Copeira da agência Wunderman conta como quase se tornou estrela da Microsoft
"Vamos acertar essa merda, isso aí tá frio demais. Vamos carregar mais o black nessa opção. C******* gente, me apresenta algo mais orgânico.
Atualizado em 11/03/2014 às 11:03, por
Camilla Demario.
aí tá frio demais. Vamos carregar mais o black nessa opção. C******* gente, me apresenta algo mais orgânico. P****, vocês estão passando algum filtro antes de me apresentar isso? Caceta, isso aqui tá fraco demais!”. Diretora de criação dando bronca em algum estagiário, certo? Errado. Na verdade, o monólogo acima é sobre café e a protagonista é Maria Lourdes de Oliveira, mais conhecida na agência Wunderman (que tem American Express, Microsoft e P&G entre seus clientes) como Head of Coffee.
Crédito: Dona Lú é head of coffee da Wunderman No bom português, seria apenas copeira. Mas ela é responsável pelo combustível estimulante das cabeças criativas de uma das maiores agências de publicidade do mundo. E para um publicitário que se preze nada mais justo que valorizar seu pessoal com um nome de cargo mais descolado. Faz sentido. Dona Lu quase emplacou como garota-propaganda da Microsoft, avisa a fruta do dia pelo Twitter (onde escreve ainda frases de autoajuda e é seguida por Roberto Justus, dono da Wunderman) e vasculha na internet uma antiga paixão dos tempos da adolescência, muito antes de casar e ter três filhos, como uma boa stalker.
Nascida em Santo Expedito, “patrimônio de Presidente Prudente” (SP) – como ela mesma explica –, Lurdes saiu de sua cidade natal depois de levar um tapa na cara. Um não. Dois! Literalmente. O pai, cabra macho do Ceará, não acreditava no medo que a filha tinha das cobras, acostumadas a se esconder nos campos de algodão onde a família trabalhava. Irritado com as desculpas, o tapa veio na frente dos irmãos. Aquilo foi a gota d’água para, aos 15 anos, tentar a vida na capital.
Crédito: Copa da agência é personalizada com caricaturas de dona Lú De carona com a família de uma amiga, teve casa e comida no começo. Arrumou emprego como babá, mas como a vida é cheia de coincidências – nem sempre boas –, foi acusada de estar se engraçando para o marido da patroa e, pela segunda vez, um tapa na cara mudou sua vida. Lurdes foi então morar em uma pensão na periferia de São Paulo, voltou aos estudos e conheceu o amor da sua vida. Foram cinco anos de um noivado reservado e sem maiores intimidades. Entretanto, algo abalou a relação. Também de Presidente Prudente, o rapaz foi vítima de um boato que o fez duvidar da virgindade de Lurdes, alegando que a primeira vez da moça já tinha ocorrido com um homem da cidade deles. O perdão só viria com uma prova de que ainda era virgem. “Mas eu não sou papel pra tirar prova e o noivado acabou”, conta.
Para curar a ressaca do amor perdido, aceitou o convite de outro rapaz, seu futuro marido, para ir a um show. Mal sabia que a verdadeira ressaca ainda estava por vir. “A gente acabou bebendo demais e quando chegamos a casa dele, acabou rolando”, ela diz. O problema é que a embriaguez afetou a memória. “Cinco anos de noivado e nada. Quando rolou, com outro, eu não lembrava no dia seguinte”, diverte-se. O casamento durou dez anos. Lurdes não estava disposta a abrir mão da sua independência. Desde que chegou a São Paulo, há mais de quarenta anos, ficou desempregada apenas um. De chefe da limpeza em um banco, passou para copeira em uma grande rede de lojas de varejo e uma assessoria de estrangeiros –“Lá, só podia dar ‘bom dia’ e mais nada” – até chegar à Wunderman.
Crédito: Dona Lú ganhou um notebook dos funcionários da agência No começo, ela estranhou o clima descontraído, pré-requisito das agências de publicidade. O pessoal até comentava o jeitão quieto da copeira. Como criança em um ambiente estranho, aos poucos foi se soltando, até se tornar o centro das atenções. Um dos maiores fãs é Guilherme Medici, diretor de arte da agência, criador do logo “Starlurdes” e organizador da festa surpresa no Dia das Mães. “Fizemos uma vaquinha para comprar um computador, porque ela já queria mexer no Twitter, ter conta no Facebook. A empresa inteira se reuniu na sala de reunião escondido e, quando ela entrou, fiz um discurso dizendo que ela era nossa mãezona. A ‘bicha’ ficou mal, quase caiu no chão de tanto que chorava. Aí foi uma comoção: todo mundo chorando”, conta Guilherme.
“Lu é, ao mesmo tempo, criança e mãezona. Criança, quando fica amuada com algum problema, esquece de comer e eu tenho que ficar ao lado dela vigiando para ver se ela se alimenta. Mãezona, quando me oferece o que sobrou do almoço dela ‘para eu não ficar fraquinha’, ou quando por um imprevisto não tenho tempo de almoçar. É nessa delicadeza recíproca que ela nos encanta e cativa. Tê-la por perto só me torna um ser humano melhor”, confessa Carla Purcino, gerente de planejamento da Wunderman.
Mas a copeira também já caiu em algumas furadas. “Uma vez tentamos colocar ela numa campanha da Microsoft, mas o cliente barrou. Era para mostrar pessoas que mudaram suas vidas porque começaram a usar computador, e pô, a vida dela mudou pra caramba. Numa agência digital, a gente digitalizou a nossa copeira. Se bem que ela é mais informativa: está mais para jornalista que publicitária”, brinca Guilherme.
No dia anterior à visita de IMPRENSA, Dona Lu teve um dia de folga. Morando sozinha, engana-se quem pensa que foram horas de descanso. A cabeça continuou na agência. “Eu não consigo não pensar em todo mundo. Cada vez que olhava no relógio, ficava imaginando o que estaria fazendo naquela hora. Minha alegria é isso aqui”.
Crédito: Dona Lú é head of coffee da Wunderman No bom português, seria apenas copeira. Mas ela é responsável pelo combustível estimulante das cabeças criativas de uma das maiores agências de publicidade do mundo. E para um publicitário que se preze nada mais justo que valorizar seu pessoal com um nome de cargo mais descolado. Faz sentido. Dona Lu quase emplacou como garota-propaganda da Microsoft, avisa a fruta do dia pelo Twitter (onde escreve ainda frases de autoajuda e é seguida por Roberto Justus, dono da Wunderman) e vasculha na internet uma antiga paixão dos tempos da adolescência, muito antes de casar e ter três filhos, como uma boa stalker.
Nascida em Santo Expedito, “patrimônio de Presidente Prudente” (SP) – como ela mesma explica –, Lurdes saiu de sua cidade natal depois de levar um tapa na cara. Um não. Dois! Literalmente. O pai, cabra macho do Ceará, não acreditava no medo que a filha tinha das cobras, acostumadas a se esconder nos campos de algodão onde a família trabalhava. Irritado com as desculpas, o tapa veio na frente dos irmãos. Aquilo foi a gota d’água para, aos 15 anos, tentar a vida na capital.
Crédito: Copa da agência é personalizada com caricaturas de dona Lú De carona com a família de uma amiga, teve casa e comida no começo. Arrumou emprego como babá, mas como a vida é cheia de coincidências – nem sempre boas –, foi acusada de estar se engraçando para o marido da patroa e, pela segunda vez, um tapa na cara mudou sua vida. Lurdes foi então morar em uma pensão na periferia de São Paulo, voltou aos estudos e conheceu o amor da sua vida. Foram cinco anos de um noivado reservado e sem maiores intimidades. Entretanto, algo abalou a relação. Também de Presidente Prudente, o rapaz foi vítima de um boato que o fez duvidar da virgindade de Lurdes, alegando que a primeira vez da moça já tinha ocorrido com um homem da cidade deles. O perdão só viria com uma prova de que ainda era virgem. “Mas eu não sou papel pra tirar prova e o noivado acabou”, conta.
Para curar a ressaca do amor perdido, aceitou o convite de outro rapaz, seu futuro marido, para ir a um show. Mal sabia que a verdadeira ressaca ainda estava por vir. “A gente acabou bebendo demais e quando chegamos a casa dele, acabou rolando”, ela diz. O problema é que a embriaguez afetou a memória. “Cinco anos de noivado e nada. Quando rolou, com outro, eu não lembrava no dia seguinte”, diverte-se. O casamento durou dez anos. Lurdes não estava disposta a abrir mão da sua independência. Desde que chegou a São Paulo, há mais de quarenta anos, ficou desempregada apenas um. De chefe da limpeza em um banco, passou para copeira em uma grande rede de lojas de varejo e uma assessoria de estrangeiros –“Lá, só podia dar ‘bom dia’ e mais nada” – até chegar à Wunderman.
Crédito: Dona Lú ganhou um notebook dos funcionários da agência No começo, ela estranhou o clima descontraído, pré-requisito das agências de publicidade. O pessoal até comentava o jeitão quieto da copeira. Como criança em um ambiente estranho, aos poucos foi se soltando, até se tornar o centro das atenções. Um dos maiores fãs é Guilherme Medici, diretor de arte da agência, criador do logo “Starlurdes” e organizador da festa surpresa no Dia das Mães. “Fizemos uma vaquinha para comprar um computador, porque ela já queria mexer no Twitter, ter conta no Facebook. A empresa inteira se reuniu na sala de reunião escondido e, quando ela entrou, fiz um discurso dizendo que ela era nossa mãezona. A ‘bicha’ ficou mal, quase caiu no chão de tanto que chorava. Aí foi uma comoção: todo mundo chorando”, conta Guilherme.
“Lu é, ao mesmo tempo, criança e mãezona. Criança, quando fica amuada com algum problema, esquece de comer e eu tenho que ficar ao lado dela vigiando para ver se ela se alimenta. Mãezona, quando me oferece o que sobrou do almoço dela ‘para eu não ficar fraquinha’, ou quando por um imprevisto não tenho tempo de almoçar. É nessa delicadeza recíproca que ela nos encanta e cativa. Tê-la por perto só me torna um ser humano melhor”, confessa Carla Purcino, gerente de planejamento da Wunderman.
Mas a copeira também já caiu em algumas furadas. “Uma vez tentamos colocar ela numa campanha da Microsoft, mas o cliente barrou. Era para mostrar pessoas que mudaram suas vidas porque começaram a usar computador, e pô, a vida dela mudou pra caramba. Numa agência digital, a gente digitalizou a nossa copeira. Se bem que ela é mais informativa: está mais para jornalista que publicitária”, brinca Guilherme.
No dia anterior à visita de IMPRENSA, Dona Lu teve um dia de folga. Morando sozinha, engana-se quem pensa que foram horas de descanso. A cabeça continuou na agência. “Eu não consigo não pensar em todo mundo. Cada vez que olhava no relógio, ficava imaginando o que estaria fazendo naquela hora. Minha alegria é isso aqui”.





