Corinthiano assumido, Chico Lang fala de jornalismo e a relação da mídia com os clubes

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Atualizado em 14/10/2011 às 12:10, por Guilherme Sardas.


TV Gazeta

Quando Francisco José Lang Fernandes de Oliveira, 57, ou apenas Chico Lang, faz suas intervenções no "Gazeta Esportiva" ou no "Mesa Redonda", da TV Gazeta, o torcedor corinthiano sabe que será representado por "um dos seus".


Há mais de 20 anos na emissora paulista, Lang já vestiu a camisa do alvinegro no ar, é conhecido por apostar em goleadas absurdas do "timão", sem falar do linguajar pouco polido que usa para alfinetar os rivais. Em 2010, comemorou a oficialização do estádio corinthiano com um nada isento "Chupa, São Paulo".


Tido por muitos como um personagem - a espelho dos antigos debatedores esportivos que defendiam seus clubes a ferro e fogo, simulando na TV o famoso "papo de botequim" -, Lang começou na imprensa escrita no extinto periódico Mundo Esportivo , do polêmico Geraldo Bretas, atuando em seguida como repórter policial do Notícias Populares e na Folha da Tarde , do Grupo Folha, consolidando a carreira no esporte.


Foi em coluna deste diário, em 1985, ano da derrocada da chamada "Democracia Corinthiana", que assumiu em definitivo o fanatismo pelo time de Parque São Jorge. Na entrevista abaixo, Lang fala de quando resolveu assumir a paixão pelo clube, conta histórias curiosas que vivenciou por conta da opção e garante que não liga para os que criticam sua postura.


IMPRENSA - Quando você assumiu publicamente seu amor pelo Corinthians?


Chico Lang - Foi em 1985. Eu era editor de esportes da Folha da Tarde e o Carlos Brieckman, que era o editor-chefe - um gordão muito engraçado - comentou comigo que precisava de um colunista de esporte. Eu disse para ele que eu não gostava de colunista em esporte, que achava uma merda. Aí ele falou: "Mas você não manda aqui, quem manda sou eu, então você trata de arrumar algum colunista". Eu lembrei do Flávio [Prado, hoje colega de emissora]. Ele sempre foi ácido, irônico, mas o Brieckman não gostou do texto do Flávio. Então, ele colocou um outro cara, que tinha o apelido de "boto cor-de-rosa", porque tinha um texto muito viado, nada a ver com esporte. Aí o Brieckman falou para eu escrever o texto. Eu estava puto da vida, escrevi um texto metendo o pau no Roberto Pasqua, que ia assumir a presidência do Corinthians [que derrotou, naquele ano, o candidato da chamada "Democracia Corintiana", movimento liderado pelos jogadores, como Sócrates, Casagrande e Wladimir, que exigiam participação dos atletas nas decisões diretivas do clube]. No texto, falei que eu era corintiano, que tinha o direito de exigir um presidente mais democrático, disse que os conselheiros do clube eram fascistas, meti o cacete nos caras.


Como foi a repercussão?


Foi enorme. No dia seguinte, chegaram mais de 100 cartas. Aí o Brieckman me chamou e falou: "Já sei quem vai ser o colunista do jornal. É você." Eu falei: "Nem por um c...". Mas, para ele não me encher o saco, eu pedi o dobro do que eu ganhava. Ele disse: "Eu pago. O Sr. Frias [Octavio Frias de Oliveira, proprietário do Grupo Folha, falecido em 2007] adorou o que você escreveu." Eu disse: "Então, eu quero mais tanto". Ele disse: "Eu pago." Se eu ganhava cinco, eu passei a ganhar 20, uma coisa assim, absurda. Minha coluna, que chamava "Bola Solta", era a mais lida que a do Brieckman, que ia na primeira página.


O que te levou a assumir o time naquele momento?


Olha, Nelson Rodrigues assumia que era Fluminense no Rio, João Saldanha, que foi jogador e técnico do Botafogo, e depois virou jornalista, assumia que era botafoguense. Aí eu falei: quer saber de uma coisa? Aqui em São Paulo ninguém assume nada, eu vou assumir que sou corintiano. E foi um sucesso. Numa época, que ainda tinha restolho de repressão militar, e todo mundo tinha medo de falar as coisas, em 1985, eu metia o pau em todo mundo.


O fato de você ser corintiano facilita seu acesso às informações sobre o clube?


Nunca me facilitou acessos. Nem sócio do Corinthians eu sou. De vez em quando, eu peço camisas autografadas para os diretores, para doar para instituições de caridade. Seria uma coisa muito perigosa usar essa relação com o clube a meu favor. Se eu quisesse, eu até teria portas abertas com a diretoria, mas eu não uso, porque eu ainda sou jornalista. Além disso, de um tempo pra cá, as relações entre imprensa e os clubes ficaram muito ruins, porque se criou muitas assessorias de imprensa. Por exemplo, se o presidente do Corinthians me vê e quer falar alguma coisa, ele me liga depois ou me deixa um telefone. Mas, durante uma coletiva, eu não uso isso. Todo mundo, até jogador, me vê e vem falar comigo. Eu não uso, porque eu respeito meus colegas.


Você já teve problemas de acesso aos clubes rivais?


No São Paulo, nunca tive problemas. No Santos, também não. No Palmeiras, tive. Uma vez, em 1994, a [torcida organizada] Mancha Verde cercou o CT do clube, porque fui fazer uma matéria. Algum diretor chamou, né? Mas um cara lá de dentro me avisou: "Chico, cai fora que a Mancha tá chegando, e vão virar o carro da Gazeta". No que eu saí, eu vi os caras chegando. Outra vez, na Portuguesa, fui fazer um jogo que o Corinthians ganhou de 3 a 1, eu tentei descer da cabine para o vestiário e a [torcida organizada] Leões da Fabulosa me cercou. Aí eu corri pra cabine de imprensa, e os caras querendo me pegar. A polícia veio e desceu o porrete neles. O cara da polícia disse assim: "Eu não quero ser chato, mas, não tem como você avisar a gente toda vez que você vier aqui?"


Alguma fonte já deixou de falar com você pelo fato de você ser corintiano?


Na Copa de 2002, eu levei um certo gelo do Felipão. A "Mesa Redonda", que é transmitida à noite, começava na mesma hora do treino do Brasil lá no Japão, que era de manhã. E eu querendo botar o Felipão no ar, e nada. Um dia ele falou: 'se você não fosse corintiano, eu até falava'. Aí eu chamei ele de lado e falei: 'Vamo parar de viadagem, que aqui todo mundo é Brasil'. Depois disso, melhorou.


Muitos jornalistas esportivos dizem torcer para times de menor expressão. Eles falam a verdade?


Na maioria das vezes, é conversa fiada.


Você costumava dar palpites exagerados para os jogos do Corinthians. De um tempo para cá, você tem evitado. Você está mudando o perfil?


Não, não mudei o perfil, eu fazia aquelas previsões para provocar o [Roberto] Avallone [ex-colega de "Mesa Redonda"]. Fazia parte do nosso jogo de cena, mesmo que a gente não combinasse nada. A gente não se dava muito bem fora do ar, mas, na hora que começava o programa, fluía. Quando ele saiu, eu perdi um pouco a referência. Foi uma das maiores duplas esportivas que já existiu.


Assumir o time trouxe prejuízos para sua carreira? Alguém da emissora já pediu que você mudasse a postura?


Olha, para dizer a verdade, isso não me incomoda nenhum pouco. Teve uma época que eu comecei a falar alguns palavrões na TV, aí pediram pra eu parar. Eu xingava muito a mãe dos caras, aí eu dei uma maneirada. Vi que estava exagerando a dose do xarope. Mas, nunca me incomodei muito. Os anunciantes que vêm para cá, anunciam comigo.


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