"Coragem de Herzog foi crucial para o declínio da ditadura", disse José Serra

"Coragem de Herzog foi crucial para o declínio da ditadura", disse José Serra

Atualizado em 26/06/2009 às 14:06, por Eduardo Neco/Redação Portal IMPRENSA.

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Na noite da última quinta-feira (25), aconteceu o lançamento do Instituto Vladimir Herzog, criado em homenagem ao jornalista morto em 1975, durante o período da chamada abertura "lenta e gradual" que colocaria fim ao regime militar nos anos seguintes.

A cerimônia de inauguração, realizada na Cinemateca, zona sul da capital paulista, contou com a participação de autoridades políticas, da imprensa e de outros setores da sociedade. A abertura do evento foi realizada pela atriz Eva Wilma, que leu uma carta redigida pela mãe de Vlado ao juiz responsável pela apuração de sua morte.

Em seguida, o filho do jornalista, Ivo Herzog, principal idealizador do Instituto, declarou que a morte de seu pai "mudou, definitivamente, a história do país". "Quando perdemos a capacidade de nos indignar com atos cruéis aos outros, perdemos uma parte do que nos faz humanos", disse na seqüência Ivo herzog, acrescentando que o Instituto trará suporte às discussões sobre o Jornalismo no Brasil.

Gisella Gutarra
Eva Wilma

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva enviou um pronunciamento através de videoconferência em que postou Vlado como "um herói nacional" e que o evento de sua morte serviu "como um impulso para que o povo finalmente lutasse contra o regime".

"O Brasil precisa aprender a valorizar os heróis e a juventude deve conhecer a luta dessas pessoas", observou o presidente. Por fim, declarou que o Instituto "tem a tarefa nobre de preservar e divulgar a obra de um grande jornalista".

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, à exemplo de Lula, não compareceu ao evento, mas, em uma entrevista concedida à TV Cultura e exibida durante a cerimônia, expressou sua admiração por Vlado indicando que "para que a sua memória seja preservada é preciso inquietação, mesmo que tímida, assim como a de Vladimir".

Fazendo menção ao estilo modesto de Herzog em se colocar diante de questões delicadas, FHC lembrou que "o jornalismo correto não é o que promove escândalos, mas o que põe as coisas para frente e inicia debates".

Representando a Presidência da República, o ministro da Secretaria dos Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, abriu seu discurso declarando que na inauguração do Instituto, "o nome de Herzog marcava, pela segunda vez, a história".

Ainda elogiou o governo de José Serra por ter auxiliado a criação do Museu do Imaginário do Povo Brasileiro, no antigo prédio do Dops (Departamento de Ordem Política e Social), ao lado da Estação da Luz, no centro de São Paulo, e sugeriu que a iniciativa se repita no prédio da Rua Tutóia que servia ao DOI-CODI, local em que Vlado foi morto.

Divulgação
José Serra
O Governador José Serra, que discursou em seguida, sentenciou que o futuro do Instituto não depende de seu passado apenas, "mas do que seus idealizadores construirão".

Ele observou que a inquietação do regime com a figura de Vlado se deu por conta de seu perfil calmo, proporcionalmente oposto ao estereótipo do subversivo que a ditadura buscava. "O choque foi maior ainda pois ele não era uma ameaça, mas um jornalista aberto e anunciado contra o regime".

Finalizou seu pronunciamento afirmando que a coragem de Herzog ajudou a "quebrar a espinha dos setores mais conservadores do regime", o que foi crucial "para inicío do declínio da ditadura".

Na ocasião, também foram homenagados Dom Evaristo Arns, o rabino Henry Sobel e o reverendo James Wright que juntos, em 1975, organizaram um ato ecumênico em memória de Vlado.

A cerimônia foi encerrada com apresentação do Coral Luther King, que recebeu a cantora Zizi Possi que interpretou os clássicos Cálice, de Chico Buarque, e O Bêbado e o Equilibrista, imortalizado na voz de Elis Regina.

Memória de Vlado

O rabino Henry Sobel, um dos homenageados da noite, declarou ao Portal IMPRENSA que o Instituto Vladimir Herzog servirá como um marco às atitudes do Estado à época da Ditadura, "que não devem ser esquecidas". "O instituto vai ser uma arma pedagógica para conscientizar a juventude para que nunca mais aconteça o que ocorreu há 35 anos. Não à tortura; sim - inspirados por Vlado Herzog - sim à favor da dignidade humana".

Divulgação/Instituto Vladimir Herzog
Da esq. para a dir. Clarice e Ivo Herzog, juntos de Dom Paulo

Ivo Herzog reafirmou a importância da iniciativa de lembrar a memória de seu pai, principalmente, em um momento de redefinição da profissão de jornalista no país. "Vai ajudar na busca das pessoas por informações sobre a nossa história e contribuirá para o desenvolvimento de um jornalismo melhor e dessa maneira garantir que a justiça seja universal e que a vida, acima de tudo, seja preservada. Agora que as costas estão pesando ainda mais, porque nós temos o compromisso de preservar a memória do meu pai e fazer o uso correto dessa memória".

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