fez sobre Herat, no Afeganistão. “Ela é a cidade mais segura do país, incrivelmente bonita, e fica bem perto do Irã. Na verdade, quando você atravessa a fronteira, vê que são dois mundos diferentes”, lembra.
Paradoxalmente, a região fica em uma zona de conflito, mas Herat foi um dos poucos pontos que sequer foi tocado pelas duas forças que se enfrentam constantemente. Apesar de não ser um alvo, não é possível dizer que quem vai ao local está totalmente seguro. Por isso, o jornalista se preparou para a repercussão.
Houve leitores que o chamaram de louco, mas surpreendentemente, teve muita gente que se interessou pelo destino. “Falo claramente na matéria que é um turismo atípico, mas dá para fazer e tem quem faça. Existem pessoas que vão a esta cidade, que tem monumentos lindos, que tem as sedas mais lindas que eu já vi em toda a minha vida, pedras preciosas a presos risórios. Um lugar bem legal cercado por montanhas”.
Ora pois Outro jornalista que também procura abordar o cotidiano local de forma diferente é o jornalista André Luiz Azevedo, correspondente da TV Globo em Portugal. No país há mais de dois anos, o profissional de imprensa conta que a função exige que a pessoa seja uma redação completa, e por isso, quem tem a oportunidade de seguir esse caminho do jornalismo deve estar atento a todas as editorias. O turismo, por exemplo, faz parte cada vez mais de suas pautas. “Estou sempre à procura do que possa interessar aos brasileiros. E Portugal se transformou em um destino prioritário para quem viaja para o exterior”.
Crédito:Luiz Ribeiro/ TV Globo André Luiz Azevedo é correspondente da Globo em Portugal Os motivos que atraem os brasileiros, em especial, são os mais diversos, desde ligações históricas, culturais e facilidade da língua, até aos preços mais baixos em comparação com o restante da Europa. Atualmente, ele é um dos enviados especiais que participam do quadro “Crônicas do JH”, no “Jornal Hoje”. A repercussão positiva reflete a aposta em um modelo que foi pouco testado no Brasil.
“O formato dá uma oportunidade espetacular de fazer um tipo de reportagem que não tem espaço normalmente na televisão. Assim podemos buscar pautas mais criativas, com imagens mais elaboradas, um texto mais solto, sem compromisso com o dia a dia. A resposta tem sido entusiasmante. Não só pela audiência, mas pelos índices de memorização”.
Dentre as inúmeras pautas no país, o jornalista se recorda de uma das suas reportagens mais marcante. Tentando justamente ligar os pontos sobre o que se passa com a comunidade brasileira no país português, Azevedo investigou a história de Perivaldo, ex-jogador da Seleção Brasileira.
O atleta tinha virado morador de rua, e não raras vezes era visto perambulando pelas vielas de Lisboa. Em 2013, o lateral direito de prestígio voltou ao Brasil e teve a oportunidade de reencontrar a família. O retorno foi filmado e organizado pela equipe de reportagem do “Fantástico”.
Desafios da função Não há uma fórmula mágica. Quem deseja seguir carreira no jornalismo como correspondente precisa ficar atento diante das possibilidades. Um bom começo é possuir um segundo idioma. Quem sabe um terceiro, se possível. Os cursos de especialização também são um diferencial, mas as dicas no geral não fogem do que hoje já é exigido de um profissional de imprensa.
De acordo com Adghirni, cabe ao jornalista fazer com que o seu olhar vá para onde a multidão não está indo. “Precisa enxergar além do óbvio. Sair do pensamento moldado, do pensamento unificado. Uma das grandes ideias durante os meus três anos no Irã foi justamente trazer coisas que o leitor não sabia”.
O trabalho na região rendeu no livro “Iranianos”, que derruba mitos alardeados por parte da mídia durante a cobertura sobre a região, como o fluxo de americanos no país, um fato considerado como surpreendente pelo correspondente, e ainda as questões históricas e culturais. A obra traz também um retrato da beleza do Irã, com uma imagem que, para ele, destoa do que as pessoas veem quando chegam ali.
“Isso, não é avaliação minha, mas quase unanime. As pessoas vem um pouco receosas, com medo, mas depois se dão conta que é uma gente extremamente doce, acolhedora, hospitaleira, afaga, tem paixão pelos brasileiros”, conta. Na visão de Luiz Azevedo, a atenção total ao que acontece pode ser uma boa fonte para reportagens sobre o tema. Mas o que deve guiar o correspondente é dar luz ao que realmente interesse ao brasileiro, o que agregará ao cidadão.
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