Coordenadores de candidatos falam sobre desafios da comunicação nas eleições
No início do período eleitoral, pesquisas apontavam o então candidato Fernando Haddad como o terceiro colocado nas intenções de voto. No dia
21 de agosto, ele ainda aparecia com 8% das intenções de votos, de acordo com dados do Datafolha.
De acordo com o vereador José Américo, um de seus coordenadores de campanha, era preciso “compor a imagem” do então candidato de forma positiva. Para isso, destacaram seu perfil técnico e suas alianças com Lula e Dilma.
A linguagem de Haddad precisou ser adaptada ao público paulistano. Seu marqueteiro, João Santana, procurou torná-la mais “objetiva” e “concreta”. O vereador Chico Macena (PT-SP) afirma que o “ponto fraco” era sua comunicação direta com o público – “Aquela coisa da rua, se o cara está me cumprimentando ou não está”, comenta. “Mas, no final da campanha, ele virou ‘palanqueiro’.
Haddad foi para o segundo turno e a coordenação de campanha se surpreendeu com a resposta do eleitorado ao seu projeto de governo. “Nas pesquisas de segundo turno, concluímos que as pessoas se lembravam muito mais das nossas propostas. O bom tempo de televisão do segundo turno ajudava muito, porque pudemos explicar com mais didática nossas propostas que não estavam muito claras na propaganda do primeiro turno. Acreditamos no peso que teriam as propostas”, afirma José Américo.
O Fenômeno Russomanno
No dia 20 de setembro, o candidato Celso Russomanno ainda aparecia com a maior porcentagem de intenções de voto (35%), de acordo com o Datafolha. Ter trabalhado com televisão aumentava sua popularidade. No entanto, de acordo com o presidente estadual do PRB, Vinícius Carvalho, a propaganda precisava mostrar algo mais. “A população conhecia o Celso Russomanno repórter, mas nós o apresentamos também como o homem que poderia conduzir a cidade com propostas concretas e plenamente executáveis. Era isso que realmente importava”, diz.
Durante a corrida eleitoral, cresceu a divulgação de que o candidato teria relações com a Igreja Universal. “Nas sondagens que realizamos durante a campanha jamais detectamos que esta suposta ‘ligação’ seria fator determinante para a vitória ou para a derrota”, comenta Carvalho.
Carvalho menciona que o tempo televisivo do candidato não era o suficiente para rebater as acusações dos adversários. “Sua queda aconteceu no momento em que a campanha de Haddad passou a atacar de forma mentirosa uma de suas propostas para o transporte coletivo de São Paulo. Infelizmente, eles se aliaram a outros partidos aumentando o tempo para mentir na TV, chegando a aproximadamente 28 minutos por programa e nós, somente 2 minutos para desmentir. Não conseguimos explicar a proposta”.
Ecos de Obama
Desde a exitosa atuação virtual do então candidato à presidência Barack Obama, em 2008, políticos e marqueteiros brasileiros têm buscado entender o quanto deste admirável mundo novo pode ser transferível para cá.
Envolvido com a comunicação geral e on-line do candidato, Macena destaca a diferença entre as legislações eleitorais americana e brasileira na trincheira eletrônica: a permissão para compra de espaços de propaganda na rede que é vetada por aqui.
“Lá [nos EUA], busca-se o eleitor de forma ativa. Aqui, o eleitor tem que me procurar, no site oficial do candidato. Por isso, comparar nossa realidade com a do Obama é superestimar a Internet. Mas, subestima quem acha que ela não influencia em nada na campanha”, comenta.
Com tais limitações, Macena acredita que o uso do site oficial afirmou o grande diferencial petista na campanha: a exposição recorrente do programa de governo. “Nenhum dos adversários lançou programa de governo. Só o Serra no segundo turno. Nosso site foi usado para mostrar o programa de forma aprofundada e inovadora”.
Acessos limitados
Crédito:Divulgação Vinícius Carvalho, do PRBA confiança no modelo, no entanto, não evitou certa decepção pessoal em relação aos acessos à plataforma oficial. “O número de visitas não é significativo. Tinha uma expectativa muito maior”, revela Macena.
Nesse campo, a percepção do PRB é similar. “Sentimos que a internet ainda não foi fator decisivo no processo eleitoral porque o grande público não a usa como uma forma de se expressar politicamente. Há suspiros de manifestações, mas, hoje, ela ainda é superestimada”, comenta Carvalho.
Com uma equipe de cerca de 20 pessoas no QG on-line do candidato, o partido apostou, segundo o presidente estadual, em “um site claro objetivo” e no relacionamento nas redes. “O candidato precisa estar em contato com as pessoas, sem que a totalidade de seu perfil seja entregue a uma equipe. As pessoas querem ouvir e serem ouvidas. Nem que seja um simples ‘olá’”.
Pouca doação
Se em 2008 Obama arrecadou nada menos que US$ 50 milhões, apenas com doações feitas na Internet, a aplicação do modelo aqui no Brasil, ao menos por enquanto, é tido como pouco viável. Em 2010, o PT paulista investiu cerca de R$ 600 mil para a estrutura e logística necessárias para a arrecadação on-line da campanha para governador. Sem sucesso.
“No final, arrecadamos de doação cerca de R$ 20 mil. Totalmente deficitário. Neste ano, nem abrimos para doações por internet”, diz Macena. Segundo Carvalho, para quem o modelo de doações no país é “ineficaz”, dois motivos têm levado o eleitorado a rejeitar fazer doações: a burocracia imposta pela legislação eleitoral – “Isso espanta doadores, sejam pessoas físicas ou jurídicas” – e a desconfiança da população com a classe política.
Sobre o segundo ponto, para ele, o partido já vem dando mostras de que pode ser uma alternativa ao eleitor. Quanto a isso, segundo ele, o partido tem buscado mostrar diferenças à população. “Temos uma proposta diferente. Por isso, decidimos ficar neutros no segundo turno. Os nossos eleitores esperavam essa postura no PRB”, finaliza.
A reportagem tentou falar com os quatro primeiros colocados nas eleições municipais de São Paulo. Entretanto, as equipes de coordenação do candidato Gabriel Chalita (PMDB-SP) e José Serra (PSDB-SP) não se manifestaram sobre a pauta.
* Com supervisão de Vanessa Gonçalves






