Correspondentes debatem dificuldades para os jornalistas na América Latina
Temas como censura, violência e políticas governamentais que cerceiam economicamente os veículos de comunicação deram o tom do debate “Os desafios de ser jornalista na América Latina” durante o mídia.
Participaram da discussão os jornalistas Ariel Palacios, correspondente do jornal O Estado de S. Paulo e do canal GloboNews na Argentina; Pablo Giuliano, correspondente da agência EFE no Brasil; Verónica Goyzueta, correspondente do jornal espanhol ABC News ; e Kamil Ergin, representante da Cihan News Agency na América Latina, que moderou o painel.
Segundo Palacios, que abriu a conversa, a imprensa que trabalha na região tem uma série de problemas, mas um dos maiores é a “proliferação de clichês”. Ele mostrou imagens que circularam na internet com a intenção de associar políticos e religiosos, por exemplo, a ideologias ou práticas de épocas passadas que não correspondem a realidade.
“Além de pressões enfrentamos esses clichês, essas simplificações. Mas como jornalistas temos que ser rigorosos, usar o termo correto. E como correspondente temos que usar e explicar as nuances”, afirma.
Em seguida o profissional deu mais detalhes da realidade argentina, a qual conhece de perto. Entre os principais problemas, ele destacou as “coletivas de imprensa” em que os jornalistas não podem fazer perguntas e as dificuldades para conseguir informações públicas básicas, seja de governos ou empresas. “Faz três semanas que eu estou tendo dificuldades para conseguir os números de exportação de doce de leite”, disse.
No Brasil há quase 10 anos, o argentino Giuliano bateu bastante na tecla do monopólio da comunicação e de como isso interfere no trabalho dos jornalistas, podendo influenciar negativamente. “A mídia grande que a gente tem agora é fruto de processos políticos”, explica. Segundo ele, por isso o correspondente precisa filtrar muito bem a informação porque ela está “nas mãos de poucas pessoas”.
Presidente da Associação dos Correspondentes Estrangeiros (ACE) e correspondente do El Telégrafo , ele reforçou o posicionamento de Palacios ao cobrar mais rigor no uso das palavras para falar dos países da região e seus sistemas políticos. Além disso, Giuliano deu uma dica preciosa para os estudantes que aspiram ser correspondentes: “Uma grande deficiência do Brasil é não ter correspondente na América Latina”.
Já Verónica, que colabora com periódicos latino-americanos, norte-americanos e europeus e co-organizou os livros "Guerra e Imprensa. Um olhar crítico da cobertura da Guerra do Iraque" (São Paulo, Summus, 2003) e "O Brasil dos Correspondentes", (São Paulo, Mérito, 2008), focou sua explanação na questão da violência que os jornalistas têm sofrido na região.
Ela citou dados recentes da ONG Repórteres Sem Fronteiras (RSF) sobre jornalistas mortos de 2000 a 2014, que mostram no topo do ranking México (81), Colômbia (56) e Brasil (38). “Temos a ideia um Brasil pacífico, mas os dados mostram que não é como a gente pensa. Não estamos vivendo num ambiente tão pacífico assim. E praticamente todos os casos ficam impunes”.
Crédito:Danúbia Guimarães Correspondentes falaram dos desafios da cobertura na América LatinaA jornalista lembrou ainda os episódios de violência que marcaram as manifestações de 2013, em que jornalistas foram agredidos e hostilizados por policiais e manifestantes. “E nas redes sociais também somos atacados. Tem jornalistas que são perseguidos por grupos na internet. Eu tenho às vezes um pouco de cuidado com as coisas que eu coloco no Facebook ou no Twitter”, explicou.
Ela também lamentou a dificuldade de chegar a algumas fontes na condição de jornalista freelancer e de veículos “menores”. “Em eventos até temos bastante trânsito e liberdade, mas quando vamos por telefone ou por e-mail temos um pouco mais de dificuldade. Não tem espaço para dar entrevistas para jornalistas freelancers”.
Ao final das apresentações, os participantes responderam uma das dúvidas mais consuns do público: como se tornar correspondente e conquistar espaço. Ergin, que moderou o painel, contou sua experiência pessoal até tornar-se o único jornalista turco no Brasil e resumiu os conselhos de seus colegas.
“Vim para o Brasil ser professor de inglês, mas eu sempre quis escrever. Passou três anos até surgiu uma oportunidade. Então estejam prontos. Pode demorar, mas vocês precisam estar preparados para quando a hora chegar”, finalizou.
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