Coordenadora da ONU sobre HIV/Aids no Brasil lamenta o pouco espaço da pauta na mídia

No auge dos anos 1980 e início da década seguinte, não foi apenas de overdose que morreram os heróis de Cazuza, em “Ideologia”. Recém-descoberta à época, a Aids passou a frequentar intensamente o noticiário mundial, principalmente depois que levou a cabo ídolos da música, como o próprio Cazuza, Renato Russo, da banda Legião Urbana, o vocalista do Queen, Freddie Mercury, entre milhões de outros rostos nem tão conhecidos assim.

Atualizado em 06/11/2014 às 14:11, por Danúbia Paraizo.


Passados pouco mais de trinta anos desde os primeiros casos de contágio pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV), 78 milhões de pessoas foram infectadas, levando à morte 39 milhões. Ao analisar o último levantamento feito pela Organização das Nações Unidas (ONU), divulgado no mês de julho, que mostra uma queda de 35% nos casos da doença no mundo entre 2005 e 2013, o leitor comum pode concluir que a epidemia esteja sob controle.


Crédito:Divulgação Georgiana Braga-Orillard é coordenadora do Programa Conjunto da ONU sobre HIV/Aids no Brasil

A má notícia é que no Brasil houve um crescimento de 11% nas novas incidências, acendendo a luz amarela nos órgãos públicos de saúde. Segundo Georgiana Braga-Orillard, coordenadora do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids), o país vive uma epidemia oculta, apesar da sensação de que a doença foi superada.

“As pessoas têm acesso ao tratamento, não estão mais morrendo como a gente via antes, os jovens já não veem mais seus ídolos morrendo, e acham que a epidemia acabou. Esse falso sentimento de segurança levou a uma nova onda de infecções, principalmente em jovens homossexuais.”


Dentro do grupo de vulnerabilidade estão também os trabalhadores do sexo, moradores de rua e usuários de drogas, mas segundo Georgiana, essa parcela da população acaba invisível diante da diversidade do povo e também pela discriminação. É justamente aí que a imprensa tem papel fundamental ao dar luz a esses casos encobertos.


“Hoje, o pouco que se fala de Aids está na editoria de ciência. Fala-se de novos testes, da cura, de medicamentos, mas não falam mais nas páginas de sociedade”, lamenta. À Revista IMPRENSA, Georgiana falou sobre os esforços da Unaids junto aos meios de comunicação para aumentar a cobertura do tema, formas de a mídia contribuir para o combate à discriminação e como tornar a pauta mais humanizada, apresentando à sociedade rostos e histórias.


IMPRENSA – O último relatório da Unaids revelou que entre 2005 e 2013 as mortes por Aids caíram 1/3 em todo o mundo, mas os novos casos da doença cresceram 11% no Brasil. Ao que se deve esse cenário?

Georgiana Braga-Orillard - Esses números para o Brasil não causaram só surpresa, mas a preocupação de que a epidemia esteja voltando. Há 30 anos, havia uma mobilização da sociedade civil, do governo, da imprensa para conter o problema, mas hoje há um declínio. As pessoas têm acesso ao tratamento, não estão mais morrendo como a gente via antes, os jovens já não veem mais seus ídolos morrendo, e acham que a epidemia acabou. Esse falso sentimento de segurança levou a uma nova onda de infecções.


Por que essa nova onda de contágio passa despercebida?

O Brasil é um país muito grande, tem uma população diversa e acaba que a epidemia fica um pouco escondida. Quando a gente pega os dados de contágio da população geral, na qual há a prevalência de 0,6%, parece pouco, mas se a gente avalia populações específicas, como os trabalhadores do sexo, os moradores de rua e usuários de droga, nas quais a incidência é de 4% a 6% ela já é bem mais alta. Se avaliarmos a população de jovens homossexuais nos grandes centros urbanos, a incidência é maior ainda, de 15%.


A senhora vê alguma relação entre o aumento nos casos de Aids e uma possível diminuição na cobertura da imprensa sobre o tema?

Eu estive 15 anos fora do Brasil e voltei em 2013. E apesar de continuar acompanhando a imprensa brasileira, não havia percebido o tanto que o tema Aids saiu das páginas dos jornais. Hoje, o pouco que se fala está na editoria de ciência. Fala-se de novos testes, da cura, de medicamentos, mas não falam mais nas páginas de sociedade. É um papel nosso, da ONU, do governo, da sociedade civil, de trazer essa temática à imprensa.


Como avalia a profundidade dos textos sobre a pauta? Faltam fontes qualificadas? Mais análises para contextualizar as pesquisas?

Quando lançamos o último relatório, um dos maiores jornais do Brasil publicou um erro, dando o número de pessoas vivendo com HIV em toda a América Latina como se fosse o número apenas no Brasil, e imediatamente, o mesmo erro foi replicado em diversos veículos. Ou esse jornal não fez a devida apuração, ou leu muito rápido o release e os outros não se deram ao trabalho de contestar esse número. A boa notícia é que alguns veículos se dedicaram, tiveram uma visão 360 graus. Sabiam que a matéria não sairia no dia seguinte, mas teria mais profundidade. É claro que a imprensa convive com essa pressão do tempo, de sair com as noticias imediatamente no on-line. Mas há essa dificuldade de fazer uma pesquisa maior, uma análise mais crítica.


Qual seria a saída para a mídia tirar a pauta do foco apenas do caderno de ciência?

Falar do cotidiano das pessoas que vivem com a doença, dar rosto a elas, além de orientar sobre os grupos de maior vulnerabilidade. Dar voz ao jovem heterossexual, a comunidade LGBT, às mulheres, idosos. Estamos batendo muito nessa tecla porque no Brasil, mesmo com toda a tecnologia dos medicamentos feitos aqui, as pessoas têm chegado tardiamente ao teste e ainda mais tarde ao tratamento, por causa da discriminação. Isso precisa ser combatido.


Para melhorar a qualidade da informação sobre o HI V, foi criada no Brasil há 10 anos uma agência de notícias. De que forma essas iniciativas ajudam a imprensa a encontrar novos olhares para a pauta?

A Agência de Notícias Aids, que está sendo gerenciada pela Roseli Tardelli, tem um papel importantíssimo. Através dela notamos que o interesse dos meios de comunicação tem diminuído enquanto a própria sociedade e o governo foram deixando de discutir o tema. Precisamos voltar a falar sobre a Aids, mobilizar parlamentares para que eles discutam o tema. Hoje eles são poucos. Há um conservadorismo maior, uma dificuldade para falar sobre sexo. Mais um motivo para que a gente coloque essa pressão.


De que forma a imprensa pode influenciar os líderes no desenvolvimento de políticas públicas, programas e legislação?

Informando com base, fazendo uma boa pesquisa e não somente replicar o que está sendo falado. O que foi discutido por eles neste ano? O que precisa mudar? O papel da imprensa é levar tudo isso à tona. Ao mesmo tempo, te cuidado com palavras discriminatórias no discurso.


Não usamos “aidético”, por exemplo. Falamos “as travestis”, usando o artigo feminino, porque é com esse gênero que a pessoa se identifica. São vários códigos de linguagem que devem ser utilizados nesse discurso, além de uma boa base cientifica.


A respeito da melhor abordagem para tratar o assunto, quais são os esforços da Unaids para ajudar atualizar os jornalistas?

Temos um manual de comunicação LGBT que trata de diversos temas, não apenas Aids, mas que traz vários termos específicos para orientar os profissionais sobre a melhor abordagem. Estamos agora fazendo uma nova versão desse manual para atualizar os termos ligados às novas tecnologias do tratamento da Aids. O Brasil está bem à frente nesse quesito, mas há muitos termos difíceis para o jornalista. Estamos fazendo essa atualização para distribuir para a imprensa. A expectativa é que o manual esteja disponível a partir de dezembro, no Dia Mundial da Luta Contra a Aids.